Tinha 23 anos quando abriu o seu próprio consultório, «era jovem e usava totó», conta Cristina Dias. Isto passados dois anos desde que se licenciara em Medicina Dentária. Apesar da consciência de que não seria fácil, pelo facto de ser mulher e jovem, acreditava que «ou era naquela altura ou não era». O objectivo era ter um espaço onde «pudesse expor o meu estilo», nomeadamente «uma sala de espera serena», ou seja, «ter em atenção estas coisas mais simples, mas que não estavam muito edificadas na área».
Foi a paixão pelos trabalhos manuais que a fez ingressar no curso de Medicina Dentária. Depois de ter passado muitos anos a fazer bailado, «uma escola inglesa convidou-me para continuar os meus estudos em Inglaterra, só que os meus pais não me deixaram». E foi então que, para que a sua vida continuasse ligada às artes, enveredou pela profissão de médica dentista, visto que na sua opinião «são áreas que, embora diferentes, tocam a arte». E, hoje, dedica-se essencialmente à odontopediatria e à dentisteria.
Contudo, na clínica trabalha também «o professor Castelo Branco que vai cobrir as outras áreas, designadamente a cirurgia, a endodontia, a prótese fixa, etc.».
Pelas crianças
Cristina Dias revela que se dedicou à odontopediatria porque gosta muito de crianças. Os seus vinte anos de experiência profissional levaram-na a desenvolver técnicas para saber lidar com os petizes. «Normalmente vejo a criança sozinha, o acompanhante vem só conhecer-me e contar o que se passa, depois sai». Porém, a médica dentista ressalva que «não faço qualquer tratamento sem consultar os pais». Passado todo este tempo garante, «e digo isto de uma forma muito humilde, que não me lembro de uma frustração no meu relacionamento com os mais pequenos». A chave do sucesso reside, segundo a profissional, «na minha abordagem simples, sem forçar, dado que há crianças que no primeiro dia em que cá vêm saem daqui sem qualquer tratamento». E esta «abordagem serena, e este tentar colocar-me ao nível delas, tem-me ajudado a conseguir alcançar os meus objectivos».
Os mais pequenos são de tal forma os reis e as rainhas no consultório de Cristina Dias, que ela até tem «uma farda e máscara especial, assim como uma linguagem própria para a assistente», ou seja, «nunca aqui se fala, por exemplo, em seringa ou agulha, fala-se em biberão». E até os gestos são pensados, «jamais uma anestesia passou à frente da criança».
Porém, salienta que é muito importante «não mentir e saber explicar o que vai acontecer». No fundo, e uma vez que «há crianças que já vêm traumatizadas, há que desdramatizar a situação e sublinhar que estou aqui para o bem».
Uma palavra amiga
Mas ao que parece, não foi só com as crianças que esta profissional de saúde oral, cuja clínica está situada há dez anos na zona de Entrecampos, em Lisboa, desenvolveu uma relação especial. «Falo muito com os doentes antes de começar o tratamento», revela Cristina Dias, ressalvando que, contudo, «não de medicina dentária ou dos problema que aqui os traz. Acabo por desempenhar a função de psicóloga e isso agrada-me, porque gosto muito de ajudar e ao fazê-lo ajudo-me também».
O reverso da moeda é que chega «ao fim do dia muito cansada, uma vez que absorvi muitas energias negativas, especialmente quando os problemas das pessoas dizem respeito a doenças».
Todavia, a médica dentista encontrou uma maneira de ultrapassar este obstáculo, o yoga, que a auxilia «a não absorver estas energias».
É por tudo isto que assegura que «é, sobretudo, a parte humana que traz cá os pacientes. Há muito poucos ouvidos no mundo, porque todos querem falar, mas é fundamental saber ouvir».
Para além do yoga, Cristina Dias recorre a outras “terapias”: gosta de escrever e de pintar. Pinta consoante o estado de alma e não com a finalidade de expor, «quando estava grávida pintei imenso», conta, acrescentando que «também tenho escrito alguns pensamentos. No fundo, há momentos em que «gosto e preciso de estar sozinha».
