A Faculdade de Medicina Dentária está a comemorar 40 anos, uma data que coincide com a sua Aula de Jubilação. O que representa esta data, esta fase na sua vida?
Esta fase, quer os 40 anos da Faculdade, quer a minha Jubilação, pois estou há praticamente 40 anos na faculdade, representa um período que passou muito rápido, que foi preenchido com imensos acontecimentos na minha vida. Talvez possa dizer que foi um período de dedicação grande à faculdade e à medicina dentária durante todos estes anos. Os caminhos da minha vida cruzaram-se muitas vezes com os da Faculdade e a partir de determinada altura foi um caminho conjunto.
Lembra-se da altura em que inauguraram a faculdade? Como era o espirito?
Era diferente, já vinha de um desejo recalcado durante dezenas de anos. Em 1919, quando foi criada a Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária já esse grupo queria um ensino organizado da Estomatologia em Portugal. As primeiras faculdades na Europa datavam do princípio do séc. XX e Portugal começava a ter um atraso em relação ao ensino. Ainda chegou a estar preparado um decreto para criar uma disciplina de Estomatologia no Curso de Medicina, mas depois nada se fez.
A direção da SPEMD substituiu em muito a formação que era necessária, com programas de formação, cursos e organizava eventos anuais de forma a dar uma boa formação aos Estomatologistas existentes na época. Mas foram sempre acalentando esse desejo, tanto que depois do 25 de Abril esse grupo conseguiu levar a cabo o seu desejo com a abertura das faculdades em Lisboa, no Porto e mais tarde em Coimbra. Havia um desejo de realizar obra, de fazer coisas, de fazer bem feito, e essa preocupação de fazer bem feito hoje está a dar os seus frutos.
Sempre procurou estar ligado à Faculdade?
Sim, sempre fui muito amigo do Prof. Simões dos Santos, trabalhei com ele e fiz a especialidade em Estomatologia no Hospital de Santa Maria. Quando fui para a tropa, em 1973, consegui os adiamentos todos e queria entrar como médico especialista porque tinha vantagens. Foi o Prof. Simões dos Santos que me entusiasmou e quando estava a terminar o Serviço Militar, em1976, disse-me para concorrer à Faculdade como professor. Devo ter sido dos primeiros a entrar para a Faculdade como professor auxiliar convidado para a disciplina de Prótese Fixa 1, 2 e 3. A partir daí acompanhei sempre a Faculdade.
Gostava de dar aulas?
Sim, muito. No princípio estava muito nervoso, era uma coisa nova, mas que tinha muito gosto em fazer. Talvez por culpa dos genes, pois a minha mãe foi assistente da Faculdade de Ciências e o meu avô fundou o Colégio Castilho, em S. João da Madeira, tendo sido durante muitos anos professor de História e Francês. Sempre gostei e continuo a gostar de conversar dos alunos, de dar aulas. Gosto que os alunos participem, coloquem questões e conversem.
E aprendem de parte a parte?
É verdade. Acho que é um privilégio ter dado estas aulas durante estes anos na Faculdade. Sou obrigado a reformar-me, mas posso manter algumas funções mediante autorização do Ministro da Educação.
O que está a preparar para a sua Aula de Jubilação?
Assisti a muitas aulas de jubilação como vice-reitor e havia um padrão que penso que seja habitual, embora não seja obrigatório pois o jubilado fala do que quiser durante uma hora. Normalmente as pessoas falam da sua vida e da sua carreira, mas achei que havia um assunto que sempre me interessou e que as pessoas não sabem quase nada. Então talvez não fosse má ideia falar na história da medicina dentária, da história da velha arte dentária como lhe chamo. A partir daí começo a falar do homem primitivo, nas patologias que existiam e os primeiros tratamentos, que aparecem em 6500 AC, recordo de como se tiravam dentes na época de Hipócrates, quando apareceram os primeiros implantes, venho fazendo um caminho que penso demorar metade da aula até chegar à fundação da Faculdade.
Há uma fotografia que tenho e que gosto muito do primeiro curso, com os professores e os alunos à porta da faculdade. A partir daí falo do percurso da minha vida, que se cruza com o percurso da faculdade. Falo ainda da minha família e daquilo que fiz, da investigação que ajudei a criar na Faculdade e que foi um passo de gigante que se deu com a criação do Instituto de Tecnologia Biomédico e que hoje em dia se chama Unidade de Investigação em Ciências Orais e Biomédicas. Foi uma parceria muito importante na época. Fui acompanhando esse percurso, fui diretor da Faculdade entre 2001 a 2009, depois surgiu o convite para a Reitoria. Uma das coisas que me posso gabar na vida é ter aprendido muito por onde passei. Tudo tem as suas lições, sempre fiz questão de ser muito atento a tudo o que se estava a passar ao meu redor.
Está preparado para passar de uma agenda tão preenchida para uma agenda um pouco menos preenchida?
Quem está preocupada é a minha mulher (risos). Acho que também é importante ter tempo para nós e eu não tenho tido. Sobretudo para os nossos (mulher, filhos, netos). Acho que perdi bastante da evolução dos filhos e passados todos estes anos não me recordo bem do desenvolvimento e do crescimento deles. Estes 40 anos voaram e às vezes há situações que recordo, como a da fotografia do primeiro curso, que parece que foi a semana passada. O tempo passa muito rapidamente.
O que ficou por fazer?
Em todos os domínios que estive envolvido procurei fazer o máximo, mas por vezes planeamos as coisas e depois não conseguimos fazer por uma série de circunstâncias. Acho que consegui fazer bastantes coisas e algumas delas vou falar na aula de jubilação, outras não foi possível completar, mas saio muito tranquilo da Faculdade. A casa está muito bem entregue, sinto-me muito tranquilo e feliz por a casa estar tão bem entregue.
Hoje em dia há um claro excesso de alunos nos cursos de medicina dentária. Como vê esta situação?
Quando era diretor da Faculdade reduzi os números clausus de 60 para 50. Não é significativo, mas fiquei um pouco frustrado porque outras faculdades aumentaram de 60 ou 70 para 100. Fiquei a pensar que não vale a pena, que é uma luta inglória. Estávamos em 2001 e eu já estava preocupado, pois era previsível que viesse a acontecer. Hoje em dia temos um excesso de alunos e profissionais que leva a que muitos partam para o estrangeiro. O que tem defeitos pois os profissionais têm de sair do país, mas tem a vantagem de demonstrar lá fora que a medicina dentária portuguesa é muito boa. Dá prestígio aos médicos dentistas e às faculdades onde se formaram.
Por outro lado estamos a gastar recursos na formação desses alunos, que depois saem do país. Como podemos lidar com o problema a breve ou longo prazo?
É complicado. Uma das soluções passa por haver uma carreira hospitalar, os dentistas serem inseridos no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e porque as necessidades estão de norte a sul do país. A medicina dentária está a ser exercida em exclusivo no regime privado, seria uma forma de resolver a situação.
Porque tem sido tão difícil esta inserção no SNS?
Não sei, confesso que não sei. Já falei algumas vezes com o Diretor-Geral de Saúde, mas não sei qual é a razão. Talvez um dia se venha a resolver, o Bastonário está muito esperançado que esta situação se possa resolver. Há que pensar em reduzir um pouco a formação e aumentar o número de pós-graduações. É o que a faculdade está a procurar fazer, não vai reduzir para já, mas no futuro poderá vir a fazer.







