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Entrevista

Afonso Pinhão Ferreira: “Estamos a formar infelizes”

Foi durante oito anos diretor da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto. Saiu por desencanto. Afonso Pinhão Ferreira defende o encerramento de faculdades, e consequente diminuição do número de alunos, para que não continue esta vaga de formar infelizes. Ou seja, profissionais que não vão ter lugar no mercado de trabalho. Há dois anos investiu mais de um milhão de euros numa clínica, na Póvoa, que alia cultura, arte e medicina oral. O principal objetivo: abrir as portas à comunidade.

Durante oito anos foi o diretor da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto. Enquanto profissional isso obriga-o a uma maior responsabilidade na sua prática, na sua clínica?

Claramente. Sobretudo “obriga-nos” a estarmos melhor preparados. Lemos mais, temos de estar mais atualizados, temos de adotar novas tecnologias. Faço questão de ir a vários congressos internacionais, nomeadamente da minha especialidade, a ortodontia.

O que veio Bolonha aportar à Medicina Dentária?

Uma vez escrevi um artigo sobre o que pensava disso. Quando fui aluno da Escola Superior de Medicina Dentária – antes de ser Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto – tive um ensino com a essência de Bolonha. Ou seja, éramos poucos alunos e tínhamos muito doentes, pelo que o desenvolvimento de competências era real. Saí um dentista bem formado, sabia fazer tudo porque tive essa aprendizagem. Hoje os estudantes sofrem com a massificação, com o elevado número de alunos. Sejamos realistas: hoje o ensino é mercantil, é economicista e as pessoas só querem é propinas e estudantes.

E a qualidade decaiu?

Muito. Agora há menos professores porque nem o Estado, nem mesmo os privados podem pagar. E há mais alunos. E, por último, menos doentes para praticar. Tudo isto é contra Bolonha. Não se pode só culpar Bolonha. A essência de Bolonha é boa: deve-se privilegiar o desenvolvimento de competências à transmissão de conhecimentos. Não deixe de estar correto.

Então na teoria está correto e na prática…

Na prática… os políticos compreenderam isto de outra maneira: vamos dar cursos mais pequenos, generalistas, e aí assumimos a responsabilidade, mas depois as pós-graduações e especializações já não é connosco. Houve um aproveitamento político de Bolonha. É isso.

É verdade que hoje há alunos que terminam a faculdade – e desde logo habilitados a montar consultório – a terem feito uma única extração durante todo o ensino superior?

Sim, e cada vez vai haver mais. Uma das coisas que me levou a deixar de ser diretor da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto foi a palavra desencanto. Não podemos, por mais que o tentemos, ser bons gestores. Porque não há verbas. A gestão é só diminuir o número de doentes, aumentar o número de alunos… Desencantei-me.

“Os nossos profissionais são bem vistos, mas tem havido uma perda de qualidade e acho que algumas faculdades deviam fechar. Não estou a falar de serem públicas ou privadas, deviam era fechar. As instâncias que têm responsabilidade neste capítulo, de regular a profissão, deviam preocupar-se mormente neste aspeto.”

Mas somos bem vistos no estrangeiro?

Somos, apesar de tudo os nossos profissionais são bem vistos, mas tem havido uma perda de qualidade e acho que algumas faculdades deviam fechar. Não estou a falar de serem públicas ou privadas, deviam era fechar. As instâncias que têm responsabilidade neste capítulo, de regular a profissão, deviam preocupar-se mormente neste aspeto. Deviam fazer pressão para que as faculdades fechassem porque a oferta superou a procura há muito tempo. Não vale a pena, não há. Um dentista formado custa muito dinheiro ao país, às famílias e depois sai um homem ou uma mulher infeliz porque não vai poder ter a sua profissão. Estamos a formar infelizes. Acho que os políticos se deviam preocupar com a sociedade. O que é a política senão governar a polis? Então devíamo-nos preocupar com a sociedade. Lembro-me de um secretário de Estado ter dito que não podia regular porque na concorrência livre não se pode regular.

Não concorda?

Não, não partilho dessa opinião. A regulação deve existir nas profissões.

Como se resolve isto? Com estágio? É viável?

Considero que não se fazer nada é que está errado. E a fazer-se alguma coisa que seja o estágio, dado em algumas faculdades os alunos saírem mal preparados. Mas é um mal necessário. O correto era fazer um ensino perfeito. Diminuir o número de faculdades, de alunos, e fazer um rácio correto. Assim não era preciso estágio. Isso seria reforma a sério.

Mas para isso é preciso coragem política, até porque envolve não só faculdades públicas, mas privadas…

Mas os que estão à frente da classe não devem defender a classe? Então acho que devem fazer tudo nesse sentido.

Muito bem, então como vê a ação da Ordem dos Médicos Dentistas relativamente a este tema?

