A medicina dentária já era uma tradição de família, era uma tendência herdada, ou uma vontade inata?
Não tenho ninguém na família, próxima ou mais afastada, na medicina dentária. Na verdade foi um pouco por acaso que acabei por abraçar a profissão. O que estava bem vincado desde miúda é que queria uma área médica, isso sim.
Mas então como foi parar a medicina dentária?
Na altura das candidaturas à faculdade, sobretudo a minha mãe não queria que a filha saísse do Porto. Ao fazer a lista de candidaturas de acesso ao ensino superior, coloquei no topo medicina e depois medicina dentária. Tinha média para entrar em medicina em Lisboa, em Coimbra, mas no Porto não. Acabei, e muito bem, por entrar na Faculdade de Medicina Dentária do Porto.
Arrependeu-se?
Nada. Claro que no primeiro contacto não sabia exatamente se era aquilo que queria, mas não me arrependi. Até porque, no Porto, os três primeiros anos de Medicina Dentária são comuns à medicina. As aulas são comuns, nem sequer tive a perceção de que estaria em Medicina Dentária. Desde logo o meu objetivo, dentro da Medicina Dentária, foi o de particularizar o meu trabalho. Queria especializar-me. Naquela altura não havia assim tantos especialistas, o que havia era médicos dentistas generalistas. Por isso acabei por optar por um percurso mais diferenciador e escolhi Periodontologia.
Mas teve de ir procurar formação fora?
Fiz os seis anos de ensino superior no Porto e, quando terminei, ainda no Porto fiz uma pós-graduação de um ano. Isto já dentro da Periodontologia, área que na altura me pareceu ser a minha eleição. Passados três anos fui para os Estados Unidos, Boston, onde estive num âmbito de faculdade e um misto de residência clínica, fiz ambas as coisas. Ou seja, estive dentro de dois consultórios de um grande grupo de periodontologia de renome, editores de revistas internacionais, e com muitos anos de prática especializada. Basicamente fiz clínica para além da assistência às aulas de mestrado de Periodontologia em Harvard, faculdade onde o médico lecionava.
Entretanto regressa a Portugal.
Sim, desde que sai da faculdade que meu âmbito de trabalho foi sempre com o Dr. Manuel Neves. Na altura ele queria expandir o seu consultório e precisava de alguém que o começasse a ajudar. Por isso também acabei por fazer este percurso mais diferenciador.
Como é que hoje em dia um jovem procura os melhores sítios onde aprender? Porque informação há muita, mas depois fazer a triagem… Como é que, por exemplo, acabou por ir para Boston?
Cheguei através de uma situação muito específica. Há dois ou três congressos mundiais que nós, médicos dentistas, selecionamos para assistir. Na minha área há um deles que se realiza a cada três anos, em Boston, que é considerado, em termos de reabilitação e estética, muito clínico e muito conceituado. Já o Dr. Manuel Neves fazia esta aposta. Aconteceu que acabamos por nos encontrar com o editor dessa publicação, que percebeu o meu interesse pela Periodontologia e acabou por me convidar a ir para lá. Ou seja, neste caso não fui pelas vias normais. Mas sim, há muita gente que me pergunta como se faz essa triagem. Eu respondo que depende muito do que se procura. Eu queria uma vertente mais clínica.
Porquê?
Porque tenho 10 horas de trabalho diário clínico. Embora faça formação, nunca quis ter um percurso académico. Não queria uma graduação de três anos dentro de uma instituição. Queria algo mais dirigido à clínica, que me ajudasse no meu dia-a-dia de trabalho. Tenho colegas que procuram algo mais dentro do que é académico. Depende.
Porque optou pela Periodontologia? O que a fascinou nesta área da medicina dentária?
A área da Periodontologia é a mais médica dentro da medicina dentária. Ou seja, é aquela que tem mais relação com o próprio estado sistémico do paciente. Porque interfere se o paciente é diabético ou não, se tem problemas cardiovasculares… E depois porque percebi que a Periodontologia é, de facto, a sustentabilidade de muitos dos tratamentos. Não fazemos ortodontia em dentes que estão com perda de suporte ou prótese fixa. Não fazemos reabilitação de uma maneira geral em dentes que não têm suporte. O suporte é a base para qualquer tratamento reabilitador e para a saúde em geral do paciente porque se reflete no seu sistema cardiovascular, se é uma grávida reflete no seu bebé… Por isso, para além de a Periodontologia ser a área mais médica e a que serve de base de sustentação, era a que em 2000 tinha muito poucas referências em Portugal. Havia muita progressão dentro da periodontologia, sobretudo aqui no Porto. Era uma área que podia ser trabalhada.
Hoje voltaria a optar por isto?
Sim, claramente. Até porque a periodontologia tem ainda uma parte cirúrgica que a mim me agrada particularmente.
Mas ainda é necessário ir estudar lá fora?
É sempre bom ir para fora. É sempre bom continuar a ir fora e não é ir só uma vez. Não acho que seja importante e fundamental ir fazer uma pós-graduação, um mestrado, uma especialização e voltar. É sempre preciso ir para fora do país, até porque se consegue aferir o seu constante nível de evolução. A atualização tem de ser constante. Tem de ser aqui, em Portugal, mas também fora, acho que é fundamental. Ainda agora estive em Genebra e foi muito bom perceber que não estamos minimamente atrás, que estamos a acompanhar a evolução. Vou-lhe ser sincera, não me parece que chegue só ler. Eu não sinto isso, apesar de agora haver um acesso muito mais fácil e rápido às melhores revistas internacionais. Mas é importante de vez em quando ir ver alguém trabalhar.
