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A Medicina Dentária Portuguesa é das melhores do mundo

Filipe Gil: Que importância tem, para si, a distinção “Personalidade do Ano” na área da Medicina Dentária, atribuída pela revista Saúde Oral?

João Caramês: É uma distinção bastante lisonjeira e um motivo de grande orgulho. Sinto-me um privilegiado por fazer o que gosto. Considero-me uma pessoa muito humilde e ser distinguido pela vossa revista e, sobretudo, ser indicado pelos meus pares e acarinhado por eles, é talvez das coisas mais bonitas e mais gratificantes na carreira profissional de um médico dentista.

Como avalia o seu percurso profissional até ao momento?
A medicina dentária é para mim uma vocação.Sempre quis ser médico e sempre me atraiu uma medicina interventiva. Tive a sorte de poder frequentar o curso de medicina dentária da Universidade de Lisboa, onde me licenciei. Adoro a minha profissão e sempre me dediquei muito a ela, com humildade, respeito e seriedade.

Tive igualmente a sorte de ter um grande mestre, o Professor Armando Simões dos Santos, que me convidou para trabalhar directamente com ele depois de me ter licenciado. Depois, o meu entusiasmo e a minha vontade de querer saber mais, fizeram com que fosse para os Estados Unidos da América (EUA) em 1993. Nessa altura, havia pouco ensino pós-graduado em Portugal e daí a necessidade de ir para fora do país para poder diferenciar-me um pouco mais. E assim fiz, fui para a Universidade de Nova Iorque, onde me diferenciei nas áreas da Implantologia, Cirurgia e Reabilitação Oral. A verdade é que foi um marco importante para mim já que me abriu horizontes. Quando regressei a Portugal, prossegui a minha carreira académica na Universidade de Lisboa, onde hoje sou Professor Catedrático.

Por outro lado, nunca abandonei a prática clínica.

Fundei o Instituto de Implantologia há 15 anos, quando regressei de Nova Iorque, fruto da ideia de criar um centro multidisciplinar, dedicado à Medicina Dentária de excelência. A Implantologia, nessa altura, ainda caminhava de uma forma tímida. O Instituto foi crescendo passo a passo e hoje posso orgulhar-me de liderar um grupo de profissionais dedicados, com humildade e seriedade, que é um lema que me parece ser muito importante.

Voltando um pouco atrás, esteve três anos ligado à Universidade de Nova Iorque…
Ainda hoje permaneço ligado à Universidade de Nova Iorque, como director internacional da educação contínua, o que nos permite um intercâmbio com os Estados Unidos e trazer a Portugal figuras de relevo da Medicina Dentária de nível mundial. Para além disso, tenho ajudado diversos jovens médicos dentistas, contribuindo para que muitos colegas tenham feito as suas pós-graduações na Universidade de Nova Iorque.

Quando foi para os Estados Unidos, já tinha a ideia de se especializar em Implantologia, o que na altura era algo praticamente desconhecido em Portugal…
Na Medicina Dentária o meu percurso é curioso já que tive sempre uma paixão pelo desconhecido. Quando terminei o curso despertei grande curiosidade pela oclusão e a reabilitação oral. O meu mentor foi o professor Armando Simões dos Santos, que era o regente da disciplina de oclusão na faculdade.

A minha dedicação à reabilitação foi grande e a necessidade de diferenciação na área da Postrodontia foi importante, mas senti uma necessidade de aprender um pouco mais. A Implantologia despertou-me muitíssimo interesse e como em Portugal não havia formação nesta área, fui para os EUA para adquirir conhecimentos numa área nova. É evidente que nos EUA, o importante não foi só a aprendizagem na área da Implantologia, mas sim toda uma vivência, em todos os campos. A dedicação à Cirurgia Oral também surgiu nos EUA, e hoje posso dizer que estou inteiramente dedicado à Cirurgia e à Implantologia.

Depois dos EUA, e regressado a Portugal, funda o Instituto de Implantologia, há 15 anos atrás. Como tem sido a evolução do Instituto?
A passagem pelos EUA não teve apenas uma componente de formação profissional. Permitiu-me também alargar horizontes e dar largas àquele entusiasmo que me fez sair de Portugal. Quando regressei trazia comigo uma enorme vontade de por em prática muito do que tinha aprendido. Foi nesse sentido que surgiu o Instituto de Implantologia, fruto do entusiasmo estimulado nos EUA e que foi concretizado em Lisboa. Basicamente, criei condições de trabalho que nos permitiram evoluir e praticar uma Medicina Dentária de excelência.

