Vítor Brás tem 26 anos e abriu a Clínica Morgado da Póvoa com 24 anos, em sociedade com a namorada Mariana Silva, também médica dentista e diretora clínica da unidade. Apesar de já terem trabalhado noutras clínicas, a sua juventude não lhes atestava essa experiência, pelo que só podiam apostar na inovação.
“Tínhamos de marcar pela diferença e pela aposta na inovação, tentando captar clientes mais jovens, aproveitando o facto de a Póvoa de Santa Iria ser uma das freguesias nacionais com um dos mais elevados índices de população jovem”, salienta Vítor Brás. Assim, não se espante ao entrar no consultório da Clínica Morgado da Póvoa durante uma consulta, pois vai parecer que entrou num episódio da série Star Trek e que os médicos dentistas, Vítor Brás ou Mariana Silva, estão a tratar Geordi La Forge, engenheiro-chefe da Frota Estrelar… Os óculos que os clientes usam (infelizmente) não permitem ‘curar’ a cegueira, mas são uma ferramenta “muito útil para que o paciente se sinta mais relaxado durante a consulta”.

O médico dentista já não se recorda onde viu os óculos pela primeira vez, mas foi no decorrer do mestrado de Neuromarketing (hoje Neurociência Aplicada ao Consumo) tendo gostado de imediato da ideia. “O centro do medo no nosso cérebro é a amígdala, pelo que no nosso caso a ideia é distrair o paciente e fazer com que fique muito mais relaxado e distraído durante a consulta, focando a atenção em algo agradável”, explica.
Ambiente moderno e agradável
Com os óculos é possível ver filmes, documentários e concertos de vários estilos musicais, para adultos e crianças. Quisemos saber se nunca tinham tido um paciente que quisesse continuar a usar os óculos, mesmo com o procedimento terminado, e os médicos dentistas responderam de imediato que “sim, as crianças. Mas como normalmente os pais também marcam consulta quando vêm com os filhos, muitas vezes prescindem eles dos óculos para a criança ficar a ver”. O uso dos óculos possibilita, de facto, abstrair-se um pouco do que se está a passar na boca e isolar também algum do som dos equipamentos, embora permita continuar a ouvir as indicações e perguntas do médico.
Mas as inovações da Clínica Morgado da Póvoa não se ficam pelos óculos ‘futuristas’. As diferenças começam logo na sala de espera, com as revistas disponíveis (National Geographic) e também um tablet, com acesso à Internet e atalhos para vários websites nacionais e internacionais de notícias, por exemplo. Vítor Brás salienta que “além da inovação, queremos focar o nosso trabalho na relação de proximidade com o cliente, num atendimento e serviço de qualidade”. A sala de espera tem também uma zona específica para crianças, com vários equipamentos lúdicos disponíveis, como jogos, livros e também um pequeno tablet.

A aposta no marketing sensorial, nomeadamente em cheiros agradáveis como o pó de talco, “misturado com outras fragrâncias calmantes, como camomila, tília e madeira”, é outra das ferramentas para ajudar a tranquilizar o paciente. A clínica dispõe também de um consultório médico (sem equipamento para tratamento dentário) onde os médicos falam com os pacientes e explicam os planos de tratamento que propõem. Todavia, este consultório irá passar já no início de 2017 a ter também equipamento de tratamento dentário “porque o volume de consultas, que rondam em média as 200/250 por mês, já pede, por vezes, outro gabinete”, afirma Vítor Brás.
Qualidade e relação com o cliente
O médico dentista explica que, “sendo nós uma clínica pequena apostamos na qualidade do serviço que prestamos, bem como podemos, e queremos, manter uma relação de proximidade com os clientes”. Adianta que desde a abertura da clínica, há sensivelmente um ano e sete meses, o número de clientes foi sempre crescendo, “lenta mas sustentadamente, com cerca de 30% de novos clientes mês a mês” e apenas “fizemos uns flyers no início, depois disso os novos clientes resultam da publicidade ‘boca a boca’, o que indica um bom índice de satisfação”.

