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Asma: Doença afecta uma população equivalente a três Penínsulas Ibéricas

A asma é uma doença inflamatória crónica das vias aéreas que, em indivíduos susceptíveis, origina episódios recorrentes de pieira, dispneia (dificuldade na respiração), aperto torácico e tosse, particularmente nocturna ou no início da manhã. Estes sintomas estão geralmente associados a uma obstrução generalizada, mas variável, das vias aéreas, a qual é reversível espontaneamente ou através de tratamento. 

Constitui um importante problema de saúde pública, pois trata-se de uma das patologias mais frequentes na criança e no jovem; segundo o Programa Nacional do Controlo da Asma, da responsabilidade da Direcção-Geral da Saúde (DGS), baseado no Programa Mundial para a Asma – Global Initiative for Asthma, coordenado pela OMS e que contou com a participação de mais de 100 países, entre eles, Portugal.

Com tendência de crescimento da sua incidência e prevalência, esta doença respiratória é frequentemente responsável por internamentos hospitalares e, também, pelo sofrimento a vários níveis, por vezes diária e repetidamente, extensivo às famílias e grupos de pertença do asmático. Acarreta condicionamentos à sua actividade normal e, portanto, à qualidade de vida do doente. Para um asmático, as coisas simples da vida (mas há outras?) como rir, correr, acelerar o passo ou o que quer que seja, pode ser realmente penoso, uma vez que acicatam a sintomatologia da patologia, obrigando o doente a recorrer ao inseparável inalador (uma bomba que tem o efeito de dilatar os brônquios).

Não há países imunes. A asma é, a nível mundial, uma das doenças crónicas mais frequentes e afecta, segundo as estimativas da OMS, 150 milhões de pessoas em todo o globo. Embora não escolha países específicos para “atacar”, é sabido que há um crescimento da incidência e prevalência da patologia entre 20 e 50%, por década, nos países desenvolvidos, ultrapassando largamente, em certos países, esta cifra. Os números não são para brincar. Todos os anos, diz a OMS, morrem cerca de 100 mil pessoas por complicações cardio-respiratórias provocadas pela asma.

Em Portugal, sustenta a Associação Portuguesa de Asmáticos (APA), estima-se que haja entre 600 mil e 1 milhão de pessoas que sofram de asma. Para além da magnitude do problema, sob o ponto de vista clínico, a asma determina, num número muito significativo de doentes, sofrimento a vários níveis (físico, psíquico e social), por vezes diário e repetido, extensivo às envolventes familiar, laboral e social, inserindo condicionamentos à sua actividade normal, que poderão induzir uma deterioração progressiva da sua qualidade de vida e do seu bem-estar.

Em época de crise mundial, importará referir um outro aspecto: os enormes encargos pessoais e sociais causados pela asma, pelo que o absentismo escolar e laboral não podem ser negligenciados. De facto, as contas dos sistemas de saúde agradecem, e são de incentivar todas as medidas, não apenas por parte dos profissionais de saúde mas, também, dos pacientes e suas famílias, que ao permitirem um melhor controlo da doença, promovem a obtenção de “ganhos substanciais” na saúde, segundo a DGS.

Sintomas e diagnóstico

Suspeita-se de asma em presença de um dos seguintes sinais ou sintomas: tosse com predomínio nocturno, pieira recorrente, dificuldade respiratória recorrente e aperto torácico recorrente. Por outro lado, eczema, rinite alérgica, história familiar de asma ou de doença atópica estão frequentemente associados à asma. Uma observação torácica normal não exclui a hipótese de asma. De facto, os sintomas de asma podem ocorrer ou agravar-se em presença de: exercício físico; infecção viral; animais com pêlo; penas de pássaros; exposição prolongada aos ácaros do pó doméstico (existentes principalmente em colchões, almofadas e carpetes); fumo, principalmente de tabaco e lenha; pólen, sobretudo na Primavera; alterações de temperatura do ar; emoções fortes, principalmente quando desencadeiam o riso ou choro; produtos químicos inaláveis; fármacos, principalmente ácido acetilsalicílico e beta-bloqueantes.

O diagnóstico da asma não é dos mais fáceis de efectuar, dado que há vários factores que poderão indiciar a presença da patologia. Nesse sentido, o diagnóstico tem por base a história clínica – para determinar a presença de sintomas e as suas características, relacionados com exposições a factores de agressão; o exame específico – para determinar sinais de obstrução brônquica, embora um exame normal possa possibilitar o diagnóstico; uma avaliação funcional respiratória – para comprovação de obstrução brônquica, da presença de hiperreactividade brônquica e de limitação variável do fluxo aéreo; e a avaliação de atopia.

Controlar a asma

Para melhor controlo da asma, que é possível, é indispensável perceber os sintomas, cumprir a medicação e manter o contacto regular com o médico.

Por ocasião do lançamento de uma campanha de sensibilização sobre a patologia, a presidente da APA, Marianela Vaz, explicou que a iniciativa (organizada na Primavera porque a libertação do pólen pode conduzir a doenças alérgicas, nomeadamente rinite e asma) pretendera sensibilizar os doentes – e sobretudo aqueles que não estão diagnosticados, ou seja, não sabem que são asmáticos – sobre as várias caras da doença.

«Aconselha-se as pessoas com algum tipo de sintoma a consultarem o médico. Se são alérgicos devem saber a causa da alergia», alertou a presidente da APA.

Com já foi referido, entre os sintomas típicos mais facilmente identificáveis contam-se pieira, tosse (sobretudo nocturna), falta de ar e pressão no tórax. Esta incapacidade respiratória é provocada pelo estreitamento das vias aéreas, podendo, nos casos mais graves, provocar a morte.