Mas falando um pouco mais do próprio Instituto, nestes últimos 15 anos, como foi a sua evolução?
A medicina dentária e a Implantologia evoluíram muitíssimo nestes 15 anos. Novos materiais e novas técnicas permitiram realizar tratamentos que seriam impensáveis há uns anos atrás. Penso que a qualidade de vida das populações aumentou muito com a Implantologia que veio colmatar uma lacuna importante na reabilitação oral. Creio que a evolução tecnológica permitiu um avanço enorme na área da Implantologia, diria mesmo que é uma das áreas que mais tem evoluído na medicina. Acompanhar essa evolução nestes últimos anos tem sido muito estimulante. Costumo dizer aos meus alunos que não sabemos nada e que, apesar de estarmos constantemente a aprender e a investir na aprendizagem, continuamos sempre ignorantes. Isto significa que é importante acompanhar a evolução. O Instituto tem crescido ano após ano, com passos sólidos, sobretudo pelo investimento que fazemos nos nossos pacientes. Um paciente satisfeito é a forma mais gratificante de crescer. E esse investimento tem permitido um crescimento lento mas sólido.

E que planos existem para o futuro do Instituto, mais clínicas, mais serviços?
Não tenho a ambição de grandes crescimentos nem de grandes clínicas. Tenho um grupo profissional de gente humilde, empenhada e honesta, que desenvolve o seu trabalho de forma diferenciada. É evidente que o crescimento que existe no Instituto surge de forma passiva. Gostaríamos, no entanto, de ter uma vertente multidisciplinar com outras áreas da medicina, o que acabará por acontecer com naturalidade, já que hoje a medicina multidisciplinar é muito importante. O intercâmbio entre as várias áreas da medicina dentária e as diferentes especialidades médicas, é cada vez mais importante.

Os centros que integram vários especialistas e profissionais diferenciados em várias áreas, permitem a prestação de cuidados médicos de qualidade, de uma forma multidisciplinar e abrangente.

Voltando à questão da Implantologia, há alguma técnica que tenha estado a desenvolver e que queira destacar?
Como disse anteriormente a Implantologia tem evoluído muito e todos os anos há novas técnicas e novos materiais que são apresentados. São exemplo disso a possibilidade de realizar cirurgias guiadas por computadores ou o conceito de metal free rehabilitation.

Actualmente, já é possível na área da Prostodontia a confecção de pontes totalmente cerâmicas. Neste sentido, tenho estado a fazer estudos que permitirão a curto prazo a substituição dos implantes de titânio por implantes em zircónio.

Hoje, cada vez mais, temos tratamentos menos invasivos, menos traumáticos, mais eficazes, mais duráveis e com resultados estéticos surpreendentes, o que é muito gratificante para nós.

Podia dizer-lhe aqui uma série de contributos inovadores, mas toda a gente sabe que tenho uma postura humilde na profissão. Contudo, deve dizer-lhe que tenho contribuído para a formação dos médicos dentistas portugueses trazendo know-how de fora, contribuindo para um melhor exercício generalizado da Implantologia em Portugal. Tenho, ao longo destes anos, feito alguma investigação, tenho contribuido com várias ideias e inovações, mas não vou criar vaidades, não é esse o meu estilo.

Sabe-se que os cidadãos portugueses são os europeus que mais usam placas dentárias removíveis, as célebres dentaduras. A Implantologia vem substituir esta solução, como é que os pacientes têm reagido às novas opções da Implatologia, há desconfiança, não?^
Devo confessar que há 15 anos atrás as pessoas desconheciam o que era a Implantologia. E como tudo o que é desconhecido gera receio e desconfiança, as pessoas tinham receio em relação a essa nova solução que era a colocação de implantes. A população portuguesa, durante muitos anos, por falta de profissionais e talvez por hábitos educacionais e ainda por falta de capacidade económica, nunca cuidou muito dos seus dentes. Hoje temos uma situação completamente diferente, temos até profissionais a mais. A nossa medicina dentária com 30 e poucos anos, conseguiu dar um salto muito grande e diferenciar-se de uma forma fantástica.

Basta pensarmos que nos EUA há cursos de medicina dentária há mais de cento e cinquenta anos e que, no entanto, a medicina dentária portuguesa é das mais avançadas no mundo. Temos uma medicina dentária com profissionais de qualidade por todo o país. Posso dizer que no meu contacto com a Universidade de Nova Iorque, os colegas portugueses distinguem-se entre as outras nacionalidades.