Nas redes sociais, o principal objetivo é a interação com os clientes e não a publicidade, afirma Vítor Brás: “usamos as redes para mostrar a clientes e potenciais clientes um pouco do que é a medicina dentária, com vídeos de preparação da sala antes de intervenções específicas. Não fazemos publicidade nem promoções, mantendo a aposta na qualidade”. A única promoção é a oferta da limpeza/destartarização na primeira consulta, “para mostrar a qualidade dos serviços da clínica”.
Mariana Silva acrescenta que “mesmo em relação ao volume diário de consultas preferimos deixar alguma folga para a possibilidade de o trabalho poder ser mais demorado que o habitual, contando com imprevistos. Ficamos com um pouco de tempo livre entre as consultas, é preferível do que sentirmos que temos a sala cheia de pessoas à espera”. Vítor Brás refere que “se, por qualquer razão, nos atrasamos com um trabalho vimos à sala falar com o paciente seguinte explicar a situação e perguntar se pode esperar, se quer ir tomar um café, ou prefere remarcar”.
O médico dentista frisa que “a clínica é um negócio, mas o meu negócio termina à porta do gabinete, lá dentro praticamos medicina” e, acrescenta: “para que o negócio não influencie a medicina, que é a forma como nós concebemos a medicina dentária, defendemos que a propriedade dos consultórios e clínicas dentárias deviam ser exclusivas de médicos dentistas”. O médico adianta que “conheço casos de clínicas que definem objetivos comerciais aos médicos dentistas, de X limpezas/destartarizações ou outros tratamentos por mês e isso para nós é inconcebível”. Cada um dos médicos dentistas acompanha sempre o seu paciente, mesmo no caso de necessidade de tratamento por outro sócio ou por outro médico externo.
Abrir a clínica ou emigrar
A Clínica Morgado da Póvoa é um negócio familiar detido a 100% pelos dois jovens médicos dentistas e onde a gerência cabe a Gabriela Brás, mãe de Vítor. O médico dentista conta-nos que a decisão de abrir a clínica “surgiu no seguimento das condições precárias em que os jovens dentistas têm de trabalhar na maioria das clínicas”, situação com que se confrontou quando acabou o curso. Assim, a solução passava por emigrar ou arriscar abrir uma clínica própria. “Fizemos um estudo de mercado em várias localidades, nomeadamente Viseu, onde tirámos o curso, e a Póvoa de Santa Iria, de onde sou natural, e os dados indicavam que na Póvoa se justificava. Não queríamos emigrar sem primeiro verificarmos se conseguíamos singrar no nosso País, por isso optámos por ter a nossa clínica e, até agora, está a correr bem”.

Vítor e Mariana são ambos médicos dentistas generalistas, mas “a Mariana está mais dedicada à Odontopediatria e à Ortodontia, enquanto eu trato os casos de Cirurgia e Implantologia, mas quando é necessário recorremos a médicos externos, que vêm à clínica fazer o trabalho, como o Prof. Octávio Ribeiro, para os casos mais complicados de Implantologia”. Por agora, a Clínica Morgado da Póvoa trabalha apenas com um seguro de saúde e tem uma parceria com o Ginásio Clube da Póvoa, “mas estamos a negociar outras parcerias e a possibilidade de trabalharmos com outras companhias de seguros”. Lembra todavia que “o facto de não trabalharmos com seguros não tem sido impedimento, porque muitos clientes têm a possibilidade de enviar as despesas médicas para reembolso, além disso o nosso preço médio ronda os 40/50€ e os clientes têm reconhecido a qualidade do nosso trabalho”.
Mariana Silva está na clínica a tempo inteiro, enquanto Vítor Brás está apenas de quinta-feira a sábado porque quis manter os seus clientes da clínica da Amadora, onde começou a trabalhar depois de ter terminado o curso. “Gosto da clínica, de quem lá está e não quis deixar os meus pacientes”, diz o médico dentista, frisando: “mas todos os nossos clientes sabem que estamos disponíveis no telemóvel para tirar dúvidas e resolver qualquer situação, a qualquer dia, mesmo ao domingo. Dizemos sempre, não envie mensagem, ligue. Se não pudermos atender retornamos a chamada assim que possível”.


