E se amanhã, num futuro não muito longínquo, a qualidade da Medicina Dentária que se pratica em Portugal fosse posta em causa? Este é o receio de Carla Piteira, diretora-clínica da Smile LX – Reabilitação Oral, uma clínica dentária situada numa das Torres das Amoreiras, em Lisboa. O panorama atual da medicina dentária levanta algumas questões e desperta alguns receios. Além do excesso de profissionais, tem-se assistido a cortes nos salários e, em consequência, “as pessoas têm mais dificuldades em investir em formação. Isto assusta-me porque pode comprometer, no futuro, a qualidade que caracteriza a prática clínica atual”. De acordo com a médica dentista, o não investimento em formação é ainda um “travão na progressão da carreira” dos médicos dentistas. Ciente de que o futuro da profissão está diretamente dependente da aposta na formação, uma das suas estratégias para crescer profissionalmente e garantir tratamentos de qualidade aos pacientes tem sido uma aposta na formação.
Ortodontia em contexto multidisciplinar
Nesta missão, Carla Piteira tem tido a preocupação de sorver conhecimento de várias ‘correntes’. “Fazer formação no estrangeiro abre os horizontes, não porque aquilo que se faz lá fora seja melhor do que o que se faz por cá, mas porque ganhamos novas perspetivas”, refere a diretora-clínica que tem vindo a privilegiar sobretudo a área da ortodontia, apesar de também investir em formação noutros campos da medicina dentária. “A ortodontia que se faz na Europa é diferente daquela que se faz nos Estados Unidos da América (EUA) e quando estive a estudar em Nova Iorque gostei muito do que aprendi, apesar de ser uma realidade diferente”.
E porquê a ortodontia?
Concluída a licenciatura, há 13 anos, Carla Piteira desenvolveu atividade em várias áreas da medicina dentária, contudo seria a ortodontia a fasciná-la por ser “uma área que permite uma interligação a outras áreas”. É verdade que há a ortodontia ‘pura’, “em que a pessoa faz o tratamento ortodôntico e o problema fica resolvido”, mas há também a ortodontia em que “o tratamento ortodôntico está encadeado, por exemplo, com implantes ou próteses fixas porque o objetivo é a reabilitação”. É esta visão multidisciplinar do sorriso do paciente que a fascina. Por isso não é de estranhar que os casos mais marcantes tenham sido precisamente “os multidisciplinares e aqueles em que nos apercebemos de que conseguimos mudar a vida da pessoa para melhor, em termos de qualidade”.
Reabilitar sorrisos
A médica dentista sempre se recusou a ficar de braços cruzados e desde que terminou o curso que “sempre trabalhei porque preferia fazer quilómetros para trabalhar a estar parada”, mesmo que chegando ao fim do mês o saldo não fosse o mais gratificante. Durante este período chegou a exercer a profissão no Algarve e atualmente ainda reparte o seu tempo por outras clínicas, mas concentradas na zona de Lisboa.
O sonho sempre foi ter um espaço seu e a Smile LX acabou por se tornar uma realidade há quase três anos. Desde que assumiu funções como diretora-clínica que a maior parte do tempo é passado neste espaço. Apesar de o seu destino só se ter cruzado com o da clínica há relativamente pouco tempo, “a Smile LX já existe há muitos anos”, conta a médica dentista, revelando que “provavelmente foi a primeira clínica a abrir nas Torres das Amoreiras há cerca de 20 anos e ao longo do tempo foi passando por várias remodelações”. Para a médica dentista, abraçar a direção da clínica foi “um projeto novo”, justamente porque queria ter um espaço seu em Lisboa. O facto da Smile LX se situar na zona das Amoreiras é um ponto a favor dado que “é central e tem várias facilidades, como o estacionamento”.
Mas Carla Piteira não está sozinha neste projeto. Dedicando-se sobretudo à ortodontia, tem a trabalhar consigo tem vários colegas, de modo a poder levar a cabo a missão de reabilitar o sorriso. “Temos uma colega que se dedica à endodontia e à odontopediatria e dois colegas que colaboram na área da reabilitação oral, nomeadamente prótese fixa, cirurgia oral e implantes”, explica.
Valorização do esforço
Uma equipa multidisciplinar é sinónimo de tratamentos multidisciplinares. Um ‘mal’ necessário, visto que “as pessoas não vêm só substituir um dente ou só colocar um aparelho, no fundo têm já consciência de que será necessário fazer um conjunto de tratamentos, que abrangem várias áreas da medicina dentária para atingir um resultado global satisfatório”. Esta postura do paciente deve-se, em parte, à informação disponível: “as pessoas estão mais informadas e exigentes, assim como mais expectantes, e às vezes conseguem o sorriso que nunca tiveram. Para nós isto é motivador e leva-nos a procurar a perfeição”.
E tratamentos realizados com mestria e qualidade são uma forma de diferenciação. Esta excelência só é conseguida “quando se investe ao nível de materiais, tecnologias e formação”. E é verdade que “só conseguimos recolher os louros desse investimento a médio/longo prazo”. Carla Piteira acredita que, como as pessoas estão cada vez mais exigentes, conseguem dar o valor a este esforço por parte dos médicos dentistas e das clínicas dentárias.
Além de se dedicar à parte clínica, Carla Piteira também se responsabiliza pela gestão da Smile LX. “Os médicos dentistas, como profissionais liberais que são, sendo ou não empresários têm de administrar as suas contas, pois não têm uma entidade empregadora que o faça por eles”. No caso da médica dentista, tratar da gestão da clínica já é algo ‘natural’, ou seja, “já estou habituada e gosto de o fazer”, sendo que aprendeu a lidar com estas questões no terreno. “Quem quer ter uma clínica ou vai ganhando conhecimentos de gestão ou tem de ter uma pessoa a geri-la”, diz Carla Piteira, que acredita que se houvesse uma cadeira relacionada com gestão nos cursos de medicina dentária poderia ajudar. Contudo “nem todas as pessoas querem ter clínicas” e por outro lado “há uma série de conhecimentos que só quando começamos a trabalhar é que nos apercebemos, por exemplo com o contabilista”. Ou seja, “é no dia-a-dia que aprendemos a gerir e a fazer contas”.
E se sempre foi importante fazer contas, hoje em dia em tempos de crise é mesmo uma questão de sobrevivência. “Senti o efeito da crise na Smile Lx, assim como em todas as clínicas onde trabalho”, afirma Carla Piteira, explicando que algumas das dificuldades que assolam as clínicas dentárias estão relacionadas com “a carga fiscal elevada”. Porém, aquilo que se passa nas clínicas dentárias reflete a situação do país: “no geral, Portugal está a ressentir-se com a crise e nós, clínicas, oferecemos serviços que as pessoas não conseguem usufruir se não tiverem poder de compra”.
Artigo publicado na edição de novembro/dezembro de 2014 da revista SAÚDE ORAL

