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Entrevista

António Faria Gomes: “As pessoas que estão em medicina dentária, se forem inteligentes, têm de optar pela diferenciação”

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António Faria Gomes foi o grande vencedor da noite de entrega de Prémios Saúde Oral 2014, ao ser distinguido com o Prémio Especial Carreira. Em entrevista, o implantologista contou-nos um pouco do seu percurso profissional, da família, da sua visão sobre o atual estado do ensino e da profissão de médico dentista. Perguntamos-lhe se alguma vez sonhou ser outra coisa. Bombeiro, polícia, astronauta. Engenheiro foi a resposta. Mas os tempos eram outros. E, nessa altura, o padrinho resolveu de forma bastante simples tamanho atrevimento: “Deixa-te de coisas homem, vai-te matricular em medicina e cala-te”. E António Faria Gomes foi. E não podia ter corrido melhor.

O seu filho também enveredou por esta profissão. Há ainda mais seguidores na família?

Há! Já tenho uma segunda sobrinha e agora uma neta. Somos já dois estomatologistas e duas médicas dentistas.

Fica contente com isso?

Fico, claro. Estive na base da criação da medicina dentária. Foi aqui em Aveiro que ela nasceu. Aliás, a primeira assembleia-geral foi aqui feita. Na altura pensávamos na criação do ensino estomatológico, mas logo a seguir a (na altura) CEE não permitiu. No meu entender mal. Estávamos em finais de 1974. Eu e um grupo de outros colegas lutávamos por um ensino organizado.

E acabaram por conseguir…

Sim, oficialmente a Faculdade do Porto foi a primeira a ser fundada. Em módulos pré-fabricados no início. No ano seguinte foi Lisboa.

Mas Coimbra também queria.

Claro! E eu, o professor Maló de Abreu, o Branquinho estivemos na sua criação.

“Hoje não faço nada do que fazia na altura. Mudou tudo. Há princípios que se mantêm, que são estáveis, mas a grande maioria mudou.”

Seguir esta profissão estava-lhe no sangue? O seu pai já era dentista…

O meu pai era daqueles profissionais antigos, não tinha curso nenhum, era um prático. Mas tinha uma habilidade absolutamente extraordinária. A sua preparação científica admito que não fosse muito avançada, mas de qualquer das formas eu ainda tenho sete ou oito volumes da escola de odontologia do Brasil, que era os seus manuais. Era por onde o meu pai seguia.

Ajudava o seu pai?

Desde os 12 anos que comecei a ir para o consultório dele. Andava sempre por ali. E comecei a fazer uns “consertos”, comecei a fazer uma plaquita com um dente… Era um homem extraordinário. Para a fundição era preciso ouro e ele, como economicamente as coisas não lhe corriam bem, derreteu a aliança de casamento para treinar na fundição do ouro. Veja o que é o sacrifício que uma pessoa faz. Na altura tinha de ser.

Que grandes diferenças vê na prática de hoje e quando começou?

Hoje não faço nada do que fazia na altura. Mudou tudo. Há princípios que se mantêm, que são estáveis, mas a grande maioria mudou. Digo muitas vezes, a brincar com pessoas amigas, que o meu pai cá viesse agora trabalhar… morria!

Mudou para melhor.

Claro, para melhor. Até porque antigamente, mesmo dentro da estomatologia, a maior parte dos profissionais eram colegas que não tinham muito carinho pela especialidade, que é uma coisa que ainda hoje tenho e a minha mulher fica chateada comigo. O meu primeiro amor sempre foi a estomatologia, o segundo a minha mulher e o terceiro os meus filhos. Bem… hoje já não é muito mau quando a mulher é o segundo amor!

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António Faria Gomes

Medicina dentária é demasiadas vezes uma opção para quem não conseguiu ir para medicina?

