«A arbitragem não é muito diferente da medicina dentária», assegura André Moreira, que justifica com o facto de «em nenhuma das funções o erro é admissível», embora conceda que na medicina as consequências do erro possam ser mais graves. Licenciado há dois anos pela Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, onde também tirou um Mestrado, André Moreira, de 27 anos, exerce em exclusivo no Instituto de Implantologia, em Lisboa.
Licenciado com 16 valores e com uma nota final de 19 valores no Mestrado, o jovem médico dentista tem a oportunidade de trabalhar com o especialista em implantes e cirurgia oral Prof. Doutor João Caramês, naquela que considera «uma das melhores clínicas do país», onde se dedica à dentisteria e prostodontia fixa, casos complexos em que se tem que fazer reabilitação global e não tratamentos isolados aos dentes. «É mais exigente porque temos que pensar na estética e função como um todo», esclarece.
Ainda na Faculdade, André Moreira tira um curso de Árbitro de Futebol 11. «Foi por curiosidade. Comecei a tirar o curso na Federação Portuguesa de Futebol com um colega meu da altura. Entretanto fui subindo de categoria e ainda me mantenho», elucida André Moreira para acrescentar que «costuma dizer-se que se vai para árbitro porque não se sabe jogar futebol. No meu caso sempre gostei muito de futebol e sempre joguei. Sempre fiz muito desporto», diz.
No futebol, a figura do árbitro está prevista nas leis do jogo. Cada partida é dirigida por um árbitro, o qual tem autoridade total para fazer cumprir as regras do jogo para o qual foi designado. O árbitro trabalhará em cooperação com os dois árbitros assistentes e um quarto árbitro.
André Moreira conta com a sua equipa fixa de arbitragem. «Tenho uma equipa de três árbitros assistentes que vão rodando para eu poder contar sempre com dois. Acompanham-me sempre para todos os jogos. São pessoas que conheço bem, o que permite que, muitas vezes, baste um olhar para eu perceber o que me querem transmitir», afiança.
Diagnóstico
Segundo as regras, as decisões do árbitro sobre factos em relação ao jogo são definitivas. O árbitro poderá modificar sua decisão unicamente quando percebe que é incorrecta ou, se o julga necessário, conforme uma indicação por parte de um árbitro assistente, sempre que ainda não tenha reiniciado ou terminado a partida. «Os árbitros reconhecem erros por vezes, agora as pessoas pensarem que os erros são feitos propositadamente com o intuito de beneficiar uma equipa não faz qualquer sentido», afirma André Moreira, para admitir que estando no meio e conhecendo as pessoas, «reconhece os erros graves com influência no resultado».
A quem lhe pergunta como é que certos erros de arbitragem são possíveis, André Moreira costuma retorquir quantas vezes se teve que ver na televisão, em repetição e em diferentes ângulos, para chegarem a essa conclusão. «O árbitro tem que decidir ao segundo. Dentro de campo não tenho dúvidas. Se marco é porque vi e tenho a certeza. Não há meios-termos», garante André Moreira, seguro dos poderes e deveres de um árbitro.
Certo é que, em Portugal, discute-se muito a arbitragem e nem tanto o futebol. «Fala-se muito dos árbitros e desrespeitam-se. Muito dos comentários não fazem qualquer sentido. É uma realidade muito diferente da de outros países. Em Inglaterra, por exemplo, os árbitros são respeitados. Em Portugal são o elo mais fraco. Quando se perde é o árbitro, não é o avançado que falhou um golo de baliza aberta, ou o guarda-redes que sofreu um golo caricato», lamenta.
Com efeito, a arbitragem terá bons e maus profissionais e, como em todas as outras áreas, haverá pessoas mais competentes e outras menos abalizadas. André Moreira avança mesmo que «os árbitros portugueses são dos melhores que existem na Europa. Olegário Benquerença, Pedro Proença e Duarte Gomes são árbitros internacionais e respeitados lá fora», destaca.
O processo “Apito Dourado”, alegada corrupção e tráfico de influências no futebol profissional e na arbitragem portuguesa, teve repercussões ao nível da presença de árbitros portugueses nas finais das provas internacionais, concede André Moreira, «é um prestígio que tem que ser recuperado», afirma o médico dentista.
Exame
Na reabilitação oral é possível restabelecer e manter a função oral, recuperar a harmonia e beleza facial e rejuvenescer a aparência, através da tecnologia das próteses dentárias, removíveis ou fixas, podendo ser suportadas por dentes ou por implantes osteo-integrados.
A tecnologia pode também estar ao serviço da arbitragem, embora aqui as opiniões sejam mais divergentes. André Moreira não tem dúvidas de que os meios tecnológicos auxiliares são úteis e defensáveis. «Depende da tecnologia, mas sou a favor de tudo o que facilite a actividade do árbitro e auxilie a sua capacidade de decisão de forma a evitar ter que assumir erros». Para o médico dentista «não faz sentido, com um grau tão grande de profissionalismo que existe no futebol, ser o árbitro o único elemento que não tem qualquer tipo de meio tecnológico que o auxilie a tomar decisões». O único meio auxiliar dos árbitros são os “bip” um receptor no braço com emissores nas bandeirolas dos árbitros auxiliares, o que permite comunicar através de sinais sonoros e vibratórios.
