O que o fez tomar a decisão de ir estudar para o estrangeiro?
A decisão, para a qual contribuíram vários fatores, surgiu de forma progressiva. O ambiente de trabalho e enquadramento profissional em que me encontrava foram sem dúvida um forte estímulo. Tive o privilegio de poder integrar, desde cedo, uma equipa de trabalho multidisciplinar altamente diferenciada, no Instituto de Implantologia, e na qual muitos elementos realizaram formação pós-graduada internacional. Entre estes destacaria o papel preponderante que teve o Professor João Caramês, Diretor do Programa de Educação Continua da New York University (NYU) em Portugal e Professor do Departamento de Periodontologia e Implantologia da mesma universidade, com quem tive a oportunidade de viajar até Nova Iorque, dando-me a conhecer a universidade e os diversos programas de especialização.
Era um sonho antigo?
Não posso dizer que seja. Um sonho é algo mais abrangente… É para mim um sonho poder contribuir para o enriquecimento da minha profissão e para o bom nome da Medicina Dentária Portuguesa. Isso é um sonho! Estudar no estrangeiro é um passo que contribui para a possível concretização desse sonho.
Em Medicina Dentária é importante ter esta experiência noutro país, ter contacto com outras realidades?
Sem dúvida, mas não só em Medicina Dentária. Viver fora de Portugal (ou de qualquer outro país) é uma experiência enriquecedora e que vai muito além da aprendizagem profissional. O conhecimento teórico hoje em dia está “online” atrás de qualquer computador ou smartphone com acesso à internet, mas a vivência em ambiente profissional e cientifico particularmente avançado e exigente, o choque cultural, as dificuldades do dia-a-dia num lugar desconhecido, o estar longe de casa… Esses não se aprendem através do ecrã! E quando o destino é Nova Iorque penso que é ainda mais difícil, no bom sentido. É uma cidade mítica, mas “selvagem”… Aqui errar é “proibido”, mas ao mesmo tempo acertar é recompensado. É uma cultura que premeia o mérito, algo que em Portugal nem sempre acontece.
Como surgiu a oportunidade de ir estudar na Universidade de Nova Iorque?
Surgiu após a viagem “exploratória” que realizei a Nova Iorque e em que recolhi as informações necessárias para organizar e apresentar uma candidatura. Mas diria que a oportunidade me foi também proporcionada. Tenho de agradecer o apoio familiar que recebi desde o dia em que se admitiu esta possibilidade. A minha família não só me apoiou na decisão, como decidiu investir em mim e na minha formação. Cabe-me corresponder com muita dedicação e trabalho sabendo que, ainda que nunca me tenham dito, é o que esperam de mim.
Porque escolheu a especialidade em Prostodontia?
A Prostodontia é, na minha opinião, das especialidades mais completas e mais bonitas da Medicina Dentária. Digo especialidade porque nos Estados Unidos é uma das nove reconhecidas pela American Dental Association a par de Saúde Pública Oral, Endodontia, Patologia Oral e Maxilofacial, Radiologia Oral e Maxilo-facial, Cirugia Oral e Maxilo-facial, Ortodontia e Odontopediatria. Como Prostodontistas somos frequentemente os primeiros e os últimos a intervir e isso obriga-nos a saber definir e organizar todos os passos de um plano de tratamento, a prever o resultado final antes de o iniciar e a convocar as restantes especialidades em preparação para a fase de reabilitação. É uma área que me fascina também pelo forte impacto que tem na qualidade de vida dos doentes, dado que lidamos com procedimentos que vão desde a reabilitação estética do sorriso até à reabilitação funcional de defeitos maxilo-faciais congénitos ou adquiridos.

Quais as principais diferenças, a nível de métodos de trabalho, na Universidade de Nova Iorque face à Universidade portuguesa?
Foi com muito orgulho que realizei os meus estudos pré-graduados em Portugal no Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz (ISCSEM). É uma Universidade que considero uma segunda casa pela forte vivência associativa que caracterizou essa fase da minha vida académica e que culminou ao exercer as funções de Presidente da respetiva Associação de Estudantes. Durante esse exercício tive oportunidade de conhecer os “bastidores” da vida universitária, a estrutura organizacional e hierárquica que pode não ser tão aparente à primeira vista. Conheço e reconheço a competência dos órgãos diretivos do ISCSEM, coordenados pelo Professor Manuel Jorge de Queiroz Medeiros, por quem nutro a mais elevada estima e consideração, e penso que em nada ficam atrás da organização que encontrei aqui em Nova Iorque. Diria mesmo que o aspeto humano e de proximidade com o aluno são superiores em Portugal, somos mais genuínos. Por outro lado, a nível de métodos e procedimentos clínicos, a diferença está fundamentalmente no acesso das populações envolventes aos serviços prestados pelas universidades. Se no Monte de Caparica servíamos grupos populacionais mais carenciados que nos procuravam para realizar atos clínicos relativamente simples (extrações, prótese parcial removível, dentisteria restauradora, entre outros) mas extremamente importantes nas primeiras fases da nossa aprendizagem profissional, em Manhattan temos numa área geográfica relativamente pequena, e que é simultaneamente um dos mais importantes centros económicos do Mundo, uma população de quase 1.7 milhões de habitantes com um poder de compra que lhes permite procurar e realizar tratamentos de extensão e complexidade incomparavelmente maior.
