Área em franca expansão e que atrai cada vez mais profissionais e pacientes, a Dentisteria Estética parece afirmar-se como uma nova esfera da Medicina Dentária. Falámos com várias gerações de médicos dentistas, dos mais novos aos mais experientes, que traçam um retrato da estética em Portugal.
Indissociável da prática clínica dentária, na opinião unânime dos especialistas entrevistados, a abordagem estética está marcada pela inovação e constitui hoje um desafio, tanto a nível técnico como ético, para os profissionais envolvidos. Como constata João Carlos Ramos, médico dentista e autor do livro “A Estética em Medicina Dentária” (2009): “Nos últimos anos, o conhecimento científico, a evolução tecnológica, a formação dos profissionais e a sensibilização social para o tema elevou esta área para patamares clínicos de excelência. Contudo, e infelizmente, num mundo com tendências sociais no mínimo questionáveis, em que o parecer substitui o ser com demasiada facilidade e frequência, encaro com alguma preocupação o facto de muitos pacientes, e até profissionais, colocarem a estética quase como objetivo último (ou mesmo único), relevando para planos secundários aspetos cruciais, como a biologia e fisiologia, colocando em causa a saúde oral e geral e muitos dos princípios nucleares da nossa profissão”. Nas páginas que se seguem, duas “gerações” de médicos dentistas analisam as oportunidades e desafios da Estética Dentária em Portugal.
Em busca do ideal estético dentário
O sorriso perfeito é um desejo antigo que, agora, assume especial relevância. “A estética de um sorriso está intimamente conotada com o sucesso profissional e das relações pessoais. Além disso, a pressão que os meios de comunicação exercem é avassaladora e promove a busca de um ideal estético dentário exibido por várias figuras mediáticas à escala global. Tal facto acaba por criar uma necessidade junto de parte importante da população”, descreve Rui Isidro Falacho, médico dentista.
Segundo João Pimenta, médico dentista, “a procura estética dos pacientes é cada vez maior devido a uma certa pressão mediática. Não devemos considerar essa procura com desdém, pois viver com um sorriso “desgraçado” é verdadeiramente uma dor, mesmo que não seja uma dor física. A nossa profissão tem como objetivo aliviar os pacientes e dar-lhes bem-estar. Se, para suprimir uma dor psicológica, temos que fazer uma dentisteria estética, porque não? Em geral, os bons profissionais faziam já ‘sorrisos estéticos’ há muito tempo.” Uma experiência partilhada por Rui Isidro Falacho: “Após o tratamento são normalmente evidentes profundas melhorias na autoestima e no estilo de vida, sendo assim uma área cada vez mais procurada.”
A importância crescente da área estética não se reflete apenas na prática clínica, como descreve João Carlos Ramos: “Os tratamentos “estéticos” ocupam já uma percentagem importante do tempo de exercício clínico dos médicos dentistas. Uma prova deste facto reside na quantidade de eventos formativos que, de forma exclusiva ou parcial, abordam esta temática e na quantidade de jovens profissionais que procuram e aderem facilmente a esta área.” Com um percurso de quase três décadas, João Pimenta acredita que “o momento de viragem principal deu-se na consciencialização de que é fundamental trabalharmos com bons técnicos e ceramistas, em simbiose complementar. Agora vemos que os bons profissionais assim o fazem. Quando comecei,[…] o ‘técnico de prótese’ era visto como alguém que tinha que corrigir os nossos erros e adivinhar formas, cores e transparência…e muitas vezes linhas de acabamento. […] Agora é diferente e ainda bem”.
Gerir expectativas
Um dos principais desafios apontados pelos profissionais entrevistados está em encontrar o equilíbrio certo num contexto em que a subjetividade é patente, tanto no desejo e expectativas manifestadas pelos pacientes, como na avaliação das necessidades e soluções por parte do médico dentista e nas repercussões que têm as opções tomadas. “O principal desafio consiste na obtenção de uma estética de excelência, uma vez que os pacientes são cada vez mais exigentes nesta matéria, mas devidamente alicerçada em boas práticas médico-dentárias que respeitem ou reponham o equilíbrio fisiológico, biológico e morfológico. Adicionalmente exige-se a obtenção de bons resultados, com técnicas conservadoras, económicas e rápidas, o que, em muitas situações, se revela uma equação de difícil resolução”, comenta João Carlos Ramos.
