As emergências médicas em medicina dentária são raras, mas não impossíveis de acontecer. Estão os médicos dentistas preparados para atuar perante uma adversidade deste tipo? A prevenção é a chave, mas a formação nesta área é crucial.
A emergência médica em ambiente odontológico pode acontecer de forma inesperada. Sendo por vezes imprevisível, pode mesmo ser equivalente a risco de morte. De acordo com Augusta Silveira, professora auxiliar e investigadora principal na Universidade Fernando Pessoa e uma das autoras do poster ‘Emergências Médicas em Ambiente Odontológico: Segurança do doente em foco’, exposto no I Congresso de Qualidade e Segurança em Saúde, em 2012, existem “estudos que relatam que a maioria dos médicos dentistas reporta dois casos de emergência médica por ano, sendo a síncope das mais frequentes. Os estudos referem ainda que uma em cada sete emergências envolve manobras de ressuscitação respiratória ou cardíaca”. A docente adianta também que as ocorrências mais graves são as que “envolvem este tipo de manobras no consultório, que obrigam a um encaminhamento hospitalar e que, no limite, podem colocar em risco a vida do paciente”. São exemplos de emergências médicas mais ‘problemáticas’ a obstrução da via aérea, o choque anafilático, a convulsão, o enfarte agudo do miocárdio, o acidente vascular cerebral e a paragem cardiorrespiratória, entre outras.
As emergências médicas são ocorrências raras, que “dependem muito do tipo de prática clínica”, elucida Ricardo Vieira Alho, médico dentista que se dedica à cirurgia oral, à implantologia e à reabilitação oral estética, com prática na Clínica Castilho, em Lisboa. “Podemos afirmar que a cirurgia oral é provavelmente das subespecialidades da Medicina Dentária que maior risco de emergências apresenta”. Não obstante, o médico dentista explica que esse risco “é real em todos os nossos procedimentos e o próprio facto de as nossas consultas serem, para alguns pacientes, uma fonte de ‘stress’, causa uma maior predisposição para estes acontecimentos”.
Quando acontece uma emergência
Durante a sua prática clínica, Augusta Silveira já experienciou situações de emergência médica, nomeadamente “situações de síncope/lipotimia, hipoglicemia e hipotensão postural ortostática”. Durante a ocorrência dos eventos, o seu principal objetivo foi “assistir os pacientes até à sua completa recuperação, não tendo havido necessidade da utilização do kit de emergência, nem de chamar equipas de emergência médica”, declara.
Perante os casos de emergência médica que teve, a sua conduta foi similar. A professora explica que, primeiro, começou por “suspender o tratamento do paciente, remover todos os objetos que estavam em boca, posicioná-lo corretamente e avaliar a permeabilidade da via aérea, respiração e circulação sanguínea” e de seguida deu “instruções diretas e claras às colaboradoras para avaliação e registo das funções vitais de 15 em 15 minutos”. A investigadora salienta ainda que “a avaliação da glicemia capilar foi importante em algumas situações – realizada previamente à consulta em patologias específicas (por exemplo, diabetes) e para despiste de hipoglicemia (por exemplo, numa síncope). Nalguns casos houve a necessidade de promover a ingestão de hidratos de carbono de absorção rápida”. Por fim procedeu-se a um “acompanhamento constante e monitorização do paciente, que ficou em repouso até à completa estabilização dos sinais vitais, sendo que após a recuperação, o paciente saiu acompanhado, não conduziu qualquer veículo motorizado e a próxima consulta foi adiada pelo menos 24 horas”, revela Augusta Silveira. A médica dentista salvaguarda ainda que uma correta atuação da equipa “é fundamental para evitar possíveis sequelas sobre as funções vitais do paciente: aspetos que podem salvar vidas!”.
Augusta Silveira destaca três formas de prevenção, essenciais para diminuir o risco numa situação de emergência.
– Avaliação do grau de risco do paciente desde a primeira consulta
A realização da anamnese e do exame físico do paciente aumenta significativamente a segurança no atendimento clínico, facto que se torna ainda mais útil em pacientes com múltiplas patologias e geralmente polimedicados. Também aqui a articulação com o médico assistente é uma mais-valia.
– Formação e treino de todos os elementos da equipa envolvidos
– Articulação com Serviços de Saúde
A articulação e criação de protocolos de cooperação entre a clínica onde o médico dentista trabalha e o médico de família, equipas de emergência e hospitais próximos possibilitam uma resposta automática e um atendimento mais rápido e eficaz, que pode fazer a diferença entre, por exemplo, o paciente ficar ou não com sequelas do episódio.
Ricardo Vieira Alho também já experienciou ocorrências de emergência médica: “tendo grande parte da minha prática dedicada à cirurgia oral e implantologia, registei até hoje duas emergências”. Num dos casos tratava-se de uma paciente idosa, “que habitualmente fazia medicação anti-hipertensora e que numa cirurgia de implantes longa e extensa teve um grande pico de hipertensão”. O médico dentista explana que a paciente sentiu-se mal, mencionando sintomas como tonturas, a transpiração estava bastante aumentada e encontrava-se agitada, sinais que levaram Ricardo Vieira Alho e a sua equipa a perceberem que se estava a passar alguma coisa de anormal. “Parámos a cirurgia, que estava prestes a terminar, e fizemos controlo da tensão arterial (TA), no qual se constatou uma TA de 200/120. Utilizámos um comprimido de nitroglicerina sublingual (Nitromint 0.5 mg) e aguardámos até que a TA baixasse e estabilizasse”. Nesse mesmo dia, a paciente foi encaminhada para o seu médico cardiologista, “que efetuou diversos exames e alterou a medicação”, indica Ricardo Vieira Alho, revelando que “hoje em dia a paciente encontra-se bem, corretamente medicada e reabilitada com próteses fixas e implantes”.