Nos últimos anos os avanços na medicina dentária…
… foram colossais. Posso dizer-lhe que dentro da Periodontologia, e sem desprimor para quem me formou, faço se calhar 20% do que me foi ensinado. O restante foi tudo progressão de aprendizagem e técnicas que foram entretanto surgindo.
E também não houve uma mudança de mentalidade de quem vem ao dentista?
Houve, claro. Até porque esta área não traz praticamente dor. Ou, se traz, é numa fase mais avançada. Pode trazer uma inflamação e tal, mas dor pode não haver. Mas as pessoas, mesmo não havendo dor, não havendo inflamação, estão mais alerta, já percebem que há uma patologia, que às vezes a gengiva sobe um pouco, que o dente abana, que mexe de posição. Estão muito mais alerta e procuram logo informação. Atenção que lhe estou a dar uma informação baseada nos doentes desta clínica que serão da faixa média-alta da população. Os pacientes aqui já nos procuram com o objetivo de tratarem de si, da sua qualidade de saúde oral. Para além de serem pacientes que muitas vezes integram vários campos na medicina dentária. Fazem ortodontia, fazem os seus implantes, reabilitação. A Periodontologia é precisa na reabilitação total.
Quanto terminou o curso sentia que tinha emprego garantido?
Sentia. Bem sei que agora é um bocado mais complicado, até porque houve um crescimento exponencial de médicos dentistas. Sobretudo tendo em conta a dimensão da população portuguesa que tem acesso à saúde oral, já que continua a ser um ato privado. Antes, a percentagem de pessoas que acedia era de 35% da população, não sei se entretanto estes números já sofreram alguma alteração. Na altura tínhamos que procurar o nosso espaço, mas pensávamos em desemprego. Admito que hoje a mentalidade de quem termina o curso é diferente.
Hoje, com Bolonha, o curso está diferente…
Está. Penso que antes saíamos da faculdade com muita responsabilidade para o que era um ato médico, para o que era um tratamento de um paciente. Hoje os alunos saem com menos formação prática, até porque têm efetivamente menos anos de formação. Eu sou responsável aqui na clínica pelo Curso de Periodontologia e noto bastante quando é um recém-licenciado. Pela minha experiência digo-lhe que Bolonha foi muito pouco vantajoso do ponto de vista prático. Nota-se que saem mais imaturos, com menos responsabilidade e com muito mais dificuldade de integração num mercado de trabalho. Repare que a medicina dentária exige muita responsabilidade e explico o porquê: está a trabalhar normalmente numa clínica privada, de total responsabilidade sua, muitas vezes sem rede, sem colegas para conversar, não tem ambiente hospitalar como outras medicinas, não há uma equipa multidisciplinar a ajudar. Se não tem um autocontrolo de responsabilidade não consegue vingar. O mercado hoje é muito exigente e rapidamente percebe se estão a tratar o paciente como um número.
Hoje há uma maior responsabilidade em acolher um estagiário?
Sim, porque além de termos de formar a sua parte profissional, temos de formar a pessoa. Em tão poucos anos de formação é muito complicado incutir-lhes que o mercado de trabalho nesta área é muito exigente e que têm de ser eles a batalharem, por muita ajuda que possam ter. Têm de saber estar no mercado de uma forma responsável. Não se pode olhar para os clientes como um número!
Tem sentido que este período economicamente menos favorável tem afetado as escolhas dos seus pacientes?
Na clínica estamos um pouco protegidos dessa realidade, estamos dentro de uma redoma porque trabalhamos com pacientes que fidelizamos, que estão nesta casa há 20 anos. Nunca optamos pelos resultados para ontem, rápidos.
Vê-se a trabalhar sozinha?
Dentro da Periodontologia trabalho muito sozinha, mais ninguém aqui na clínica atua nesta área. Mas é verdade que não faço só isto, apesar de ser a área à qual mais me dedico e para a qual tenho formação específica. Comecei a trabalhar ao lado do Dr. Manuel Neves e isso ajudou-me muito. Não consigo pensar sozinha na medicina dentária. Tenho um pensamento multidisciplinar dentro medicina dentária e nos planos de tratamento. Agora abrir um consultório? Acho que não. É tão mais frutífero poder conversar com um colega ao lado, ouvir o que ele tem para dizer, aprender com os erros, com as boas-práticas, poder assistir às conferências. Multiplica a possibilidade de aprendizagem.
Ou seja, não se arrepende de não ter seguido medicina?
Não. Bem, quando escolhemos um caminho não sabemos o que poderia ter acontecido se tivéssemos optado pelo outro. Mas não estou arrependida de estar a fazer este caminho.
Célia Alves à lupa
- Médica Dentista, licenciada pela Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto (FMDUP) em 2000.
- Pós-graduada em Periodontologia pela FMDUP em 2001.
Residência clínica na área de Peridontologia e Implantes na Pericop. P.C. Dr. Myron Nevins, Boston,USA,em 2004. - Curso de cirurgia mucogengival em Harvard, Boston, USA, 2004.
Master em Implantes ITI (International Team of Implantology) em 2002-2003.
Doutoranda em Periodontologia na Universidade de Santiago de Compostela, desde 2007. - Professora Convidada do Mestrado de Peridontologia do Instituto Superior de Ciências da Saúde – Norte, desde 2005.
- Professora Convidada do Mestrado de Peridontologia da Universidade de Santiago de Compostela, Espanha, desde 2009.
- ITI Fellow.
- Autora de conferências nacionais e internacionais nas áreas de Implantologia e Periodontologia.
- Autora de publicações em revistas nacionais e internacionais nas áreas de Implantologia e Periodontologia.
Artigo publicado na edição de maio/junho de 2014 da SAÚDE ORAL