Em vez de conseguir um sorriso perfeito, o objetivo da Medicina Dentária “é corrigir ou restabelecer o sorriso copiando os dentes naturais seguindo alguns parâmetros de estéticos universais, correntemente chamados de biomiméticos”, recorda Alexandre Cavalheiro, apontando no entanto que estes parâmetros têm uma enorme latitude e permitem grande dose de subjetividade. “A principal dificuldade é de realizar um trabalho estético que corresponda não aos critérios objetivos da estética, mas à imagem que o paciente tem na sua cabeça. E algumas vezes é simplesmente impossível sob o ponto de vista técnico”, reconhece João Pimenta, ilustrando que “o jogo subtil [do médico dentista] consiste em ‘adivinhar’ o que o paciente quer verdadeiramente, mas que por vezes não sabe explicar ou dizer.”
Para interpretar a subjetividade inerente às suas opções “é imprescindível perceber o paciente como um ser complexo na forma como interage física e emocionalmente com os amigos, colegas, familiares, com o ambiente, connosco e consigo mesmo, tentando apreender a importância que consciente ou involuntariamente atribui à sua imagem, à sua estética e os reflexos que esta poderá efetivamente ter na sua saúde”, exemplifica João Carlos Ramos.
Comunicar para educar
Dado o contexto atual e a influência dos media não é de estranhar que “muitos pacientes apresentem objetivos irrealistas motivados por pesquisas online ou fomentados por programas televisivos de caráter deontológico duvidoso que nada mais fazem do que contribuir para a desinformação da população acerca dos temas da saúde oral”, lamenta Rui Isidro Falacho. Cabe ao médico dentista informar o paciente. “O profissional de saúde oral tem, mais que nunca, um papel fundamental no aconselhamento e clarificação dos tratamentos estéticos, mas deve também proporcionar ao paciente toda a informação necessária para que compreenda o seu caso em particular e seja parte ativa na decisão terapêutica final”, continua o médico dentista.
Na perspetiva de João Pimenta “só podemos alcançar bons resultados dialogando e interagindo muito. No triângulo da comunicação estão: o técnico num dos vértices, no outro a equipe dentista/assistente e no terceiro o paciente. Se não houver comunicação em todos os sentidos, a gestão do processo reabilitador é praticamente impossível.” Esta gestão de expectativas e a satisfação final do paciente assenta “na comunicação com os doentes. Na maioria dos casos é mesmo necessário incluir como forma de comunicação maquetes de prova ou mock-ups executados a partir dos quase obrigatórios enceramentos de diagnóstico”, sugere Rui Isidro Falacho, para quem “o maior desafio e a maior satisfação da Medicina Dentária Estética é a abrangência da área. Um médico dentista que se dedique à estética dentária deve dominar e agregar conhecimentos de grande parte das áreas da Medicina Dentária para que possa, assim, reabilitar o paciente de forma integrada”.
Preocupado com os riscos que podem advir de uma mediatização social e profissional do conceito de Estética Dentária, este especialista considera “fundamental reforçar que a prática clínica em Estética Dentária centra-se numa reabilitação oral holística em que o profundo conhecimento da função e o domínio de várias valências da medicina dentária são imprescindíveis, sendo que a vertente visual estética deverá apresentar-se como um complemento sempre presente“.
Tratamentos mais procurados
Com um vasto leque de tratamentos e soluções, o médico dentista dispõe das ferramentas necessárias para realizar o seu trabalho com êxito. “Branqueamentos dentários, facetas em resina composta e facetas em cerâmica são os tratamentos mais procurados porque são muito pouco ou nada invasivos. Estes tratamentos são tão conservadores da estrutura dentária que nalguns casos são mesmo reversíveis», revela Alexandre Cavalheiro. Atualmente “as reabilitações com recurso a técnicas adesivas são as mais populares”, embora impliquem o recurso a outras técnicas, revela Rui Isidro Falacho, médico dentista, acrescentando: “No ambiente clínico onde exerço é comum consultar pacientes referenciados que procuram tratamentos diferenciados de reabilitação complexa funcional e estética com recurso a elementos dento e implanto-suportados. Cada vez mais habitual é a busca de tratamentos que promovam marcadas alterações estéticas faciais. Assim proliferam as reabilitações anteriores que necessitam de um estudo digital adequado da estética facial e do equilíbrio e harmonia das restaurações a instalar, quer sejam em cerâmica ou resina. Outro dos procedimentos com procura crescente são os branqueamentos dentários que devem, no entanto, ser cautelosamente efetuados para que se evite o sobretratamento.”
