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Risco familiar é acrescido na ausência congénita dos incisivos laterais superiores

Risco familiar é acrescido na ausência congénita dos incisivos laterais superiores

Uma equipa de investigação da CESPU – Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário concluiu, através de uma investigação inédita no nosso país, que os familiares directos de indivíduos com ausência congénita dos incisivos laterais superiores têm um risco mais elevado de sofrerem do mesmo problema em relação à população em geral.

Apesar de em Portugal ainda serem poucos os dados existentes relativos à prevalência das agenesias dentárias, estudos científicos realizados pela CESPU, em colaboração com investigadores da UnIGENe-IBMC, ICVS-UMinho e FMUP, tiveram como base uma amostra de mais de 16 mil processos clínicos e indicaram que 1,3% da população portuguesa sofre de agenesia dos incisivos laterais superiores. «Entre todas as regiões da cavidade bucal, a dos incisivos laterais superiores constitui área de grande risco embriológico, uma vez que é um local de fusão dos processos da face», lê-se no documento que apresenta o estudo.
A investigação, liderada por Teresa Pinho, ortodontista, docente e investigadora da CESPU, incidiu ainda num estudo familiar, numa amostra do Norte de Portugal, de forma a perceber qual o risco relativo de um familiar directo de um doente vir a ter agenesia, ou microdontia dos incisivos laterais. Os resultados indicaram a existência de um risco 15 vezes maior do que na população geral. Uma conclusão que, de acordo com Teresa Pinho, deixa antever uma componente genética que, contudo, continua por descobrir.

Saúde Oral – Por que razão decidiu fazer este estudo científico e qual o cenário que se vive em Portugal ao nível desta doença?
Teresa Pinho –
A procura de ajuda profissional por agenesia dentária surge principalmente por falta e/ou microdontia (dentes pequenos) dos incisivos laterais e consequente aparência inestética. Baseado num diagnóstico detalhado e metas pré-estabelecidas, antes de iniciar um tratamento dispendioso, o clínico expõe diferentes opções de tratamento, implicações clínicas, vantagens e inconvenientes, bem como o melhor plano de tratamento para as exigências específicas do caso. Decidimos centrar-nos na agenesia dos incisivos laterais superiores por ser uma das hipodontias (ausências dentárias de nascença) mais comuns e ser a que tem mais impacto estético. Desde há longo tempo que a ausência congénita de dentes é motivo de interesse em múltiplas áreas de investigação. Em Portugal, são poucos os dados existentes relativos à prevalência das agenesias dentárias, não se encontrando qualquer referência quanto à frequência com que surgem associadas a outras alterações no complexo dento-facial.
Este trabalho pretende contribuir para alargar esse conhecimento e, de acordo com os diversos objectivos a atingir, foram seguidas diferentes metodologias e usadas amostras populacionais com características específicas.

– Quais foram os grandes objectivos em torno desta investigação?
– Em primeiro lugar, determinar a prevalência de agenesias de incisivos laterais superiores na população portuguesa. Depois, caracterizar as manifestações clínicas dentárias e extra-dentárias que acompanham as agenesias dos incisivos laterais superiores. Em terceiro lugar, procurar identificar e caracterizar um possível padrão morfológico em indivíduos da mesma família com agenesias dos incisivos laterais superiores e tentar, por dedução, estabelecer normas cefalométricas de referência de acordo com o fenótipo. Depois, avaliar possíveis repercussões dentofaciais relacionadas com a agenesia dos incisivos laterais superiores. Isto para além de pesquisar e caracterizar mutações, já descritas ou novas, nos genes PAX9 e MSX1, nas situações de agenesia dos incisivos laterais superiores. E, por último, identificar marcadores genéticos e/ou clínicos que permitam estabelecer uma estratégia terapêutica ortodôntica, profiláctica atempada ou até curativa.

– De que forma é que o estudo constitui uma novidade em termos científicos?
– O estudo bem definido deste fenótipo de agenesia dentária será uma inovadora estratégia, que poderá identificar os factores genéticos causadores da hipodontia. Vários estudos já sugeriram a etiologia genética da hipodontia, mas nenhum realizou estimativas de risco relativo (para familiares de probandos com hipodontia vs. população geral). Além disso, este é o primeiro estudo realizado em famílias portuguesas.

– Quais foram os resultados obtidos com o estudo e de que forma é que os resultados podem contribuir para um melhor entendimento da doença?
– Na população portuguesa encontrámos para a agenesia dos incisivos laterais superiores uma prevalência de 1,3%.
Em pacientes com ausência unilateral, um incisivo contra-lateral microdôntico estava presente em 57,1% dos casos, sugerindo uma expressão variável da agenesia. Também alguns autores propuseram a agenesia, a microdontia ou a forma cónica de um ou mais incisivos laterais maxilares como diferentes expressões do mesmo traço.
Avaliamos a agregação familiar, numa amostra do Norte de Portugal e avançamos a hipótese da agenesia dos incisivos laterais superiores ser um tipo distinto de hipodontia. 62 probandos com a referida agenesia foram identificados, os pedigrees foram construídos e colectadas informações a partir de 141 familiares em primeiro grau. O Risco Relativo foi calculado em 15 para a população portuguesa. Estes resultados suportam uma significativa agregação familiar da agenesia dos incisivos laterais superiores e sugerem a microdontia dos incisivos laterais maxilares, como parte do mesmo fenótipo, que parecem expressar-se como um traço autossómico dominante com penetrância incompleta.
Pesquisamos mutações nos genes PAX9 e MSX1, e investigamos a sua associação potencial com o fenótipo MLIA em 12 famílias portuguesas. Não foram encontradas alterações nucleótidos no MSX1; no PAX9 foi encontrado um polimorfismo. No entanto, as diferenças observadas na frequência do polimorfismo no PAX9 entre os probandos e os controlos não foram estatisticamente significativas. Mais estudos genéticos são necessários para esclarecer a essência das MLIA.

