Inês Mota, médica dentista na Clinica Artdental, em Girona; Clinica dental ABAC, em Terrassa; Clinica dental Sendra, em Pallejà; e Clinica Dental Dra. Anna Castro Garcia, em Barcelona (Espanha).
Qual é a sua área de especialidade e porque é que escolheu essa área?
Trabalho na área de cirurgia, implantologia e periodontologia.
Como e quando surgiu a oportunidade de ir trabalhar para o estrangeiro?
Comecei a trabalhar em Espanha na altura em que me desloquei para o país para ir fazer o mestrado. Iniciei o trabalho no meu 1º ano de Mestrado. No fundo, aproveitava os tempos livres para ganhar experiência e trabalhava ma manhã e uma tarde por semana. Quando terminei o mestrado, como já estava trabalhar, foi mais fácil porque já estava inserida no “mundo laboral”.
Como é que foi essa experiência e que desafios enfrentou?
Cheguei a Barcelona apenas com uma mala e tinha dois dias para procurar um quarto, até lá fiquei num hotel. Senti-me completamente perdida, só queria um sítio para poder dormir, instalar-me e sentir-me em casa, até porque o Mestrado começava na semana seguinte. Este foi o verdadeiro desafio, vir sozinha num país diferente.
O que a fez tomar a decisão de ir para fora de Portugal?
Sempre pensei ir para o estrangeiro trabalhar, não só por conhecer a situação da Medicina Dentária em Portugal, mas também por conhecer amigos e familiares médicos dentistas que trabalham fora e que se encontram com boas condições de trabalho. Claro que existem sempre coisas más, porque nada é perfeito.
Sempre quis descobrir o mundo e “partir para uma aventura” e o melhor momento para o fazer é enquanto somos jovens. O meu objetivo passa por estar bem profissionalmente e pessoalmente, tendo qualidade de vida.
Por isso, durante o meu percurso académico também fiz ERASMUS, para ter este primeiro impacto com o estrangeiro. Estar longe de casa, com ouro idioma, outras rotinas… O meu 4º ano do curso de Medicina Dentária foi realizado também em Espanha, em Valência. Aprendi Castellano antes de ir porque sabia que os exames eram orais e escritos e tudo era em espanhol.
Passei um ano fora de casa, aprendi muito e cresci muito.
Como é um dia de trabalho normal para si? O que faz?
Todos os dias trabalho numa clínica diferente. Vou sempre de transportes públicos, pois aqui, felizmente, é muito fácil a deslocação. Trabalho nas áreas de cirurgia oral, implantes e periodontologia.
Quais são os maiores de desafios da área em que atua − periodontologia/implantologia? E como está desenvolvida esta área em Espanha?
Sobretudo encontrar trabalho, porque como em Portugal estas áreas estão muito exploradas, principalmente ao nível de implantologia − no caso da periodontologia não tanto −, sempre foi mais fácil encontrar trabalho, mas é uma área que muitos pacientes ainda não entendem e é necessário trabalhar muito essa primeira parte, a educação do paciente para aderir a este tipo de tratamentos.
De que forma é que a pandemia de covid-19 tem afetado a prática da medicina dentária em Espanha?
No início foi muito difícil, acho que foi difícil em todo o lado. As pessoas tinham muito medo de sair de casa, só íamos à consulta para urgências e estávamos vestidos como astronautas, com imensos protocolos. Foi uma loucura. Em Espanha, os médicos dentistas (na sua maioria), estão no regime de autonomo, ou seja, como se fosse um trabalhador por conta própria, ganha uma percentagem do que faturas por cada mês. Isto significa que os primeiros meses que estávamos confinados foram muito complicados. Nessa altura, deixei de trabalhar em algumas clínicas porque o volume de pacientes diminuiu muito e tive de começar tudo de novo e procurar outras clínicas. Hoje, continuamos com o máximo de cuidado com os protocolos. Infelizmente, ainda há muitos cancelamentos de última hora devido a contactos diretos com pessoas infetadas, casos positivos de covid-19, mas já não há medo de ir ao dentista como existia no início da pandemia.
Equaciona regressar a Portugal?
Nunca se diz nunca, talvez algum dia sim. Quando visito a minha família fico sempre cheia de saudades do meu País. Pequenas coisas como a comida, a rotina e as pessoas que deixei para trás, fazem-se pensar em voltar. Mas por enquanto ainda não pretendo voltar. Quando estamos tanto tempo numa cidade acabamos por criar uma nova rotina. Tenho os meus amigos, o meu namorado e por agora corre tudo bem por aqui.
Barcelona é uma cidade muito fácil para qualquer adaptar-se, todos os bairros são distintos, existe praia, montanha, moda, gastronomia… Há muita coisa para fazer. O clima é ótimo e, para mim, isso é muito importante.
Que conselhos dá aos recém-licenciados que estão a ter dificuldades em ingressar no mercado de trabalho?
Que não desistam, que arrisquem e que não fechem as portas a novas oportunidades ou aventuras que vos façam sair da vossa zona de conforto! Que é agora ou nunca! Quando somos jovens e podemos arriscar na nossa carreira e partir a aventura porque se afinal as coisas não terminam como queríamos ou como planificamos podemos voltar. Mas pelo menos, tentamos!
No meu caso saí porque queria continuar a minha formação como profissional, mas não pensava continuar aqui e afinal já cá estou há quase seis anos. O desenrolar da minha vida profissional e pessoal acabou por fazer com que ficasse por cá. Quero com isto dizer que, por vezes, não devemos fazer grandes planos porque tudo pode mudar de um dia para o outro.
Como vê o estado atual da medicina dentária em Portugal e no mundo?
Sou sincera, não tenho seguido as condições atuais da medicina dentária em Portugal, mas acredito que não estarão muito diferentes de quando vim para Barcelona. Infelizmente, muitos companheiros do meu curso também acabaram por emigrar, por exemplo para França e Bélgica.
Mas também é certo que aqui em Espanha é tudo muito parecido com Portugal. Demasiados profissionais e pouca oferta. O truque está na vontade de sermos bons profissionais, especializar-nos e formar-nos na(s) área(s) que mais gostamos.
*Artigo publicado originalmente na edição n.º 142 da revista SAÚDE ORAL, de janeiro-fevereiro de 2022.