A opinião sobre os estudantes portugueses é a mais elevada, ou seja, temos médicos dentistas bem preparados no nosso país, que estão a par dos melhores profissionais a nível mundial. Hoje temos uma medicina dentária muito diferenciada, muito qualificada. No entanto, a medicina dentária é uma medicina dispendiosa por todos os materiais, todo o backoffice e a logística. Infelizmente, os fracos recursos do país não permitem que toda a população tenha acesso a essa medicina dentária.

Portanto, a Implantologia ainda é cara para a classe média portuguesa?
A Implantologia é dispendiosa em qualquer país do mundo. São técnicas diferenciadas e onerosas. É evidente que quem pratica Implantologia deve ter um grau de diferenciação profissional elevado. Por outro lado, também as condições em que ela é praticada devem ser diferenciadas, isso torna-a dispendiosa.

No entanto, penso que é uma área essencial para a qualidade de vida das populações. Infelizmente em Portugal há pouca ajuda. Surgem agora as seguradoras que nem sempre dão os melhores exemplos. Penso que o caminho devia ser o de uma medicina de qualidade e não de quantidade, e hoje nem sempre se pretende uma medicina qualificada.

É essencial que existam apoios à população para que a Implantologia seja possível para extractos sociais com menos condições financeiras.

O receio é que comece a existir uma Implantologia em quantidade perdendo a qualidade, para mais pessoas, mas com menos qualidade?
No meio é que está o caminho. É evidente que a Implantologia deve ser divulgada e deve ser acessível a um maior número de pacientes, mas também não devemos cair na vulgarização de algo que não é vulgarizável.

Estamos a falar de um acto médico que deve ser feito com honestidade, profissionalismo e respeito pelo paciente.

Mas por vezes os pacientes não podem ser convencidos a recorrerem à Implantologia mais por questões de ordem estética e não tanto por questões de saúde?
A estética é fundamental e cada vez mais importante na nossa sociedade. O bem-estar está cada vez mais associado a uma boa estética. É evidente que para nós o mais importante é a saúde. No entanto, não devemos dissociar função e estética, uma reabilitação bem conseguida é uma reabilitação em que ambos os objectivos foram cumpridos. Hoje as novas técnicas permitem resultados espantosos. Pacientes desdentados ou portadores de próteses pouco confortáveis poderem, em relativamente pouco tempo, experimentar uma situação completamente diferente, é extremamente gratificante para nós profissionais dedicados à reabilitação oral.

Falando da Ordem do Médicos Dentistas. o Professor, apesar de ser presidente da mesa da assembleia-geral da OMD, como avalia o papel da Ordem nos últimos anos?
Vivemos momentos muito difíceis na Medicina Dentária portuguesa. Por várias razões penso que temos o bastonário que era necessário, uma pessoa experiente e que pode dar seguimento a uma série de políticas essenciais para ultrapassar estes tempos difíceis.

Penso que a Ordem está a trabalhar no sentido de poder de concretizar diversas iniciativas e projectos fundamentais para a nossa classe. Faço, portanto, uma avaliação francamente positiva do desempenho dos nossos representantes na OMD.

Em relação ao Serviço Nacional de Saúde, existem inúmeras opiniões sobre a integração dos médicos dentistas no SNS ou não. Gostaria de saber a sua opinião sobre qual deve ser o papel da medicina dentária no SNS. Integração total ou uma espécie de parceria público privada?
É essencial os médicos dentistas poderem participar no serviço nacional de saúde e também nas carreiras hospitalares. Acontece em praticamente todos os países ditos civilizados, e penso que em Portugal também há essa necessidade. Não só a nível dos centros de saúde mas também a nível hospitalar, porque a medicina dentária é uma componente essencial na prestação de cuidados de saúde primários.

É evidente que em Portugal o que se pretende é aproveitar toda uma logística instalada de consultórios privados em todo o país, que podem ser utilizados pelo serviço nacional de saúde. Esse esforço já está feito e se já existem essas instalações porque não usá-las em vez de montar centros de raiz. Trata- -se da saída mais económica, através da colaboração entre o SNS e as entidades privadas, ou seja, é uma forma inteligente de aproveitar os recursos do nosso país. O cheque dentista surgiu desta linha de ideias. É um esforço importante cujo objectivo é a cobertura completa da população portuguesa. Por ora é ainda