De acordo com João Carlos Ramos, “as preocupações mais frequentes dos pacientes prendem-se com a cor, forma, dimensões ou posição dos dentes. Contudo, a estética relacionada com os tecidos moles (gengiva e lábios) e a integração mais abrangente na área oro-facial assumem já um lugar de destaque.” Na topo da lista de tratamentos encontram-se “os branqueamentos dentários, diversos tipos de restaurações estéticas em resina composta ou cerâmica, tratamentos ortodônticos, substituição de dentes ausentes por próteses fixas, e mesmo alguns tratamentos de cirurgia maxilo-facial e/ou plástica oro-facial”, ilustra.
Inovação técnica
A tecnologia tem acompanhado as necessidades desta área, como novas técnicas e materiais mais eficazes permitindo obter resultados muito positivos em termos funcionais, estéticos e de durabilidade. Alexandre Cavalheiro destaca dois exemplos: “a melhoria das resinas compostas em termos de gama de cor, resistência à fratura, resistência à pigmentação, manipulação, que vieram permitir executar restaurações policromáticas virtualmente invisíveis e com enorme longevidade; a melhoria das cerâmicas e suas técnicas que vieram permitir realizar casos em que é possível utilizar o mesmo tipo de cerâmica em coroas totais, coroas implanto-suportadas e facetas em dentes adjacentes, melhorando o acerto na cor, ou ainda, permitir executar facetas tão finas que permitem prescindir da preparação dentária.”
Na perspetiva de João Carlos Ramos “além dos materiais (de onde se destacam os procedimentos adesivos, as resinas compostas e as cerâmicas) as técnicas de CAD-CAM, fotografia, análise e planeamento digital abriram horizontes com muito potencial, embora algo perigosos. Paralelamente houve um grande incremento nas competências dos médicos dentistas e técnicos laboratoriais de prótese nesta área. Em minha opinião, e centrando-me num passado muito recente (e presente) acho que a maior inovação esteve relacionada com todo o work-flow digital disponível atualmente.” Uma opinião partilhada por Rui Isidro Falacho, que destaca “a dedicação que os médicos dentistas têm dado a áreas como a fotografia, o planeamento digital, a comunicação com o doente, a integração do técnico de prótese dentária no workflow diário e um rol de técnicas médico-dentárias distintas desde o mais primário, como por exemplo uma boa técnica de adesão, a procedimentos mais avançados que visem uma atuação o mais conservadora possível”. A evolução dos “sistemas Cad-Cam alteraram a forma de trabalhar, mas a presença do ceramista dentro da clínica é fundamental”, defende João Pimenta, para quem esta a técnica e o desenvolvimento nos últimos anos do conceito sem metal são as inovações a assinalar, a par com a evolução dos compósitos, que permitem “realizar bonitos trabalhos de média duração”.
O futuro passará por aqui?
O papel de relevo da Estética no seio da Medicina Dentária é evidente para João Carlos Ramos, embora admita que possam surgir mudanças: ”O futuro da Medicina Dentária passará sempre pela área da estética. Contudo, a forma como os profissionais e os pacientes a vão entender poderá variar com as mutações culturais e sociais características das sociedades atuais. O próximo passo deve passar não somente pela obtenção de tratamentos com elevados padrões de estética, mas por assegurar a efetividade dos mesmos e a sua previsibilidade a médio e longo prazo.”