É… claro que há quem genuinamente queira abraçar esta profissão, obviamente. Mas sim, é verdade. Não vale a pena lutar contra isso. E hoje ainda pior. Ainda no outro dia mostrei a uns colegas de Aveiro uma intervenção que fiz em Lisboa em 1987 em que eu dizia que “no Egipto, no século V, a arte dentária era entregue aos escravos. E em Portugal? Caminhamos abertamente para isso, com a entrada cada vez de cada vez mais profissionais sem que ninguém tenha mão nisto”. Isto em 1987. Imagine isto hoje, 27 anos depois. Estão simplesmente a lançar pessoas para o desemprego.

Portugal tem, no seu entender, um excedente claro de profissionais esta área?

Claramente, disso não há qualquer dúvida. Repare, o meu filho fez a diferenciação em ortodôncia na Noruega. Nessa altura, a Noruega tinha mais ou menos 4,5 milhões de habitantes e havia uma escola generalista em Oslo. E uma escola para diferenciações em Bergen. Duas escolas! Nós temos cerca de 10 milhões de habitantes e temos sete ou oito escolas de formação… não pode ser!

“Vejo que a parte clínica foi prejudicada… E por isso hoje as pessoas que estão em medicina dentária, se forem inteligentes, têm de optar pela diferenciação.”

Se tivesse poderes para resolver esta questão encerrava já as escolas?

Não. Porque eu não posso lutar com o privado. O privado tem direito a existir. Mas reduzia drasticamente o acesso às escolas.

Mas como?

Impunha por decreto! Não pode ser de outra maneira. Eu não posso colocar mais profissionais no mercado de trabalho do que o necessário. Não posso! Ainda há dois anos tive uma profissional a fazer estágio. E a determinada altura ela disse-me que tinha a oportunidade ir para a Suécia. Eu perguntei-lhe logo o que é que ela ainda cá estava a fazer! Futuro só tem quem já tem alguma ajuda, algum profissional na família ou condições financeiras para montar um espaço. Agora, começar do zero? É muito complicado.

Foi um dos fundadores do curso de Medicina Dentária da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Como vê hoje o ensino, sobretudo no pós-Bolonha?

Vejo que a parte clínica foi prejudicada… E por isso hoje as pessoas que estão em medicina dentária, se forem inteligentes, têm de optar pela diferenciação. O professor Fernando Guerra, por exemplo, que é a pessoa que trabalha comigo e me ajuda nos implantes – e que quando eu sair daqui me seguirá – foi meu aluno e pediu-me para ir para a minha área. Trabalhou muito comigo e apanhou muito a parte médica. E faz falta, faz muita falta.

Isso preocupa-o, até porque tem família nesta área?

Olhe, a minha segunda sobrinha, que está aqui há três anos, só agora é que tem “alvará”. E a minha neta, quando vier, vai-lhe acontecer o mesmo. Farto-me de rir. Vêm com ideia e eu digo logo: “Está calada e faz o que te dizem”…

Ou seja, o curso não chega?

Em Coimbra, o último ano já é de estágio.

Lançou recentemente o livro Evolução da Arte Dentária. E já não é o primeiro livro que edita…

Sempre gostei de história. O primeiro foi sobre a Monarquia do Norte. Em Águeda, tenho a minha casa implantada no sítio onde terminaram as hostilidades no Combate das Barreiras. Tinha muitos elementos em minha posse pelo que resolvi escrever. Depois recolhi muito das pessoas mais velhas. O livro foi dedicado ao D. António Marcelino, Bispo de Aveiro, uma pessoa que muito estimava. Era meu doente e conversávamos muito. Dois ou três meses antes de ele morrer veio aqui e no final da consulta estava a dizer-lhe que tinha uns artigos sobre arte dentária e que pensava publicar no Correio do Vouga. Ele disse logo que eu tinha era de fazer um livro. Entretanto ele morreu achei que tinha mesmo de escrever o livro…

Quais são os momentos que mais destaca na sua carreira?

Mais do que momentos, são pessoas. Digo muitas vezes que tive quatro pilares na minha vida. O meu pai, o meu padrinho (que era médico em Tondela), doutor David Batista, que sempre admirei e o doutor António Vereda, médico que fez o seu curso no Porto, um amigo do coração e um conselheiro.

