Três profissionais de medicina dentária – Andreia Hortênsio, Rita Bonita e Telma Miranda – enviaram esta quarta-feira, 25 de março, uma carta ao Presidente da República, primeiro-ministro e bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD).
“Têm sido dias muito difíceis, em que nos deparamos diariamente com dificuldades inerentes à nossa profissão e com o possível encerramento das nossas empresas e clínicas”, refere Rita Bonita, uma das três médicas dentistas que redigiu a carta, citada pela Nit.
“Com o surto de Covid-19 e a sua disseminação em Portugal, a nossa realidade mudou drasticamente. Fomos, e bem, impedidos de trabalhar, excetuando o tratamento de urgências inadiáveis, como a ética assim o determina, minimizando a procura e a saturação de outras unidades de saúde”, refere a carta.
A carta cita ainda um artigo do New York Times, que refere que a profissão é de maior risco, pelo que se torna absolutamente imprescindível a utilização de equipamentos de proteção individual (EPI) para qualquer tratamento.
Um ranking publicado pela Business Insider, realizado a partir da base de dados O*NET, identificou também os profissionais de medicina dentária como os profissionais de maior risco. [1] Os higienistas tiveram uma classificação geral de 72,8 em 100, com uma pontuação de 100 no que concerne à exposição a doenças e infeções. E os médicos dentistas obtiveram 95 de classificação em relação ao mesmo risco sanitário.
“De acordo com as indicações por parte da OMD, esses EPI seriam distribuídos pelos profissionais, de forma a conseguirmos garantir o atendimento dos nossos pacientes. A nossa primeira questão, meus senhores, é esta: onde é que estão esses equipamentos? Digam-nos, por favor, como é que podemos desempenhar as nossas funções, sem colocar em risco a saúde dos nossos pacientes, dos nossos familiares e a nossa, se até a data de hoje ainda não recebemos qualquer tipo de apoio ou resposta por parte das entidades competentes? Esta é a nossa primeira preocupação, que tem toldado os nossos dias e o nosso discernimento”, continua a carta.
No documento, outra das questões que as três médicas abordam é a financeira, pedindo ação por parte de quem poderá fazer a diferença.
“Como é que é suposto continuarmos a pagar contas, como é que podemos continuar a trabalhar, como é que podemos ir ao supermercado e simplesmente subsistir neste País, quando as poucas e vagas medidas extraordinárias EM NADA apoiam concretamente os trabalhadores independentes ou por conta de outrem, os sócios-gerentes de empresas e PME que vão claramente afundar porque já nem a luz ou água conseguem pagar?”.
“Enquanto Presidente da República, primeiro-ministro ou bastonário, cremos que a vossa missão é saber gerir esta crise, protegendo os que precisam da vossa proteção, apoiando os que necessitam do vosso apoio e, acima de tudo, a vossa missão é a de transparência, é a de verdade. Meus senhores, não pedimos nada que não seja um direito nosso enquanto cidadãs.”
“Por último, não nos empurrem, por favor, para soluções que nos endividarão. É vergonhoso apresentarem essa opção. É lamentável que, após anos de descontos, após anos a salvar bancos com o NOSSO dinheiro, fruto do NOSSO trabalho, sejam incapazes de dar a mão aos portugueses sem pedir nada em troca, sem afundarem mais este povo que raramente consegue vir à tona respirar”, concluem.
De acordo com a Nit, até ao momento a carta ainda não tinha tido resposta.
O bastonário da OMD apelou, na semana passada, em declarações ao Jornal Económico, para que fossem determinadas “compensações justas para uma profissão inteira impedida de exercer a sua atividade”, prevendo que “muitos médicos dentistas, pura e simplesmente, não vão conseguir aguentar semanas, talvez meses, sem poderem trabalhar”.
A OMD assegurou, ainda, à data, que estaria a realizar todos os esforços para garantir que o governo tomasse as medidas necessárias para prevenir os “constrangimentos sociais e económicos” que os médicos dentistas vão enfrentar.