O que a fez tomar a decisão de ir estudar para o estrangeiro?
Os Estados Unidos estão muito avançados a nível prático e de ensino. As universidades recebem os melhores dentistas de todo o mundo e formam profissionais capazes de lidar com os casos mais complicados. Acredito que qualquer dentista que tenha a oportunidade de melhorar e desenvolver a sua experiência não recusaria uma oportunidade de ir estudar para um dos melhores programas do mundo. O apoio da família tem sido, igualmente, fundamental.
Era um sonho antigo?
Sim, definitivamente. Durante o meu segundo ano de universidade em Portugal ouvi falar dos programas de pós-graduação nos Estados Unidos da NYU e o sonho ficou sempre comigo. Nunca pensei que fosse capaz de realizar esse sonho tão cedo, mas sempre acreditei que poderia ser algo que pudesse acontecer no futuro.
Em Medicina Dentária é importante ter esta experiência noutro país, ter contacto com outras realidades?
Em qualquer área é muito enriquecedor ter a oportunidade de explorar novas culturas e realidades de outros países. Em Medicina Dentária em concreto, os grandes pioneiros das diversas áreas estão espalhados pelo mundo. O facto de podermos estar tão próximos e em contacto com pessoas que viveram essas evoluções ao longo dos anos é uma oportunidade única e muito motivadora para querer dar também o nosso contributo para essa evolução e desenvolvimento da Medicina Dentária, não só em Portugal, como no resto do mundo.

Como surgiu a oportunidade de ir estudar na NYU?
Quando terminei a licenciatura fiquei um ano na minha universidade (ISCSEM) como assistente clínica do 3º e 4º ano de Cirurgia Oral (pré-clínico e clínica). Não obstante todo o apoio que me foi dado no departamento onde estive um ano, a realidade foi que as oportunidades, embora existentes, eram escassas e as condições estavam longe de ser as ideais, pelo que cedo me apercebi que teria de pensar em emigrar.
Poucos meses após concluir a licenciatura candidatei-me para trabalhar no Reino Unido, em Londres, para onde me mudei em part-time, durante o ano que trabalhei para a minha universidade. Passado um ano de meia-semana em Lisboa e meia-semana em Londres decidi mudar-me a full-time para Londres onde trabalhei por mais dois anos. Penso que o salto para Londres abriu-me ainda mais os olhos e apercebi-me nitidamente, nessa altura, que a melhor forma de evoluir, no sentido de servir e tratar os meus doentes, bem como de me realizar e progredir profissionalmente teria de passar por um programa de pós-graduação. Foi então que decidi candidatar-me para a NYU para ingressar naquilo que tem sido a experiência mais enriquecedora e gratificante a nível da minha carreira.
Porque escolheu a área da Prostodontia?
Porque combina as duas vertentes com as quais me senti sempre mais identificada e vocacionada: ciências e artes. É a área responsável pela reabilitação oral, garantindo um resultado o mais estético e funcional possível. Tem uma vertente extra-horário de laboratório muito forte que nos permite colocar em prática todo o nosso lado criativo na conceção de “novos sorrisos”. Nesta área temos ainda o privilégio de poder contribuir na reabilitação daqueles que, infelizmente, apresentam defeitos congênitos ou adquiridos e que requerem uma intervenção multidisciplinar para assegurar o seu bem-estar.
Quais as principais diferenças, a nível de métodos de trabalho, na Universidade onde está face ao ensino em Portugal?
A nível prático, o grande número de pacientes que é admitido para tratamento nas nossas clínicas permite-nos ter uma experiência clínica excecional. Como o número é tão elevado e estamos num departamento de especialidade, os tipos de “caso clinico” dos nosso pacientes são de um nível de complexidade altíssimo, o que nos leva a desafios profissionais e a ter contacto com possivelmente os casos mais complicados que alguma vez iremos tratar.
A nível teórico, um dos pontos forte do ensino americano é que nos incentiva a estudar a literatura existente de uma forma contínua e, diria mesmo, muito intensa focando deste modo a nossa atenção e juízo clinico na “Evidence Based Dentistry”. Somos diariamente estimulados a justificar as nossas decisões clínicas com base na mais recente investigação e evidência disponíveis.
Quais os seus planos para o futuro?
Costumo dizer que uma vez que saímos do nosso país é sempre imprevisível o nosso regresso. Gosto de acreditar que todo este tempo e investimento será para um dia poder regressar a casa e partilhar tudo o que me foi ensinado.

Kimberly MacGregor com João Malta Barbosa, ambos a estudar na New York University
Qual a sua opinião sobre as dificuldades dos jovens dentistas portugueses em encontrar saídas profissionais?
É um tema muito sensível e que eu vivi muito de perto. Infelizmente vejo toda esta temática com uma enorme tristeza porque receio que, se não for resolvida, possa vir a ter repercussões a nível da legítima ambição e expectativa de atingir a maior e melhor qualidade de serviço em relação aos nossos jovens estudantes e recém-licenciados em Medicina Dentária. Digo isto sem uma solução em mente, mas penso que uma das abordagens lógicas seria o restabelecimento do rácio “médico-dentista / população” através do controlo das vagas de ensino superior e da imigração, e o apoio e incentivo à formação de pós-graduação em Portugal ou no estrangeiro.
Nem todos os estudantes têm possibilidade de investir numa formação no estrangeiro. É isto mesmo, um investimento a longo prazo?
É sem dúvida um investimento enorme, mas não me arrependo em absoluto da decisão tomada. Ao afirmar isto não digo para procurarem o curso mais dispendioso e reconhecido a nível internacional, dado que existem inúmeros programas de pós-graduação em Portugal e no estrangeiro que não requerem um encargo tão grande e que, de igual forma, dão acesso às mais recentes inovações em Medicina Dentaria, incentivam a investigação e promovem o crescimento individual como prestadores de saúde oral, na procura do melhor serviço para o paciente.
Como classifica a formação que atualmente é feita em Portugal em Medicina Dentária?
Não me posso queixar da formação que recebi em Portugal e reconheço o papel de vários mentores no meu percurso académico. Posso afirmar, sem restrições, que o feedback aqui na NYU dos portugueses que por cá passaram tem sido o melhor! Os professores reconhecem-nos como um grupo super empenhado e proactivo, bem integrados na comunidade e com brio em fazermos sempre e darmos o nosso melhor. Contrariamente a outras culturas aceitamos bem opiniões diferentes, novas ideias ou técnicas e estamos dispostos a mudar e a nos desafiar constantemente para garantir sempre o nosso melhor.