Hoje como gere o seu consultório, é muito diferente?

É muito simples, é igual a sempre, o complicado de gerir são mesmo as contas.

Na medicina dentária acabou por optar com implantologia…

Sabe há quantos anos é que eu ando atrás da implantologia? Desde 1969, ainda ninguém aqui falava disso. Alicante foi o primeiro sítio onde fui. Claro que fazia sempre a mesma pergunta: garantias? E a resposta ronda os 40%-50%. Eu achava que não servia. Um dia, em Madrid, um implantologista de alto gabarito dizia-me que os implantes apenas se podiam fazer em cidades que tenham pelo menos dois milhões de habitantes. Compreende-se porquê, os insucessos eram tão grandes que se diluíam… Só em 1990 é que comecei, quando foram lançados os implantes de titânio.

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António Faria Gomes

Isso realmente veio mudar a prática, não veio?

Sim, uma mudança radical. Na altura, os implantes ainda tinham uma quebra de insucesso na ordem dos 6% ou 8%, mas já permitia fazer. Eu fui o primeiro a fazê-lo no centro do país. Isto há 25 anos.

Foi o grande vencedor da noite de entrega de Prémios Saúde Oral 2014, ao ser distinguido com o Prémio Especial Carreira. É gratificante…

É, claro. Apesar de ser mau sinal! Sabe que também estive ligado ao futebol, ao Desportivo de Águeda. E eles iam festejar os 90 anos da agremiação e eu fui convidado porque já fui presidente da direção vivo!

Já está reformado da Universidade de Coimbra. Que planos tem?

Sim, de Coimbra já estou. Mas vou estar sempre ligado à clinica. Mas claro que abrandei. Até porque tenho uma filha que é professora catedrática em Coimbra em Endocrinologia e que se zanga comigo… Já reduzi bastante.

Mas é impossível desligar-se não é?

Sabe o que lhes digo? “Vocês querem que eu vá para casa aturar a minha mulher? Por amor de Deus, deixem-me em paz!”. Por mais que seja o meu segundo amor…

Teria sido outra coisa, que não médico dentista?

Hmmmm…

Nunca pensou em ser astronauta? Ou futebolista? Bombeiro?

… O meu pai, para a época, era um homem bastante evoluído. Aliás, repare que em 1940, se eu pedisse namoro a uma rapariga, a primeira pessoa a quem contava era ao meu pai. Quem é que nessa altura tinha a coragem de dizer ao pai que tinha pedido namoro a uma rapariga? O meu pai ria-se, dava-me os seus conselhos, de tal forma que um dia um diretor soube que eu namorava lá uma interna e chamou o meu pai para lhe dizer. E o meu pai disse que já sabia. Ele ficou todo escandalizado e não percebeu como é que o meu pai consentia isso. Mas o meu pai sabia que me tinha nas mãos e se me reprimisse perdia-me. E ele não queria isso. Isto em 1940. Era notável nessa altura.

Mas então nunca pensou sem bombeiro?

Certo dia, no sétimo ano, disse ao meu pai que gostava de ir para engenharia. Ele disse que eu é que sabia, mas o coração dele ficou desfeito. Ele desabafou com o meu padrinho, que veio ter comigo e disse: “Que patetice é essa de queres ir para engenharia? Deixa-te de coisas homem, vai-te matricular em medicina e cala-te”. Era assim. Um bocadinho diferente de hoje. E eu lá fui. Por acaso correu bem.

Fez bem o curso?

Não tive dificuldade. Cometi foi a asneira de me casar cedo, ainda estudava. No quarto ano havia um grupo de quatro disciplinas que se fazia exame na mesma altura. E eu não me aguentei nas quatro e chumbei, mas não tive dificuldades. Estudávamos muito. E não era em grupo! Tinha companheiros de estudo, mas cada um fazia os seus trabalhos. Agora nos trabalhos de grupo, um faz e os outros vêm fazer…

Artigo publicado na edição de julho/agosto de 2014 da SAÚDE ORAL

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