O “ser” em detrimento do “ter”
Ao longo dos anos tem vindo a reduzir o número de pacientes que vê ao longo do dia por duas razões. A primeira prende-se com o facto de ser da opinião que «o primeiro doente deve ser visto com a mesma disposição que o último». Já a segunda reside no trabalho humanitário que tem vindo a desenvolver ao longo dos anos. «Abri, com uma a amiga que é presidente de uma associação humanitária, uma biblioteca na Ilha do Sal, em Cabo Verde, há três anos», revela.
Depois de conhecer as necessidades das populações em termos de leitura, procurou ajuda, tendo conseguido o apoio da Fnac. Todavia, muito foi feito pelas suas próprias mãos, como a pintura do edifício.
«O projecto inicial era uma biblioteca para cada escola, que são nove», mas os apoios começaram a ser menos e Cristina Dias ainda não conseguiu realizar por completo o seu sonho. Apesar dos problemas e das burocracias que teve de atravessar, «valeu a pena!», exclama, destacando, por exemplo, as dificuldades que teve em arranjar livros em crioulo.
Mas por que razão Cabo Verde? Ou uma biblioteca? A médica dentista explica: «fui convidada para uma festa de Natal dos meninos necessitados lá e fiquei com 64 afilhados. Apercebi-me de que havia uma associação que assegurava a parte alimentar e de vestuário e, por isso, não valia a pena estar a duplicar esta acção, daí ter avançado para o campo da leitura».
Em relação às pessoas da ilha, ficou fascinada com a sua simplicidade, «lá sou Cristina e não Dr.ª Cristina». Aliás, nas suas acções humanitárias nunca é “Doutora Cristina” porque não assume a “função” de médica dentista. «Não queria misturar a minha parte profissional com a humanitária», justifica, acrescentando que «queria fazer algo diferente, pois a profissão é rotineira».
Mas a sua principal missão é ajudar. A este propósito diz: «tenho dois filhos e levei-os lá para perceberem que iam dar alguma coisa, mas que iam receber muito mais e acabaram por fazer muitas amizades. Essencialmente, tento incutir-lhes o verbo ser e nunca o ter: tenham amigos, porque são amigos».
Tentar o melhor
No seu dia-a-dia profissional declara-se «muito perfeccionista», o que pode «ser um defeito». No entanto, «digo aos meus doentes que vou tentar o meu melhor». Para além disso, é pontual e, por isso, «na clinica não há a confusão de sala de espera». Na verdade, segundo Cristina Dias, «frequentemente, o doente que sai nem se cruza com o que irá entrar». E isto é importante, para a médica dentista, «até por uma questão de privacidade».
Durante a conversa com a Saúde Oral, algo que transparece é o quanto a serenidade é indispensável na rotina da médica. O consultório caracteriza-se por um ambiente, «muito sereno». «Normalmente o doente vê o canal que quer (na televisão que está em cima da cadeira) e aqueles que querem põem os headphones». Quanto ao restante espaço, «tentei que fosse muito minimalista e de fácil higienização».
A questão do “pós”
A médica dentista não aderiu ao programa cheque-dentista, «devido à questão do “pós”», dado que um plano de tratamento «pode não funcionar só naquele cheque e eu não sei até que ponto o doente não se sente constrangido em relação à próxima consulta, quando o montante do cheque é alcançado».
Apesar de manter uma postura optimista perante a vida, Cristina Dias não é alheia às dificuldades inerentes ao estado actual da profissão. «Todos os dias recebo curriculum vitae de colegas a proporem-se para trabalhar por valores que, honestamente, era incapaz de lhes dar porque são muito baixos», alerta, ressalvando que «há pessoas que não estão nesta profissão pelo usufruto financeiro. Provavelmente, não atinjo determinados valores no fim do mês, mas é assim que estou bem».