Quais os seus planos para o futuro?
Com a intensidade com que se vive por estes lados posso ser objetivo no que respeita a planos a curto prazo e estes passam por concluir este importante momento da minha formação profissional da melhor forma possível. Durante o meu percurso académico em Nova Iorque tive, e tenho, a oportunidade de trabalhar e aprender não só com o Departamento de Prostodontia e os clínicos de excelência que integram o seu corpo clínico – a Dra. Mijin Choi, a Dra. Leila Jahangiri, o Dr. Gary Goldstein, o Dr. Lawrence Brecht, o Dr. Kenneth Kurtz, o Dr. Michael Ferguson e muitos outros – mas também com o Departamento de Investigação em Biomateriais e Biomimética e o fantástico grupo liderado por Paulo Coelho e onde pude aprender com investigadores de renome como Ronaldo Hirata e Nick Tovar. Tenho ainda vários projetos por concluir e procurarei fazê-lo da melhor maneira neste meu último ano.
Qual a sua opinião sobre as dificuldades dos jovens dentistas portugueses em encontrar saídas profissionais?
Na minha opinião, os problemas da empregabilidade tem origem no excesso de formação pré-graduada atualmente existente. Com isto não quero dizer que seja apologista do encerramento de universidades, mas também não sou a favor da criação novos estabelecimentos de ensino pré-graduados. Até ao momento, as entidades competentes não tiveram capacidade nem visão para resolver este problema fundamental. Penso que seria vantajoso reforçar os poderes da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) e permitir à Profissão que se regule verdadeiramente a ela própria. Quando os mercados internacionais – nos quais os jovens médicos dentistas portugueses que aspiram a mais do que Portugal presentemente pode proporcionar – deixarem de oferecer as atuais oportunidades, a única alternativa será uma maior diferenciação profissional para, desse modo, aceder a novas e mais exigentes oportunidades. Nesse sentido penso que o trabalho que a OMD tem vindo a realizar, no sentido de reconhecer e implementar Colégios de Especialidade, permitirá revalorizar a Profissão.
Nem todos os estudantes têm possibilidade de investir numa formação no estrangeiro. É isto mesmo, um investimento a longo prazo?
É sem dúvida um investimento a longo prazo, tão longo quanto a extensão em que pensarmos exercer esta atividade profissional. Quando comecei a trabalhar e a gerar rendimentos próprios investi sempre uma percentagem importante na minha formação profissional, uma vez que sempre a considerei dos investimentos mais seguros que podia realizar. De todos destacaria, pela qualidade e aplicabilidade clínica que teve, o curso de oclusão ministrado pelo Dr. Luís Redinha – que curiosamente foi o primeiro e, à data, único Português a concluir o programa de Especialidade em Prostodontia da Universidade de Nova Iorque, o mesmo em que agora me encontro – e que tendo regressado a Portugal, após a sua jornada no estrangeiro, trouxe consigo valiosos conhecimentos que partilha ativamente, contribuindo assim para a valorização da Profissão em Portugal. E como ele muitos outros colegas que realizaram formação no estrangeiro e que, regressando a Portugal, se mantiveram ligados a instituições de ensino permitindo-lhes partilhar os conhecimentos adquiridos durante a sua formação internacional. Penso, por isso, que a Profissão em geral beneficia destes esforços individuais.
Como classifica a formação que atualmente é feita em Portugal em Medicina Dentária?
Como mencionei anteriormente, penso que a formação pré-graduada em Portugal proporciona excelentes oportunidades aos nossos alunos. Já no que respeita à formação pós-graduada, ainda que se tenham dado importantes passos nos últimos anos com a criação de diversos programas universitários, haverá um percurso importante a percorrer dado que esta vertente formativa deverá incluir não só programas de especialidade a tempo inteiro, mas também cursos modulares e de educação contínua.


