O que despertou o seu interesse para a medicina dentária na população com deficiência?
Durante o Curso de Higiene Oral tive aulas com uma professora americana – Norma Wells – nos há muito tempo trabalhava com deficientes Estados Unidos. Em Portugal ainda não se fazia nada nesta área. Começámos por realizar estágios comunitários em algumas instituições. Foi o meu primeiro contacto com esta população e achei que era fácil pois nem era tanto as cáries que tinham para tratar, mas sim tártaro e estava ao nosso alcance fazer algo para melhorar a sua saúde oral. Começamos a marcar consultas e com a ajuda da Prof.ª Wells realizávamos tratamentos a esses jovens que víamos nas instituições. Posteriormente, através do intercâmbio entre as duas faculdades acabei por ir para a Universidade de Washington, onde tive formação específica nesta área.
E antes disso, o que a fez escolher o Curso de Higiene Oral?
Foi um pouco por coincidência. Queria seguir a área da saúde, fui para Higiene Oral e gostei. Depois fui convidada a trabalhar na Faculdade de Medicina Dentária.
E o que aprendeu com essa formação?
Aspetos mais práticos, como por exemplo o que fazer quando uma pessoa tem movimentos involuntários de abrir e fechar a boca, ou movimentos involuntários dos braços ou das pernas, o que fazer quando não querem, ou não percebem, que é para abrir a boca e para a manter aberta. Nos Estados Unidos tive maior perceção do que era trabalhar com esta população a nível de saúde oral, uma vez que as instituições têm clínicas com toda a equipa médico-dentária. A FMD tem uma consulta especializada, mas depois para os que não colaboram ou têm tratamentos muito extensos para fazer não temos hipótese de fazer anestesia geral.
E já pensou fazer algo semelhante em Portugal?
O curso de Higiene Oral tem uma grande componente comunitária e desenvolve programas de prevenção nestas instituições todos os anos. Este trabalho é bastante reconhecido e já temos uma instituição que criou as condições para a existência de uma pequena clínica com a equipa dentária (um higienista e um dentista) que é a Associação de Pais e Amigos de Deficientes Profundos.
Quanto tempo esteve nos EUA?
Fiz a especialização durante três meses.
O que recorda desse período?
As condições que eles tinham e que nós ainda não temos, não só a nível clínico como a nível universitário. As pessoas já tinham muita prática e formação nesta área enquanto em Portugal pouco ou nada se fazia.
Quando voltou a Portugal devia ter vindo com aquele entusiasmo de querer fazer algo semelhante. O que fez?
Integrámos a disciplina de Higiene Oral para Deficientes no Curso, como unidade curricular, tendo esta a componente teórica, clinica e comunitária. Criou-se a consulta para pessoas com necessidade especiais, que nessa altura contava com o apoio da Dra. Manuela Tavares, e foi crescendo sempre sem divulgação. Esta consulta está organizada e adaptada a esta população e realiza-se à 2ª feira de manhã, com marcação prévia. Tentámos criar material auxiliar que não existiam, como faixas de estabilização, abridores de boca ou cabos adaptados para as escovas de dentes, entre outros.
Quais as características indispensáveis que um profissional de saúde oral deve reunir para trabalhar com esta população?
Acima de tudo tem de gostar e estar disposto a prestar um bom serviço a quem quer que seja, pois há pessoas que têm grandes limitações físicas, mas que se tratam facilmente, enquanto outras com ligeiro atraso mental nos colocam mais barreiras ao tratamento por serem muito teimosos.
Como se mantém a calma nestas situações?
Além da ternura é fundamental que os pacientes sintam que não estamos nervosos. Portanto a calma e o bom senso são importantes, por vezes surgem situações imprevistas e na altura temos de ter a serenidade para reagir conforme o comportamento e a atitude da pessoa. Por outro lado temos os pais, alguns ansiosos, outros muito idosos, e outros sépticos quanto ao sucesso da consulta pois já foram a vários sítios para os tratar e com poucas ou nenhumas respostas positivas.
Como é que os pais têm conhecimento destas consultas? Há algum trabalho a esse nível?
A divulgação da consulta acabou por ser feita através do ‘passa a palavra’ entre os pais, entre as instituições e depois mais tarde entre os pediatras que foram sabendo do nosso trabalho. Nunca divulgámos a consulta e neste momento temos cerca de 2000 pacientes com deficiências muito diferentes que vêm do Algarve, Alentejo de vários pontos do país, e que vêm de tão longe para fazer uma coisa tão simples como uma destartarização.
Não existe a possibilidade de alargar a consulta a outras localidades?
Sim, desde que existam recursos físicos para tal. Nós temos muitos higienistas orais que vão trabalhando um pouco por todo o país, mesmo os que estão em centros de saúde abrangem instituições e vão fazendo alguma coisa. O pior é quando a necessidade de tratamento médico requer maiores condições físicas. Trabalhar com esta população é muito gratificante pois sentimos que realmente trabalhamos para melhorar a qualidade de vida destas pessoas, sendo reconhecido e valorizado o nosso empenho.
Esse reconhecimento é a vossa maior recompensa?
No fundo é porque há pessoas que chegam à consulta e referem que já foram a vários consultórios dentários e nunca conseguiram fazer nada, ou que só se conseguem com anestesia geral. Nós tentamos e a pouco e pouco vamos conseguindo. Claro que não é com magia, por vezes demora o seu tempo, tem que haver uma proximidade e empatia, mas vamos tentando. O que digo aos alunos é para não desistirem e nunca dizerem ”não consigo” sem antes tentar. Depois tudo se consegue fazer e por vezes é tão fácil, basta um pouco mais de tempo. E no final nós ficamos satisfeitos e os pais também.