Tenho uma excelente relação com o Dr. Orlando Monteiro da Silva, propus o seu doutoramento Honoris Causa, tenho uma grande amizade por ele e acho que tem sido um belíssimo bastonário. Mas acho que chegou a hora de ele se começar a preocupar a sério com a regulação do ensino. Devia tomar atitudes nesse sentido.

Gostava de um dia ter um papel mais ativo… na Ordem, por exemplo? Vamos vê-lo candidato?

Nunca ponho de lado qualquer possibilidade. Nunca sabemos o dia de amanhã, mas não tenho essa perspetiva. Sou amante das artes, gosto de pintar, de esculpir, de escrever… tenho a minha função política na comunidade poveira e gosto do que faço, considero-me um bom clínico. Ou seja, sou um homem feliz, não preciso desse poder, já estive à frente de uma faculdade… Não tenho isso em perspetiva, já ocupei muitas funções. Não vou negar que já tive quem me sondasse, mas não faz parte dos meus planos. E olhe que eu normalmente quando falo já pensei nas coisas, não sou muito de dizer que não e depois é sim. Todos pensavam que eu ia candidatar-me à direção da Faculdade para um terceiro mandato, mas não ia. A mesma coisa na Sociedade Portuguesa de Ortopedia Dento-Facial. Digo sempre que só estou dois mandatos nas coisas.

“Acho honestamente – e isto é uma convicção pessoal – que apesar de haver pessoas que estão muito bem no lugar que ocupam, a rotatividade traz sempre ações que permitem confrontar e não se entra no rame-rame da diplomacia. É preciso ideias novas, contestações.”

Acha que depois há um acomodamento? Perde-se aquele ímpeto de mudança?

Acho honestamente – e isto é uma convicção pessoal – que apesar de haver pessoas que estão muito bem no lugar que ocupam, a rotatividade traz sempre ações que permitem confrontar e não se entra no rame-rame da diplomacia. É preciso ideias novas, contestações. Tudo é preciso. E estarmos três, quatro, cinco mandatos… Mas é a minha opinião. Aconteceu isso na Sociedade Portuguesa de Ortopedia Dento-Facial. Nem havia candidatos porque todos pensavam que eu ia ficar, tivemos de esperar para haver propostas. Eu acho que fiz um bom trabalho, mas o Dr. Américo Ferraz também está.

Então se tivesse poder de decisão, não tivesse de olhar a impactos políticos nem orçamentos seria o encerramento das faculdades que teria a sua atenção?

Sou um indivíduo racional. Há investimentos, há muita gente envolvida. Não se podem tomar decisões revolucionárias, não sou a favor disso. Não sou a favor de “sangue”, mas acho que se fosse líder da classe me abriria a uma discussão muito séria no sentido de fechar faculdades. Isso não teria qualquer dúvida. A secretaria de Estado do Ensino Superior deveria pensar muito seriamente nisso.

Como vê o acesso à Medicina Dentária da população em geral. Que importância teve o cheque-dentista?

É evidente que o cheque-dentista foi uma medida positiva. Aliás, tudo o que seja dinheiro público utlizado no público é saudável. Agora é claro que há coisas menos boas. Eu tenho uma clínica para um segmento alto da população, os tratamentos são caros e vejo que há pessoas com acesso ao cheque-dentista que não faz sentido. O que pode não estar muito bem é a acessibilidade ao cheque-dentista. Mas foi uma boa medida, claramente. Não há medidas perfeitas e a saúde tem de ser pensada em termos sociais.

Acha que poderá estar para breve e inserção de profissionais desta área nos centros de saúde?

O caminho tem de ser esse. A boca não é só para mastigar, serve para expressar, para influenciar, para cantar, para respirar. É a porta de entrada do nosso organismo. E a importância da saúde oral é imensa. Penso mesmo que o futuro é os centros de saúde poderem disponibilizar gente competente formada em Medicina Dentária. Não tenho dúvida que esse é o caminho. Se fechássemos as faculdades e começássemos a utilizar o excesso de profissionais formados é que seria política.

Após 30 anos de carreira resolveu abrir uma nova clínica, no centro da Póvoa, que alia cultura, arte e, claro, a medicina oral. Este é “o” projeto de uma vida?

Não gosto de falar de projetos finais. Mas a verdade é que tenho 57 anos e o investimento que fiz na Ortopóvoa é muito recente. Portanto até o acabar de pagar e usufruir das vantagens do espaço e da sua funcionalidade vai demorar algum tempo. Ou seja, não prevejo tão cedo fazer novos investimentos.

A tecnologia é uma das “armas” que usa na sua clínica. Até lhe chama o Projeto 3D. Era ponto de honra, esta aposta nas novas tecnologias?