Os árbitros de futebol têm, em todos os jogos, um observador fora de campo que dá notas que influenciam a classificação final da época, decisiva para ascenderem de categoria. «Sou avaliado em todos o jogos e tenho feedback do meu trabalho. Quando acabo um jogo, o mais importante para mim é saber que fiz o melhor e sair com consciência que dei o meu melhor para não errar. Depois do jogo, posso analisar que podia ou devia, pontualmente, ter feito diferente ou admitir que errei». Os árbitros reconhecem erros por vezes, «agora as pessoas pensaram que os erros são propositados com o intuito de beneficiar uma equipa não faz qualquer sentido», adianta André Moreira para admitir que o facto de ser adepto do Sport Lisboa e Benfica, não o obriga a esconder a sua simpatia nem o restringe. «Tenho feito jogos, nos escalões mais baixos, em que este clube joga e isso não me influencia minimamente dentro de campo», defende.
Já a remuneração é uma questão menor para André Moreira. «Nos jogos distritais estamos a falar de valores de 40 ou 50 euros», quantias que vão sendo superiores nas categorias superiores, uma vez que dependem de distâncias e escalões.
Molde
O Instituto de Implantologia onde André Moreira exerce dispõe de um protocolo com a New York University, que lhe possibilita, periodicamente, ir aos Estados Unidos da América ou receber responsáveis para administrar cursos. «Estamos constantemente a ser actualizados nesta áreas, o que se deve ao Prof. Doutor João Caramês ser o representante em Portugal do programa de educação contínua da New York University, que faculta intercâmbios de conhecimentos».
Também como árbitro, André Moreira tem uma aprendizagem permanente e uma preparação constante. «Ser árbitro envolve muita coisa, não é só chegar ao fim-de-semana e fazer um jogo». O médico dentista treina diariamente no Estádio Universitário de Lisboa e em ginásio.
A rotina diária de André Moreira inicia-se com o trabalho na clínica, por volta das nove horas. Às seis da tarde sai do Instituto de Implantologia para ir treinar e ter reuniões de árbitros para aperfeiçoamento. «Chego a casa quase à meia-noite. É quase não ter vida própria», constata.
Ao fim-de-semana a escassez de tempo é semelhante. «Os jogos são ao sábado ou domingo, não só do distrito de Lisboa mas também fora. Muitas vezes é mais do que um jogo por fim-de-semana. Torna-se complicado de gerir», admite.
A condição física de um árbitro é semelhante e, em alguns casos, bastante superior à de um futebolista. Há estudos recentes que demonstram que um árbitro corre uma média de oito a nove quilómetros por jogo. «São 90 minutos em que o árbitro tem que percorrer o campo todo. Treino diariamente para me manter em forma e para conseguir estar a esse nível», garante o especialista em reabilitação oral. «Tenho que me equipar para ambas as funções e ter um determinado tipo de preparação. Chego a um campo de futebol uma hora e meia antes do jogo para me equipar e preparar psicologicamente e fisicamente o que é em tudo semelhante à medicina dentária que exige igual nível de concentração», elucida.
Atraumático
O mediatismo do futebol faz com que os árbitros estejam permanentemente em debate nos média e isso repete-se e reflecte-se nos escalões mais baixos. «Quando há polémica com um árbitro da primeira categoria, acontece no fim-de-semana seguinte tratarem-me pelo nome desse árbitro. O que até pode ter alguma piada», relata André Moreira, sem dramatizar. «Já tive situações mais delicadas que se resolveram. Há sempre público que protesta e dirigentes que nos dirigem palavras menos agradáveis, mas são situações que se ultrapassaram facilmente». Em contrapartida, já aconteceu, durante jogos arbitrados por André Moreira, registarem-se traumatismos na região inferior da face de jogadores e fracturas dentárias. «Sucedem traumatismos na região facial, na minha área de conhecimento. Mas nunca foi necessário eu assistir um jogador», revela.
Por sua vez, André Moreira nunca teve qualquer tipo de lesão bocal decorrente do exercício da arbitragem. «Os apitos são de plástico. São especiais por terem uma protecção para os dentes, o que é mais que justificado»
Panorâmica
Com muito agrado, André Moreira regista a boa saúde oral nos seus colegas árbitros. Também os seus colegas médicos dentistas mais próximos sabem que é árbitro de futebol. «Acham piada e de vez em quando vão ver alguns jogos meus». Mais genericamente, o árbitro de futebol avalia a saúde oral dos portugueses não como aquela que os médicos dentistas desejariam, embora reconheça que «tem evoluído muito. Nomeadamente com alguns programas da nossa Ordem, como os cheques-dentista, integrado no Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral. Estamos a fazer alguns progressos, mas ainda não temos uma situação ideal».
À semelhança da sua opinião positiva sobre a arbitragem em Portugal, também em relação à medicina dentária desenvolvida em Portugal, André Moreira constata «um nível bastante elevado. Fazemos um bom trabalho. Não há cartões amarelos a mostrar».
Na arbitragem e na medicina dentária André Moreira sente-se equipado para progredir em ambos os campos. «Em tudo o que faço sou profissional e exijo muito de mim próprio. Gosto sempre de ir evoluindo. Na arbitragem de futebol quero trabalhar cada vez mais para conseguir ascender e chegar a categorias superiores. Mas faço isto muito por gozo e prazer em arbitrar um jogo ao fim-de-semana». Também na especialidade da reabilitação oral, o árbitro está «plenamente satisfeito e quer continuar a evoluir». São desafios a serem vencidos.


