A estética dentária é «uma filosofia», que exige uma certa sensibilidade por parte do médico dentista, uma vez que, para além de uma componente objectiva – ciência – vive, igualmente, de uma componente subjectiva. Marina Lampreia explica que a questão da objectividade diz respeito «aos princípios científicos que foram desenvolvidos aos longos dos anos, mas que por si só não são suficientes. Se contarmos apenas com estes não é fácil obtemos bons resultados, temos sempre de ter em atenção a componente subjectiva, ou seja, aquela que diz respeito à sensibilidade do próprio profissional e à individualidade de cada paciente».
A médica dentista dedicada exclusivamente às áreas da prostodontia e dentisteria, realça ainda a importância da «componente humana, resultante da relação entre o médico dentista e o paciente, e aquilo que se consegue avaliar das suas expectativas». A esta equação acrescenta-se a «capacidade técnica (conhecimento de biomateriais, técnicas e experiência)», sendo que «tudo isto vai contribuir para que, no fim, consigamos o objectivo principal que é imitar a natureza, tornando as restaurações imperceptíveis e integradas num contexto que torna o sorriso harmonioso e uma obra de arte», defende Marina Lampreia.
Mas o conceito de estética está intimamente relacionado com o de saúde, ou melhor, «a temática “Estética em Medicina Dentária” é hoje um assunto crucial e integrante do binómio Sociedade/Saúde», sublinha João Carlos Ramos, explanando que, «neste contexto actual, mas nem por isso recente em determinadas sociedades, são bastante comuns as referências a aspectos culturais, e particularmente os estéticos, quando se abordam algumas áreas específicas da saúde». Neste sentido, segundo o docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, a Medicina Dentária «não foge à regra, o que não constitui surpresa aparente se atendermos ao facto de que tem como área de intervenção o complexo oral, o qual desempenha funções primordiais no desenvolvimento físico, psíquico e social do ser humano».
Padrões estéticos
Os padrões de beleza em medicina dentária têm variado com o tempo e com o lugar, e aquilo que é considerado belo hoje não o foi no passado, ou aquilo que é visto como bonito em Portugal poderá não o ser na Índia.
«A estética e a concepção da diferença entre ser belo, ou não, varia muito de acordo com a sociedade em que o indivíduo está inserido», complementa José Chibebe Júnior. No entanto, para o docente do curso de Odontologia da Faculdade de Pindamonhangaba (FAPI), Brasil, «há alguns conceitos de beleza que são aceites em qualquer sociedade, aos quais chamamos padrões universais da beleza».
No entanto, as influências culturais também se fazem sentir nesta área, temos como exemplo duas escolas bem conhecidas pelas suas diferentes abordagens, a escola americana que valoriza sorrisos brancos, monocromáticos e simétricos e a europeia que prefere a naturalidade sem uma uniformização excessiva que confira artificialidade ao sorriso, salienta Marina Lampreia.
Não há dúvidas, então, que «o conceito de estética tem mudado», reitera a médica dentista, justificando que, «inicialmente, era um aspecto meramente técnico» e a principal preocupação incidia na reabilitação estética e funcional de cada dente isoladamente. A individualidade de cada dente no que diz respeito à forma, cor, textura, brilho e características internas, é extremamente difícil de reproduzir sem que toda a informação seja correctamente transmitida ao técnico de prótese. Segundo esta profissional de saúde oral, «nos anos 80» as atenções estavam focadas em aspectos técnicos como a comunicação da cor ao técnico de prótese, desenvolvendo-se técnicas de linguagem para esse efeito, expõe a médica dentista. Só mais tarde, começou a surgir «a filosofia que hoje domina que é a perspectiva de estética orofacial e não apenas dentária».
Em medicina dentária, a estética «é percebida através do nosso sentido da visão. Desse modo os princípios estéticos constituem factores que foram estudados de acordo com a percepção visual humana». Segundo José Chibebe Júnior, são considerados princípios estéticos a unidade e composição, «onde avaliamos os dentes e as diversas composições que formam com as estruturas anatómicas circunvizinhas, como as gengivas, os lábios, o terço inferior da face e a face toda; a força, onde são analisadas as que actuam nestas composições de acordo com a organização do arranjo dental – há forças coesivas e segregativas que devem estar simultaneamente a interagir nas composições estudadas; as linhas, ou seja, toda a percepção visual, inclusive inconscientemente, é visualizada através destas – a forma como estas linhas imaginárias estão dispostas entre si geram diferentes forças e são essenciais para obtenção de belos sorrisos; a simetria, onde é avaliada a posição dos objectos estudados, no caso os dentes e lábios». De acordo com o docente, há dois tipos de simetria considerados em medicina dentária: a radial e a horizontal. Todavia, defende que «devemos sempre procurar encontrar a harmonia no uso da simetria e optar pela imitação da natureza, onde a simetria horizontal é mais encontrada».
Mas também o equilíbrio é um princípio estético a ter em consideração, «tentamos corrigir áreas com desequilíbrios, que podem ser de forma, de coloração, de tamanho, e assim atingir o equilíbrio em relação a um fulcro central, que em nosso caso é a linha mediana», explica o professor, mencionando ainda o princípio da dominância: «a boca em função da sua mobilidade, tamanho e importância para a comunicação e alimentação é o elemento dominante da face. E entre os dentes tem de se ter elementos dominantes. Basicamente podemos dividir a dominância em individual ou de segmento».
Veja o artigo completo na Saúde Oral N.º 69. Brevemente.