Sim, nomeadamente a imagem 3D, a TAC, e na fresadora de cerâmica e na “scanarização” da boca.

Notou a crise, na sua clínica?

Senti, claro, mas de uma forma muito ténue. Repare que fiz um grande investimento em plena crise. E acho que acabou por ser uma atitude inteligente porque dei uma resposta de modernidade e condições aos meus clientes que acabou por ser reconhecida. É claro que senti a crise, mas não posso dizer que tenha sido brutal, terá ficado por uns 4%. Aliás, não a senti na admissão de novos clientes. Foi mais nos pagamentos, as pessoas mostraram mais dificuldade em pagar os tratamentos, as prestações… aí é verdade que sentimos, sobretudo em 2013 e 2014. Mas este ano noto uma clara recuperação. Estou quase a recuperar os valores de antes.

O investimento na nova clínica rondou que valores?

Se considerarmos o terreno, que foi comprado, ascendeu a um milhão de euros.

Prevê o retorno para quando?

Mais cinco anos. Recorremos à banca e a dinheiros da empresa.

O conceito desta clínica é realmente diferente. Tem galeria de arte, biblioteca, ginásio, auditório, espaço para as crianças brincarem…

O conceito desta clínica assenta basicamente em três vertentes. Primeiro uma clara aposta na tecnologia. Tenho a certeza que, neste momento, a Ortopóvoa tem tudo o que há de mais moderno, aliado a excelentes profissionais, além de termos laboratório próprio. Ou seja, a ideia era não termos de recorrer fora para uma rentabilidade máxima. Não precisamos de fazer faturação fora. Depois queríamos que a clínica fosse voltada para fora.

Como assim?

Abrir a clínica à comunidade. Não só no puro aspeto clínico, mas dar a conhecer que as empresas, as clínicas, podem preocupar-se com a comunidade onde estão inseridas. De nossa parte resolvemos apostar em arte, melhorar o índice cultural da população. E para isso temos uma galeria de arte que está aberta de segunda a sábado e que já foi responsável por nove exposições, todas catalogadas. Estamos agora a preparar a décima exposição. Chegamos a ter nas inaugurações 300 e 400 pessoas. Há um convívio entre a clínica e a população. Repare que enquanto estão à espera de consulta vão vendo a exposição.

“Falta pensar sempre que quando se pousa o pé esquerdo pousa-se o direito, e depois outra vez o esquerdo e novamente o direito. Ou seja, não se pode parar.”

A arquitetura da clínica foca muito a vossa ligação à Póvoa e, inevitavelmente, ao mar. Mas em termos de negócio puro não faria mais sentido estar numa grande metrópole?

Nasci em Condeixa-a-Nova e com três meses fui para Vila do Conde. Mais tarde vim estudar para o Liceu da Póvoa. Quando casei fiquei a viver e trabalhar na Póvoa. Sou poveiro de adoção, tanto que neste momento sou presidente da Assembleia Municipal. A minha ideia sempre foi ficar aqui e investir aqui.

Os doentes vêm até si?

Claramente, de todo o país. Mas com maior incidência do norte, nomeadamente Braga, Guimarães, Famalicão, Santo Tirso, Porto… Mas tenho dos Açores, da Madeira e de Lisboa. São 30 anos de profissão e há características que as pessoas gostam, trabalhamos com muita qualidade, além de termos protocolos para tudo. E o nosso índice de falhas é muito baixo. Eu só faço ortodontia, toda a gente sabe isso, mas tenho uma clinica interdisciplinar.

De que forma atuam?

Sempre que vem um cliente recolhemos os seus dados. Fotografias, moldes, radiografias, às vezes TAC… Todos os dados são depois organizados pelos funcionários, havendo mais tarde uma reunião – há várias por mês – para discussão dos casos. Os clínicos juntam-se, com alguns assistentes, elaboram o plano de tratamento, orçamento e fazemos um relatório. Depois a pessoa vem a uma segunda consulta onde apresentamos detalhadamente como vamos trabalhar, qual o orçamento, qual a sequência dos tratamentos, como se pode pagar… tudo isto. Penso que as pessoas gostam.

Qual é o próximo passo deste seu projeto. O que falta?

Falta pensar sempre que quando se pousa o pé esquerdo pousa-se o direito, e depois outra vez o esquerdo e novamente o direito. Ou seja, não se pode parar. Digo isso todos os dias às pessoas que trabalham comigo. Hoje o mundo do trabalho é muito diferente de antigamente, lembro-me de não haver computadores, telemóveis. Hoje há as redes sociais, o marketing através dos sites… Se não apareces, desapareces. Ou seja, temos de estar permanentemente a aparecer. E isso significa formação contínua, abrir as portas da clínica para fora e significa fazer bom trabalho e não adormecer.

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