«Parte significativa do sucesso clínico na asma é determinado pela forma como o doente compreende e adere ao esquema terapêutico», explica Marianela Vaz. Para isso «é fundamental que os doentes asmáticos saibam que têm uma doença inflamatória crónica dos brônquios e que têm necessidade de fazer medicação preventiva a longo prazo, mesmo quando se sentem bem. Os tratamentos não podem ser interrompidos e a medicação tem que ser tomada de acordo com a prescrição médica», acrescentou.

Segundo dados disponibilizados pela APA, «as doenças respiratórias em Portugal foram responsáveis, em 2007, por 93.275 internamentos hospitalares, o que significou um aumento de 8,3% em relação a 2005. A mortalidade nesses doentes foi de 14,1% – perto de 14 mil pessoas.

Na opinião da mesma responsável, calcula-se que ainda existam muitos asmáticos que não estão diagnosticados: «face a crises ocasionais, limitam-se a recorrer a serviços de urgência e não consultam um médico, não recebendo tratamento adequado. Habituam-se a viver com limitações e com má qualidade de vida. No entanto, e porque se tem falado muito de asma nos últimos anos, cada vez mais pessoas reconhecem que podem ter essa doença, e procuram o médico».

Factores desencadeantes

As crises de asma podem surgir devido a diversos desencadeantes. Estes podem ser alergénios, exercício físico, o riso, o frio, certos alimentos ou os seus aditivos, fármacos, etc.

Os alergénios, substâncias capazes de provocar alergia, como o pólen de flores, árvores e arbustos, ácaros do pó da casa, pêlo de animais, etc., são dos que mais “despertam” a sintomatologia da doença. Por isso, é importante saber reconhecer o que causa o aparecimento dos sintomas e das crises. Assim poder-se-á evitar o seu aparecimento.

Os ácaros, microrganismos que vivem nos colchões, sofás e almofadas, por exemplo, contribuem, também, para a asma; tal como o pólen, que é uma das causas mais frequentes de crises, pois a polinização das plantas faz-se principalmente na Primavera. E é nesta altura que os asmáticos alérgicos ao pólen têm sintomas, podendo, até, passar completamente bem nos restantes meses do ano. Os alimentos, por sua vez, também podem provocar asma. Na realidade, por vezes não são os alimentos a causa real da asma, mas os conservantes, os corantes e outros químicos presentes na comida. Também medicamentos como o ácido acetilsalicílico, ou a penicilina, podem contribuir para o aparecimento da doença.

E se outras substâncias não causam asma, podem, no entanto, agravá-la. Isso acontece por exemplo com o fumo do tabaco, a poluição do ambiente ao ar livre ou no interior dos edifícios. No caso do primeiro exemplo, o fumo do tabaco, sabe-se agora que agrava a doença. Por isso, os asmáticos devem abster-se de fumar e evitar os locais com predominância do “nevoeiro” tabágico.

Como é óbvio, a poluição não contribui para saúde de quem quer que seja. As substâncias tóxicas existentes no ar ambiente, produzidas pelos transportes, as actividades industriais, as actividades domésticas e o aquecimento, também agravam a asma. Já a poluição do interior dos edifícios é tão ou mais perigosa que a exterior, pois o ar dentro dos edifícios também é poluído por produtos industriais, materiais de construção dos edifícios, uso de combustíveis domésticos e fumo de tabaco.

Exercício físico?

O exercício pode causar crises de asma. No entanto, isso não deve vedar a prática do exercício físico, até porque há já vários medicamentos que podem evitar esse tipo de crise. Aliás, o desporto não está contra-indicado nos asmáticos, antes pelo contrário: há evidência científica de que os asmáticos beneficiam dessa prática.

No entanto, o caso muda de figura quando se parte para a análise da prevalência da doença em atletas de alta competição, uma vez que estes têm um risco muito elevado de sofrer de asma. Um estudo internacional, que contou com investigadores do Serviço de Imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e do Serviço de Imuno-Alergologia do Hospital de S. João, e publicado na revista “Allergy”, permitiu o acompanhamento de mais de 2 mil atletas europeus presentes nos Jogos Olímpicos e confirmou o que já se suspeitava: subdiagnóstico de asma, em elevada percentagem, entre os atletas, bem como uma deficiente medicação por receio de que os fármacos usados possam ser interpretados como doping.

Apesar de muitos dos atletas não diagnosticados nunca terem apresentado queixas até então, o início do tratamento marca uma diferença substancial na sua qualidade de vida e capacidade física. Notaram-no alguns dos atletas portugueses que estiveram nos últimos Jogos Olímpicos (em Pequim) e que, tal como os restantes participantes neste estudo, foram sendo acompanhados desde cerca de dois meses antes do início dos Jogos.

Os cientistas relacionam a elevada prevalência de asma entre os atletas de alta competição com os longos períodos que estes desportistas passam com ventilação aumentada. O aumento da ventilação é um resultado natural da prática de exercício físico muito exigente, por dilatados períodos de tempo. Mas também alguns factores ambientais promovem o aparecimento de asma nos atletas, como a exposição a ar muito frio durante os treinos, a exposição a substâncias poluentes, como os derivados de cloro e as substâncias usadas na manutenção de ringues de gelo, ou mesmo o pólen nos doentes alérgicos.

No mesmo quadro, está provado que a prevalência da asma aumenta com a idade e os anos de competição. Também a rinite alérgica regista uma maior prevalência entre os desportistas do que a encontrada na população em geral. Este dado é importante porque o diagnóstico de rinite ou rinoconjuntivite alérgica deve alertar os médicos para a possibilidade de existir asma concomitante. Quando não tratada, esta patologia obriga o desportista a respirar continuamente pela boca, não aquecendo o ar, o que fomenta a inflamação das vias aéreas e a sintomatologia da asma.