O aumento da procura por parte dos pacientes e os avanços tecnológicos são as razões apontadas por Alexandre Cavalheiro para a crescente importância desta área: ”Irá desenvolver-se a um maior ritmo, ocupando grande parte do tempo dos médicos dentistas. Sem dúvida que o futuro da Medicina Dentária passará pela Estética e, apesar de existir alguma resistência dentro da profissão, penso que será inevitável que a Dentisteria Estética, mais tarde ou mais cedo, constitua uma especialidade formal reconhecida pela Ordem dos Médicos Dentistas.” Para Rui Isidro Falacho, perante esta evolução constante “torna-se fundamental fomentar a perceção de que o profissional não deve incorrer em tendências mediáticas ou conhecimentos apreendidos em redes sociais, mas sim compreender a necessidade funcional, científica, teórica e técnica subjacente a uma reabilitação holística do paciente que vise uma melhoria estética. O Médico Dentista que se proponha a desempenhar atividade clínica neste âmbito deve ter uma formação sólida, cientificamente sediada, balizada, especializada e reconhecida.”
Já João Pimenta considera que “o futuro da Medicina Dentária não passa pela estética. A Medicina Dentária é Estética. Um médico dentista que não se emocione ao ver um Picasso ou a Pietà é melhor que seja uma ‘outra coisa’. Disse isto numa conferência há 25 anos e repito-o agora com mais vigor”.
O panorama nacional da Estética Dentária visto por duas “gerações” de médicos dentistas
Como vê a nova geração de médicos dentistas que se dedica a esta área?
João Carlos Ramos: “Vejo com um misto de satisfação e preocupação. Satisfação porque é muito estimulante para nós, mais velhos, ver o entusiasmo e empenho dos nossos jovens colegas em seguir esta área fazendo já trabalhos excelentes. Contudo, como em quase tudo na vida, existe uma curva de aprendizagem que envolve não só as competências técnicas e o conhecimento científico, mas também a experiência, uma componente emocional, uma maturação e uma modulação de comportamentos que assumem uma quota crucial quando se trabalha na área da saúde. Por conseguinte, a ânsia por superespecializações dos mais jovens, no que concerne à focalização das áreas de atuação e rapidez, sem antes passarem por uma fase de verdadeiro crescimento como médicos dentistas mais generalistas, pode inclusivamente amputar muito do seu próprio potencial. Cabe-nos também a nós, mais velhos, tutores, formadores, dirigentes, a ‘responsabilidade’ de tentar orientar de forma ponderada estes colegas, ajudando a lapidar da melhor forma este diamante da juventude.”.
João Pimenta: “O presente está muito bem e o futuro estará melhor. Cada vez há mais profissionais que compreenderam o que é a Medicina Dentária. Agora há uma maior partilha de conhecimentos e uma verdadeira revolução tecnológica.[…] Temos alguns médicos dentistas e ceramistas que são dos melhores do Mundo em Estética Dentária. Permitam-me realçar os nomes de João Desport, João Fonseca, Joana Garcês, Paulo Monteiro, Pedro Couto viana, Manuel Neves, Luís Macieira, Harry Levy, Pedro Brito e outros que vão perdoar não os mencionar…. Por isso acho inacreditável que nenhum deles tenha ocupado ainda o palco principal do congresso da OMD. Preferem trazer, a peso de ouro, nomes que apresentam as mesmas coisas há cinco anos. A Medicina Dentária tem duas vertentes que andam de mãos dadas: estética e função…quem não compreender isto é melhor mudar de profissão.”
O que distingue a sua geração da anterior?
Alexandre Cavalheiro: “Não creio que as diferenças sejam necessariamente de geração. O que existe é uma grande e rápida transformação na própria profissão cuja causa está nos substanciais avanços tecnológicos que estão a ocorrer e que nos forçam a mudar a forma de trabalhar. Se recuarmos 20 ou 30 anos veremos que quase podemos dizer que é uma outra profissão.”
Rui Isidro Falacho: “Creio que a minha geração está desperta para a tecnologia e especialmente para a necessidade de uma atualização teórica e técnica constante, provavelmente resultado de um mercado de trabalho competitivo e do natural desejo de sucesso, bem como da preocupação sempre presente com o bem-estar do paciente. Quanto à qualidade de trabalho, acredito que a nossa obrigação é aprender com o que nos é oferecido pelas gerações anteriores e, desta forma, conseguir atingir um nível de excelência profissional mais rapidamente e em idades mais jovens. A verdade é que temos a sorte de ter por base gerações cujo trabalho científico e técnico nos proporciona um baseline facilitador da curva de aprendizagem e permite uma evolução mais rápida e centrada em alicerces sólidos.”
Artigo publicado na edição de março/abril de 2015 da revista SAÚDE ORAL






