Segundo um estudo da Faculdade de Medicina do Porto, 31% da população padece de dor crónica e 14,3% de dor moderada a grave, mas como sublinham Miguel Meira e Cruz, professor de Anatomo-Fisiologia e Traumatologia na ESE – IPS, e Octávio Ribeiro, coordenador da área de Oclusão e Disfunção Temporomandibular da Universidade Católica Portuguesa, classificar os diferentes tipos de dor não é tarefa fácil, dado que está dependente «sob que perspectiva classificamos a dor».
Contudo, a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) classifica a dor de acordo com a sua duração em dor aguda e crónica e, «na maior parte das vezes a fronteira entre uma e outra são seis meses de duração, mas tantas outras vezes é arbitrária, sendo mais relevante, quanto à duração e do ponto de vista clínico, distinguir a dor que cessa em algumas semanas após a lesão e a dor que persiste após o normal processo de cicatrização», elucida Miguel Meira e Cruz.
Como salienta Octávio Ribeiro, «a primeira situação a ser definida é determinar se a dor tem uma origem física ou psicológica», mas no entender deste médico dentista a máxima defendida por Jeffrey Okeson continua a reger a sua prática diária: «qualquer dor orofacial tem uma origem estomatológica até que se prove o contrário».
Diferentes tipos de dor
Podemos classificar a dor em diversos tipos, que, segundo Octávio Ribeiro, vão desde a dor neuropática, «gerada no próprio sistema nervoso, sem uma fonte nociceptiva óbvia»; dor somática, «parte das estruturas encontra-se com alterações, mas os terminais nervosos encontram-se normais»; dor superficial, «localização da dor com precisão anatómica, a intensidade do estímulo com resposta proporcional»; dor profunda, «localização da dor é imprecisa, a reacção ao estímulo pode levar à ausência ou diminuição da actividade»; dor músculo-esquelética, «relacionada com a actividade biomecânica» e dor visceral «relacionado com funções metabólicas».
Porém, não podemos ainda esquecer que as características temporais da dor determinam a existência de uma outra classificação (episódica, contínua, intermitente, paroxística…) e, finalmente, de acordo com a sua etiologia, ainda pode ser de origem genético-congénita, traumática, infecciosa, inflamatória, degenerativa e psicogénica. Miguel Meira e Cruz afirma que ainda é possível distinguir, sob o ponto de vista clínico, entre dor espontânea e iatrogénica. Esta última é «causada pela intervenção clínica, como sucede durante a preparação cavitária em dentisteria ou durante o tratamento ortodôntico, resultante das forças aplicadas».
A dor na dentisteria
Reconhecendo o incómodo que um múltiplo sistema classificativo acarreta, «porque difícil de aplicar sistematicamente no âmbito clínico», Miguel Meira e Cruz frisa que «é fundamental saber se a dor se localiza na pele, mucosa, dente ou músculos». Contudo, «esta distinção não é tão relevante quando o mecanismo fisiopatológico subjacente é o mesmo. Simplificando, os mecanismos básicos da dor podem partilhar muitas características comuns, mas a apresentação clínica pode ser diferente em distintos tecidos e regiões».
No fundo, como faz questão de salientar, «apesar destes princípios inerentes à rigidez de uma classificação sistemática, é comum classificarmos a dor em odontalgia (se provém do dente), artralgia (se provém da articulação, nomeadamente da articulação temporomandibular – ATM), mialgia (dor muscular – músculos mastigatórios…), sendo esta subclassificada».
Depois há ainda que contar com o facto de na origem de cada um destes tipos de dor poder estar um mecanismo diferente determinado (inflamação, disfunção neurológica) ou desconhecido (idiopático).
No caso dos tratamentos dentários, as patologias associadas à dor que podem ser desencadeadas são as iatrogénicas «ou de procedimento, uma vez que são geradas pelo tratamento em si». Tal como elucida Miguel Meira e Cruz, «são quase todas de duração limitada (ou de fase aguda)», embora o clínico considere que, na maior parte das vezes, «não se pode considerar uma patologia, mas um sintoma», dado que a dor, enquanto doença, se relaciona mais com a sua persistência.
Leia o restante artigo na edição de Março / Abril da revista Saúde Oral. Brevemente.


