O especialista em cardiologia no Hospital Fernando da Fonseca, na Amadora, – onde é responsável pela Unidade de Pacing e Arritmologia do Serviço de Cardiologia – adianta que, de um modo geral, as arritmias«são muito frequentes, sobretudo as formas mais benignas».
Mas, afinal, o que é uma arritmia cardíaca? Carlos Morais responde que são «perturbações do ritmo cardíaco». Se este for demasiado lento (inferior a 50/60 batimentos por minuto), está-se perante uma bradicardia. Se por outro lado, o coração bater de forma muito rápida (mais de 100 batimentos por minuto), é uma taquicardia. Quando existe um impedimento à normal progressão dos estímulos cardíacos dentro do coração estamos em presença de um bloqueio que em certas situações pode levar à falta de um ou mais batimentos cardíacos.
A fibrilhação auricular é a arritmia cardíaca mais frequente e caracteriza-se por ser um batimento irregular nas aurículas, estando «ligada à ocorrência do acidente vascular cerebral (AVC)», salienta o especialista, acrescentando que «ocorre em cerca de 10% a 20% doentes com mais de 70 anos».
As pessoas com fibrilhação auricular têm um batimento das aurículas várias vezes superior ao do resto do coração, o que leva a uma corrente sanguínea irregular e à formação ocasional de coágulos sanguíneos, que podem viajar até ao cérebro.
Não obstante, as arritmias também podem afectar os ventrículos. A fibrilhação ventricular é uma situação patológica caracterizada no ECG por um traçado irregular, de amplitude variada e ondas grosseiras.
Neste caso, o prognóstico é muito mais grave do que na fibrilhação auricular, já que a contracção dos ventrículos é ineficaz levando à morte em poucos segundos se não for rapidamente corrigida. É responsável por 90% das paragens cardio-respiratórias em ambiente extra-hospitalar.
Até nos corações saudáveis
De acordo com Carlos Morais, as causas das arritmias cardíacas «são múltiplas». Fumar, stress, bebidas alcoólicas, vida sedentária, drogas, toma incorrecta de alguns medicamentos e excesso de cafeína podem causar arritmias em algumas pessoas.
No fundo, «podem aparecer em corações saudáveis, mas mais frequentemente estão associadas a outras doenças cardiovasculares, como a hipertensão, a doença coronária, a insuficiência cardíaca, miocardiopatias», explica o cardiologista.
As arritmias são caracterizadas pelo pluralismo de causas, das próprias arritmias e até das manifestações. Segundo Carlos Morais, estas «são muito variáveis». E vão desde «simples percepção de “falhas” ou de “batimentos anómalos”, palpitações», até a «tonturas, perda de conhecimento súbita (síncope), dor precordial, dispneia e cansaço extremo». Mas também morte súbita. Aliás, esta é, «sem dúvida, a forma de manifestação mais grave».
Maior incidência no homem
As arritmias mais sérias surgem com mais frequência nos adultos a partir dos 60 anos. Isto porque são especialmente afectados por uma série de doenças cardiovasculares e até por outras patologias que são propícias ao aparecimento de arritmias.
Não são exclusivas do homem, nem da mulher, pois «aparecem em ambos os sexos». Todavia, a sua incidência, «visto estar muito relacionada com a presença de doença coronária, HTA, etc., é ligeiramente superior no sexo masculino nos grupos mais idosos», refere o coordenador.
O diagnóstico
Carlos Morais explica que o diagnóstico se baseia essencialmente «nos dados obtidos a partir da consulta médica», o que inclui «a história clínica, o exame físico e a demonstração da arritmia em registo eléctrico do ritmo cardíaco». Contudo, o especialista chama a atenção para a frequência da natureza episódica e transitória das arritmias, o que obriga ao «recurso a outros exames: Holter de 24 horas, teste de Tilt, estudo electrofisiológico, etc.». Para além disto, ressalva que exames como «a ecocardiografia, análises laboratoriais a coronariografia podem também ser fundamentais para o diagnóstico e terapêutica das arritmias».
Depois de diagnosticada é preciso tratar, sendo que «os maiores progressos no tratamento das arritmias cardíacas tem sido o desenvolvimento de procedimentos invasivos nomeadamente a ablacção de arritmias por cateter ou a implantação de dispositivos como sejam os pacemaker e os cardioversores desfibrilhadores (CDI)». O cardiologista sublinha que os resultados «atingidos com estas terapêuticas têm demonstrado grande superioridade em relação à terapêutica farmacológica», que se destina principalmente à correcção e controlo das doenças cardiovasculares habitualmente associadas a arritmias cardíacas, como o colesterol, pressão arterial, ou isquemia miocárdica, entre outras.