– Ficou de alguma forma surpreendida com os resultados obtidos no estudo?
– A agenesia dos incisivos laterais maxilares pode interferir com o comprimento maxilar e altura facial antero-superior, condicionado negativamente a sua dimensão potencial e interferir com a sua função. Relativamente à agregação familiar, numa amostra do Norte de Portugal avançamos com a hipótese da agenesia dos incisivos laterais maxilares ser um tipo distinto de hipodontia. Os resultados suportam também uma significativa agregação familiar da MLIA e sugerem a microdontia dos referidos dentes, como parte do mesmo fenótipo, que se expressam como um traço autossómico dominante com penetrância incompleta. Sendo assim, os dados obtidos incentivam a analisar sub-fenótipos dentro da hipodontia e a forte agregação familiar da agenesia dos incisivos laterais maxilares reforça a estratégia de pesquisa por genes susceptíveis. O estudo bem definido deste fenótipo de agenesia dentária será uma inovadora estratégia, que poderá identificar os factores genéticos causadores da hipodontia. Vários estudos já sugeriram a etiologia genética da hipodontia, mas nenhum realizou estimativas de risco relativo (para familiares de probands com hipodontia vs. população geral).

– Até que ponto os resultados deste estudo podem ajudar à prevenção dos problemas que advêm da ausência de incisivos laterais superiores?
– O facto da agenesia dos incisivos laterais superiores se congregarem mais frequentemente em vários indivíduos da mesma família, tal como foi comprovado neste trabalho, permitiu colocar as hipóteses de uma possível forma de transmissão hereditária de anomalias dentárias e da existência de genótipos marcadores das agenesias, e formular uma proposta de mecanismo etiopatogénico.
Ficou patente e reforçado com esta investigação, que o conhecimento da história familiar pode contribuir para o alerta destes casos de agenesia dos incisivos laterais superiores em idades mais precoces evitando, por vezes, abordagens terapêuticas mais complexas e tardias. Ficou ainda evidenciado que existirá um mecanismo genético subjacente a este tipo de agenesia dentária e que será importante identificar outros genes (que não o MSX1 e PAX9) cujas mutações lhe possam estar associadas.

– Que outras conclusões obtidas no estudo gostaria de realçar?
– Nos indivíduos com agenesia uni ou bilateral dos incisivos laterais superiores e com relações familiares, a probabilidade de haver caninos maxilares inclusos não é diferente dos da população sem agenesia.

– No comunicado explica estar a preparar um «estudo clínico, genético e molecular das agenesias dos incisivos laterais superiores», a submeter para financiamento à Fundação para a Ciência e Tecnologia. Qual o grande objectivo deste estudo?
– O principal objectivo do nosso projecto é aprofundar a investigação da base genética da agenesia de incisivos laterais superiores, bem como definir os fenótipos dentários e extra-dentários associados.

– Um dos próximos passos da investigação passaria por descobrir qual a origem genética da doença. Portugal tem profissionais, metodologia e financiamentos suficientes para a investigação nesta área?
– Sim, tem profissionais que integram equipas multidisciplinares, como neste estudo desde a área da Medicina Dentária à Genética Médica à Biologia e à Bioestatística. O material e a metodologia científica também têm com toda a certeza. Mas no que respeita ao financiamento já é muito mais complicado, uma vez que estes estudos genéticos são muitíssimo dispendiosos. Os estudos científicos têm sido realizados pela CESPU, em colaboração com investigadores da UnIGENe-IBMC, ICVS-UMinho e FMDUP. Com particular realce refiro o Centro de Investigação Ciências da Saúde (CICS), Instituto Superior de Ciências da Saúde-Norte/CESPU que tem tido uma participação muito importante no financiamento dos estudos que temos vindo a realizar. Actualmente aproveitando mais um financiamento do CICS, estamos a fazer mais um estudo de um outro gene, em colaboração com a UnIGENe-IBMC.

– Portugal trata bem os seus investigadores?
– Em várias áreas penso que sim, mas ao nível da Medicina Dentária não sinto qualquer diferença. Penso que qualquer médico dentista que é docente e investigador faz porque gosta muito e não para ser bem tratado.
 
– A ortodontia sofre constantes mudanças, nomeadamente pelo desenvolvimento dos mais diferentes tipos de material utilizados no tratamento. Como caracteriza, actualmente, a ortodontia no nosso país, quer em termos de ensino, quer em termos de profissionalismo?
– A abordagem ortodôntica é muito delicada, já que trabalha e afecta directamente a face. O diagnóstico e a maneira de conduzir o tratamento são muito subtis, por isso os profissionais devem estar muito preparados para os desafios mais difíceis, não pensando apenas na estética, mas também na melhoria da função.

– Quais os grandes desafios desta área?
– Devido à minha prática exclusiva em ortodontia, aparecem todos os tipos de situações clínicas, desde os casos jovens para efectuar intercepção até aos casos multidisciplinares e os casos Ortodôntico Cirúrgicos em que a ortodontia tem um papel importante. Mas eu diria que o grande desafio é o constante estudo/aprendizagem. Assim, as probabilidades de erro diminuem e para além de se fazer um diagnóstico correcto, podemos ter ao nosso dispor várias técnicas, aplicando-as consoante o resultado que pretendemos e assim conseguimos os melhores resultados possíveis.

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