Lembra-se de algum caso particular que tenha ficado na memória?
Sim, existem vários ao longo destes anos, mas houve um há cerca de dez anos, uma mãe que chegou à consulta e disse: ‘venho cá porque o médico me mandou, mas sei que não vai conseguir fazer nada porque já fui a vários dentistas e ninguém lhe conseguiu fazer nada, porque ela não colabora’. A jovem tinha uma paralisia cerebral sem cárie e muito tártaro. A mãe dizia que só íamos conseguir com anestesia geral. Começámos a trabalhar, fizemos a estabilização do corpo (é importante que tenham uma boa postura para facilitar a abertura da boca) e fizemos a consulta sem grandes dificuldades. Hoje em dia, a mãe leva a filha às consultas de rotina e ela também vai às consultas da faculdade. Temos muitos utentes que nas primeiras consultas se revelam mais complicados, mas depois vão-se habituando aos barulhos, aos cheiros, aos sabores e aos nossos instrumentos e tudo se torna mais fácil. Uma aproximação sucessiva é muito importante nesta população.

Fátima Bizarra, Higienista Oral
É importante que os pais dos pacientes tenham cuidados dentários em casa?
É importantíssimo, pois a higiene dos filhos depende em muitos casos dos pais. Eles dizem-nos as suas maiores dificuldades e juntos adaptamos as técnicas que se aplicam ao caso. As dificuldades mais frequentes que nos são referidas são o trincar a escova, o não abrir a boca, o não conseguir bochechar, o engolir a pasta e nós ensinamos algumas técnicas facilitadoras para contornar estas dificuldades e simplificar a rotina diária. Recordo-me de uma jovem de 23 anos que vi numa instituição que nunca tinha escovado os dentes. Não tinha cáries, mas todos se queixavam que não lhe podiam tocar porque sangrava das gengivas. A única coisa que precisava era de uma consulta de higiene oral. A pouco e pouco a mãe conseguiu fazer uma sensibilização em relação à própria escova de dentes, fez várias consultas e agora a mãe já começa a conseguir escovar os dentes à filha. Com o tempo vão-se habituando e vão ultrapassando todas as barreiras.
Isto quase que é uma terapia para os pais, não?
Sim. Às vezes percebemos que os próprios pais estão muito cansados e não têm paciência, mas levam-nos às consultas, o que em muitos casos já é muito bom. Há pais que têm grandes dificuldades em transportar os filhos, pois é dispendioso. Por outro lado, como a clinica é só para eles, sentem-se bem naquele ambiente e os pais vão-se conhecendo. Enquanto nós ficamos a dar a consulta aos filhos, eles vão beber café.
Como classifica a saúde oral desta população em Portugal?
Em Portugal não existem muitos estudos realizados na população deficiente. Neste momento estou a fazer o doutoramento sobre a saúde oral nas pessoas com paralisia cerebral do distrito de Lisboa e ainda sem analisar os dados tenho a percepção que quando existe cárie não são realizados tratamentos apenas estraçoes e depois não existe reabilitação. Espero em 2014 ter os resultados.
Como se tratam os casos em que existem muitas cáries? Com sedação total?
Sim, por vezes só se consegue com anestesia geral, quando existem muitos dentes para tratar e/ou tratamentos muito demorados, tem mesmo que ser. Mas a equipa de dentistas que trabalha nesta clínica consegue fazer muitos tratamentos sem recorrer à anestesia. A nossa primeira etapa é sempre tentar e depois então se não se conseguem resultados é que se recorre à anestesia geral.
E a nível da saúde oral em Portugal? As pessoas estão cada vez mais a adiar os tratamentos dentários porque não têm dinheiro. Como vê esta situação?
Quando comecei a trabalhar, no final dos anos 80, a população portuguesa estava pouco virada para a prevenção da saúde oral. Atualmente, mesmo não havendo dinheiro, já estão mais informados sobre os cuidados que devem ter, mas não quer dizer que façam! Nessa altura poucas pessoas usavam o fio dentário ou escovilhão, ou mesmo sabiam o que era um higienista oral. Neste momento não é bem assim, as pessoas já dizem que vão ao higienista, já sabem que têm que fazer consultas periódicas, e se fizeram prevenção podem evitar tratamentos maiores e mais dispendiosos.
Numa altura em que se regista uma elevada emigração por parte dos jovens dentistas, como professora como vê as expectativas dos alunos que terminam os cursos? Ainda têm esperanças?
Como todos os jovens, aos 20 anos estão cheios de esperança e esperam mudar o mundo. Acho que faz parte do espírito jovem, sentirmos que temos de lutar pelas coisas, com a diferença que agora vamos ter de lutar mais um pouco. Há alguns anos era mais fácil, em setembro já tínhamos todos os higienistas colocados. Hoje não é bem assim, do último curso terminaram 24 alunos dos quais apenas 15 a trabalhar.
O que gostava que acontecesse em 2013, a nível da saúde oral em pessoas com deficiência?
Que houvesse mais locais a realizar consultas, além de algumas faculdades e hospitais. Temos alguns higienistas que gostavam de trabalhar nesta área, mas não têm onde porque não existem recursos físicos para trabalhar. Também precisávamos de ter médicos dentistas dispostos a trabalhar com esta população, mas muitos ainda não estão despertos para esta área porque também não têm formação académica para tal. Promover campanhas de sensibilização para os cuidadores das pessoas com necessidades especiais, quer sejam os pais ou as pessoas que trabalham com eles. Como já se sabe, na grande maioria os tratamentos são complicados de realizar. Daí a necessidade de se apostar o mais cedo possível na prevenção para poder melhorar a qualidade de vida e o estado de saúde oral das pessoas com necessidades especiais.