No mesmo sentido devem ser feitos todos os esforços para promover uma vida saudável, onde prevaleça uma alimentação equilibrada, a ausência de tabaco, a prática de exercício físico regular, o controlo do peso e se evite a ingestão excessiva de álcool ou cafeína.
O pacemaker é implantado para ajudar o coração a manter um ritmo regular. O sistema é constituído por um gerador de impulsos (pacemaker) cardíaco e por um ou dois fios flexíveis e finos (conhecidos como electrocateteres) que ligam o aparelho ao coração.
O pacemaker regista continuamente informações sobre o ritmo cardíaco, verificando em particular se o coração está a bater de forma regular ou demasiado lenta. Se estivermos perante a última hipótese, o aparelho emite pequenos estímulos eléctricos, transmitidos ao coração através dos eléctrocateteres, e que fazem com que o órgão se contraia com a frequência mais adequada.
É necessária uma pequena cirurgia para a colocação do dispositivo, normalmente recorrendo somente a anestesia local. Através de uma pequena incisão na pele, abaixo da clavícula, o médico introduz cuidadosamente o electrocateter no coração, através de uma veia. O procedimento é controlado através de raios X. Depois de avaliar a melhor localização, a ponta do electrocateter é fixada na parede do coração. Segue-se o mesmo procedimento para um segundo electrocateter se necessário. Os electrocateteres são então ligados ao pacemaker e fixados. Finalmente, é formada uma pequena bolsa debaixo da pele na área do músculo peitoral para alojar o aparelho, sendo esta fechada com uma sutura.
O CDI é semelhante a um pacemaker cardíaco. O sistema é igualmente constituído por dois componentes: o gerador de impulsos e os electrocateteres. Não obstante, os CDI são ainda capazes, ao contrário do pacemaker, de tratar adequadamente as arritmias cardíacas rápidas, particularmente a fibrilhação ventricular sendo a única terapêutica verdadeiramente eficaz para evitar a morte súbita em grupos específicos de doentes com risco elevado de ter este tipo de arritmias.
O gerador de impulsos existente nos dias de hoje é um dispositivo muito pequeno e que funciona como um sofisticado computador. Ao longo do dia, vai recolhendo informação sobre o ritmo cardíaco a partir dos eletrocateteres inseridos no coração. Mais especificamente, avalia se os batimentos são demasiado rápidos ou lentos e se o coração bate com regularidade ou não. No caso de haver desvios da normalidade, estes são registados na forma de um electrograma. Estes dados contêm informação valiosa para o médico e podem ser lidos com a ajuda do dispositivo programável, que permite ao médico reprogramar o CDI em caso de necessidade.
Em certo tipo de arritmias o CDI começa por emitir pequenas séries de impulsos de estimulação ao coração. Esta estimulação interrompe os episódios de taquicardia em mais de 90% dos casos. Os impulsos não provocam dor e a maioria dos doentes nem sequer os sente.
Caso não consiga fazer parar a taquicardia com estimulação repetida, o CDI emite um impulso eléctrico intenso, designado choque eléctrico. Este choque eléctrico está associado, tanto quanto possível, ao ritmo cardíaco, e designa-se cardioversão.
Na ocorrência de fibrilhação ventricular, o CDI consegue detectar rapidamente o início desta arritmia e em poucos segundos aplicar um ou mais choques não sincronizados (desfibrilhação) com vista a retomar o ritmo cardíaco normal.
Apesar destas situações, Carlos Morais adianta que, de um modo geral, pode dizer-se que «os doentes portadores de pacemaker ou CDI, na ausência de limitações inerentes à cardiopatia subjacente ou outros problemas clínicos existentes, têm uma vida normal com plena integração familiar, social e profissional».
Conselho ao médico dentista
Para o cardiologista, o mais relevante na prática diária do médico dentista é «estar atento ao facto da maior parte dos doentes portadores de fibrilhação auricular estar a fazer prevenção do AVC tomando hipocoagulantes cronicamente». Ora, de acordo com Carlos Morais, «esta situação obriga a cuidados específicos na realização de procedimentos com risco hemorrágico como seja a extracção dentária». Nestas situações, o especialista alerta que «o doente terá de suspender com antecedência a medicação hipocoagulante em curso (geralmente cerca de 5 dias antes da extracção), sendo que situações de maior risco embólico poderão obrigar a instituição transitória de hipocoagulação com enoxiparina ou heparina injectáveis no período peri procedimento».