Há 18 anos no setor da saúde oral, Damiana Fernandes testemunhou algumas lacunas na gestão organizacional das clínicas dentárias, que se refletiam na performance dos colaboradores. Num período de maior reflexão, durante o primeiro confinamento em março de 2020, descobriu o coaching e quis aplicá-lo não só à sua vida como à de outros profissionais de dentária. Vida Pro e Plena é o nome do projeto que, através da inteligência emocional, pretende melhorar o desempenho profissional.
A Damiana trabalha no setor da saúde oral há 18 anos. Começou por ser assistente dentária e, mais tarde, em 2008, licenciou-se em higiene oral. O que a levou a escolher esta área?
Comecei a trabalhar como assistente dentária aos 19 anos, por mero acaso. Recomendaram-me para a vaga, fui selecionada na entrevista e apaixonei-me pela área assim que comecei a trabalhar. A área da saúde é muito gratificante pelo sentido de contribuição e serviço ao outro. O contacto com as pessoas e a possibilidade de contribuir para a prevenção de doenças e/ou restaurar a saúde foi sempre o que mais me estimulou nesta área. Vivia em Ponta Delgada e tomei então a decisão de ir viver para Lisboa com o objetivo de tirar a licenciatura em Higiene Oral. Durante toda a licenciatura mantive a profissão de assistente dentária, em part-time, o que me possibilitou o financiamento dos estudos.
Em conversa com a SAÚDE ORAL confidenciou que durante estes 18 anos foi-se apercebendo da lacuna existente nas equipas dentárias relativamente a estratégias de organização, liderança, gestão, trabalho em equipa, soft skills, entre outros. O que mais sentiu falta durante este período como profissional de dentária?
Ao longo do meu percurso profissional percebi que está a ocorrer uma mudança de paradigma a nível da estrutura das próprias clínicas dentárias. Quando comecei a trabalhar, a maioria das clínicas era de pequena dimensão e praticava-se uma medicina dentária essencialmente generalista. As equipas eram constituídas por poucas pessoas, num ambiente muito familiar. Atualmente observa-se a tendência para o crescimento das equipas de trabalho pois a medicina dentária é agora uma medicina dentária de especialidades, que conta com um vasto leque de colaboradores que vai além do médico dentista e da sua assistente, nomeadamente gestores financeiros, de recursos humanos, de redes sociais e técnicos de marketing. Este crescimento organizacional não foi acompanhado por formação específica em gestão, recursos humanos e inteligência emocional. A falta destas competências e deste tipo de conhecimento conduz à estagnação de muitas clínicas e à infelicidade na profissão de um grande número de profissionais de saúde oral, que acabam por desenvolver sintomas físicos, psicológicos e sociais originados por stresse ocupacional. Muitos profissionais acabam por mudar de área de trabalho porque não se trabalha na origem do stresse e não sabem que é possível desenvolver estratégias pessoais para lidar com o stresse ocupacional. Pessoalmente deparei-me com a falta de liderança de qualidade, de boa cultura empresarial e de gestão de recursos humanos competente ao longo de toda a minha carreira. Olho para trás e percebo também que desenvolver competências associadas à inteligência emocional me poderia ter ajudado a crescer ainda mais na profissão e a ultrapassar desafios com os quais me deparei.
À semelhança de muitos profissionais de dentária durante o primeiro confinamento ficou em regime de layoff. Conte-me como aconteceu tudo isto e de que forma a motivou a criar o projeto de coaching para profissionais de saúde oral.
Quando o País entrou em confinamento em março de 2020, eu fiquei em layoff, o que representou um desafio grande em termos financeiros e emocionais. Pude constatar que a maior parte dos meus colegas estava na mesma situação. Nessa altura, o interesse em temas relacionados com o desenvolvimento pessoal aumentou e surgiu a vontade de fazer formação noutras áreas que pudessem contribuir para o meu crescimento pessoal e profissional. Descobri no coaching uma ferramenta poderosa de reflexão e consequente transformação que apliquei na minha vida e que poderia utilizar para melhorar a relação com os pacientes e com os outros membros da equipa dentária. Imediatamente surgiu a ideia de desenvolver um projeto − o Vida Pro e Plena − que pudesse beneficiar outros profissionais desta área de forma individual e equipas dentárias inteiras através da atuação em ambiente organizacional.
Em que consiste o Vida Pro e Plena e que serviços presta?
O Vida Pro e Plena é um projeto que tem como objetivo contribuir para a felicidade organizacional na medicina dentária. Acredito que numa clínica onde a equipa é competente, motivada e focada na excelência, os seus pacientes também serão mais felizes. Através do coaching individual, os profissionais de saúde oral conseguem criar uma vida mais plena e passar a viver a profissão com realização, significado e atingir um alto desempenho. Isto é possível graças a um processo de autoconhecimento, à clareza de quais os objetivos que os profissionais pretendem atingir (tanto a nível pessoal como a nível profissional) e à construção de um plano estratégico que coloca a pessoa em ação. Por outro lado, este projeto pretende atuar a nível organizacional com formações na área da inteligência emocional e do team coaching para equipas e líderes, proporcionando ferramentas e competências às equipas de trabalho no sentido de se atingir um nível de excelência, imprescindível em cuidados de saúde. As sessões individuais realizam-se em formato online e as sessões coletivas, de equipa, acontecem presencialmente. O coaching conduz ao êxito, à autonomia e ao aumento do desempenho profissional dos indivíduos e, consequentemente, ao sucesso da própria organização.
Quais são as principais preocupações por parte dos profissionais que a procuram?
De forma generalizada, os profissionais de saúde oral pretendem aumentar as competências associadas à inteligência emocional, o foco e a disciplina, melhorar a gestão do tempo, encontrar um melhor equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho e desenvolver estratégias para lidar com o stresse ocupacional inerente à profissão. A maior parte das pessoas que procuram o coaching encontram-se de alguma forma insatisfeitas com a sua situação de vida e pretendem chegar mais longe. Procuram o autoconhecimento, maior clareza sobre o que querem atingir no futuro, uma estratégia para lá chegar e ferramentas que ajudem a lidar com os desafios que possam surgir. Trabalha-se normalmente as duas vertentes: a pessoal e a profissional, porque são inseparáveis, somos um todo que inclui as duas dimensões: a racional e a emocional.
O que falta na formação em Portugal para garantir uma melhor preparação dos profissionais para os desafios laborais diários inerentes à prática da medicina dentária numa clínica?
Falta aliar à componente técnica da formação em gestão, recursos humanos e inteligência emocional.