A outra ocorrência que experienciou foi igualmente durante uma cirurgia, na qual um paciente, sujeito a medicação anticoagulante, teve uma hemorragia bastante mais abundante do que o normal. “Neste caso usámos compressas esterilizadas embebidas em água oxigenada, fazendo compressão constante e suturámos de imediato a ferida cirúrgica. O paciente ficou sob observação no consultório até a hemorragia ser controlada e acabou por ficar tudo resolvido”, conta o médico dentista.
No entanto há profissionais que, apesar de vários anos de prática clínica, nunca tiveram ocorrências de emergência médica. Como salvaguarda Pedro Moutinho, diretor-clínico da Clinica Dentária Dr. Pedro Moutinho, no Porto, é importante estar preparado para a eventualidade. “Embora não tenha experienciado uma emergência ao longo da minha carreira, é fundamental estarmos preparados para este tipo de adversidade, especialmente porque sendo a medicina dentária quase exclusivamente uma atividade privada, os profissionais trabalham isolados ou em clínicas sem apoio de outras especialidades médicas mais habituadas a lidar com este tipo de situações”. Por isso, o médico dentista defende que “quanto mais preparados estivermos, mais rapidamente podemos reagir. É fundamental fazermos ações de formação dadas pelas diversas organizações como a Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), as faculdades, os hospitais públicos e entidades privadas”.
Formação teórica e prática
Sendo vital o médico dentista estar apto para lidar com uma possível emergência médica, é imprescindível a preparação individual através de formação teórica e prática qualificada e atualizada; assim como formação e treino da equipa de saúde oral que consigo colabora. Na clínica de Pedro Moutinho, “todo o staff frequenta uma ação de formação anual de segurança, higiene e saúde no trabalho, dada por uma empresa privada” porque, na opinião do médico dentista, “é fundamental que todos saibamos tomar medidas para minimizar os riscos de acidente e da mesma forma reagir perante a adversidade”.
A – (Airway) – Vias aéreas e controle da coluna cervical;
B – (Breathing) – Respiração e Ventilação;
C – (Circulation) – Circulação com controlo de hemorragia;
D – (Disability) – Exame neurológico sumário;
E – (Exposure) – Exposição com controlo da hipotermia.
Ricardo Vieira Alho defende igualmente a importância da formação, garantindo que, em Portugal, “a formação que temos nas faculdades é muito boa, e, diria até, das melhores que existe na Europa. Os nossos planos de estudo apresentam, ou pelo menos apresentavam há uns anos, várias aulas subordinadas às emergências médicas, em cada uma das especialidades”. O médico dentista argumenta ainda que “o curso de suporte básico de vida é fundamental para os médicos dentistas e a atualização periódica do mesmo é uma mais-valia”. No seu caso em particular, além da formação base pré-graduada, o médico dentista diz ter contacto constante com colegas médicos de outras áreas, que o vão mantendo informado acerca dos protocolos em emergência médica e, além disso, “tenho igualmente vindo a atualizar o curso de suporte básico de vida a cada quatro anos, de forma a manter esses conceitos ‘frescos’”.
Legislação e kit de emergência
Por outro lado, é ainda primordial “cumprir a legislação em vigor no que concerne à aquisição de equipamentos de emergência médica e fármacos, incluindo a inspeção regular do kit de emergência, dos respetivos estados de conservação e das validades”, elucida Augusta Silveira. Além disso, a professora sublinha que o médico dentista deve trabalhar “num ambiente que lhe permita identificar rapidamente uma situação de emergência médica e agir em segurança”. Afinal, este profissional é o responsável pela gestão das situações de emergência que possam surgir durante o tratamento dentário, pelo que enfrenta o risco de responsibilização civil, caso não estabeleça as melhores práticas.
É importante, como adianta a investigadora, “conhecer a evolução dos Decretos de Lei publicados em Diário da República no que concerne à presença de equipamentos de emergência e fármacos em consultório e ter presente o Código Deontológico da Ordem dos Médicos Dentistas, que enfatiza aspetos da conduta de um médico dentista aquando de situações de urgência médica”. Para evitar estas ocorrências, o método mais eficaz “é a prevenção”, assegura Joana Mourão, uma das autoras do estudo ‘Emergências médicas em medicina dentária, prevalência e experiência dos médicos dentistas’ e assistente hospitalar de anestesiologia. “De acordo com as recomendações do conselho de emergências do Reino Unido, o mais importante para a prevenção é uma recolha adequada da história clínica do paciente e possuir um registo apropriado da história médica do seu doente, que deverá estar atualizado”.
Assim sendo, segundo a médica, “todos os médicos dentistas deverão possuir competências para lidar com as emergências médicas dentárias mais frequentes. Para tal deverão possuir formação que lhes permita abordar o doente crítico segundo o método ABCDE”. Com todos os cuidados descritos anteriormente assegurados e um profundo conhecimento clínico do seu paciente, a atuação do profissional de medicina dentária deverá ser calma, segura e objetiva, no sentido de assistir corretamente e minimizar os eventuais impactos negativos.
Artigo publicado na edição de julho/agosto de 2015 da revista SAÚDE ORAL



