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Bolonha veio prejudicar extraordinariamente a componente clínica do ensino

Bolonha veio prejudicar extraordinariamente a componente clínica do ensino

A SAÚDE ORAL esteve à conversa com João Carvalho, que fez parte do primeiro grupo de alunos a ser formado na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto. Desde sempre ligado a esta instituição, participou na elaboração do currículo mediante Bolonha, pelo que é com verdadeiro conhecimento de causa que assume que a nova estrutura do programa veio prejudicar a componente clínica do ensino.

Formou-se no primeiro curso da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto e desde sempre esteve ligado a esta instituição. Hoje, como vê o ensino após Bolonha?

Mais uma vez foi o seguidismo europeu em tentar uniformizar e no qual acabamos todos por cair nos mesmos buracos… Neste caso foi no ensino. Acontece que, numa visão um pouco mais de gabinete, acabam por se tomar algumas decisões desfasadas da realidade. E hoje a formação da nossa área é o que é… 

E é o quê?

A medicina dentária tem uma componente clínica fortíssima e, neste momento, está extraordinariamente prejudicada. É possível condensar uma anatomia com uma carga horária menor, mas não é possível que cada aluno faça o mesmo treino em menos horas. Ninguém consegue executar o mesmo número de atos num menor período de tempo.

Mas então como é possível que tanta gente tenha a mesma opinião, de que Bolonha veio prejudicar clinicamente o curso, e se avance para uma solução destas?

Posso-lhe falar do que me aconteceu, até porque participei na elaboração do currículo mediante Bolonha para esta faculdade. A elaboração desse currículo, condensando e tentando ajustar e comprimir determinadas áreas e disciplinas, aconteceu porque era uma inevitabilidade. Simplesmente tinha de ser feito! Não dava para não aceitar, para não colaborar. Penso que nesse aspeto todos somos um pouco culpados. Devíamo-nos ter revoltado, até porque todos tínhamos a consciência de que ia ser muito complicado. Há um exemplo que é paradigmático do que se passa: em 1986, quando pertenci à comissão de formação de médicos dentistas da União Europeia, uma das coisas que se discutia era o facto do curso, em alguns países, ser relativamente mais curto do que em Portugal, que já estava com seis anos.

Em Portugal teve desde sempre seis anos?

Sim, começou desde logo, há 35 anos, com seis anos de curso, porque já na altura se entendia que deveríamos ter uma formação mais adequada. Mas na Alemanha, por exemplo, eram quatro anos. Na verdade, a diferença não era basicamente nenhuma porque eles acabavam os quatro anos de preparação teórico-prática e depois faziam dois anos de prática clínica. Prática essa que muitas vezes não era feita numa faculdade, era permitido que fosse feita fora. Mas não deixava de ser obrigatória. Simplesmente não era possível ter o diploma para exercer sem completar esses dois anos. Admito que os decisores políticos, em Bolonha, quando tomaram a decisão, tenham sido pressionados pelas razões económicas. Em termos económicos, se todos os cursos fossem encurtados, o peso no erário público europeu seria muito menor. E depois, se as pessoas se quisessem tornar profissionais mais qualificados teriam de apostar a posteriori, suportando eles próprios os custos. Ou seja, não imputando esses custos às nações… Estou convencido de que foi isso que aconteceu.

Como vê a prestação da Ordem dos Médicos Dentistas nestes últimos tempos?

Penso que neste momento a Ordem começa a ter algum peso político que antes não tinha e por isso não fazia vingar as suas posições. Até porque, desde que foi criada até este momento, sempre teve um competidor direto – a Ordem dos Médicos – que no número de profissionais esmagava completamente a capacidade de pressão política dos Médicos Dentistas. Para ser sincero não sei, neste momento, quais as relações que o Bastonário tem com o atual secretário de Estado. Mas sei que com o anterior a relação era muito boa, penso que também as relações pessoais, independentemente da política, fazem com que os profissionais sejam ouvidos. E na verdade foram conseguidos alguns objetivos. Com este sinceramente não sei até que ponto há ou vai haver capacidade de influência para que haja uma atuação. A Ordem tem procurado fazer algum trabalho no sentido de dignificação da profissão em termos do que é a legalização da profissão, mas muitas vezes é perfeitamente ultrapassada. Ainda no último congresso, o Bastonário estava contente pelo facto de se ter aprovado uma tabela de nomenclatura, mas cuja questão de fundo, na minha opinião, não está resolvida pois não pode haver uma tabela de honorários. No sentido de, pelo menos, ter um valor mínimo e máximo a cobrar. Aliás, esta não é uma dificuldade da Ordem, é uma dificuldade da União Europeia.

 

Ler a entrevista na íntegra na edição Janeiro/Fevereiro da SAÚDE ORAL

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