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Engenharia e Medicina Dentária organizam conferência conjunta

Engenharia e Medicina Dentária organizam conferência conjunta

É fundamental a ligação entre a Faculdade de Engenharia e a de Medicina Dentária, considera Sónia Santos, organizadora da I International Conference on Biodental Engineering. Nesta conferência, a organização restringiu apenas o tema da medicina dentária e da bioengenharia aplicada à medicina dentária, com alguns dos especialistas portugueses presentes a concordarem que Portugal deve apostar mais na formação. Em conversa com a Saúde Oral, o coordenador de neurorradiologia da Dr. Campo Costa – Imagiologia Clinica, Manuel Casimiro Milheiro, vai mais longe e refere: «acho que a medicina dentária é o parente pobre da medicina geral».

A Faculdade de Engenharia do Porto e a Faculdade de Medicina Dentária organizaram a I International Conference on Biodental Engineering. Dois dias dedicados à bioengenharia aplicada à medicina dentária, onde marcaram presença os melhores especialistas em ambas as áreas. «Em termos de participação, temos a Europa muito bem representada, alguns países da América do Sul e, quanto à qualidade das apresentações, também fomos muito elogiados. No geral, superou qualquer uma das nossas expectativas mais positivas», afirmou Sónia Santos, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e organizadora da conferência.

A ideia surgiu com a tese de mestrado «onde estudei uma patologia do foro da medicina dentária que é o bruxismo. Estudei a biomecânica do bruxismo e, há medida que fui fazendo a tese, apercebi-me que havia dificuldades de comunicação entre as duas escolas: a de engenharia e a de medicina dentária», divulgou a organizadora. Sónia Santos considera que esta dificuldade de comunicação entre as duas faculdades é uma frustração para todos e um entrave no avanço do trabalho. Fez então uma pesquisa para saber onde estavam os fóruns e os debates e… não encontrou. «De não encontrar até fazer a nossa conferência foi um passo directo», contou. A investigadora salientou que a engenharia se torna importante pois contribui para o desenvolvimento da tecnologia e dos equipamentos, como refere a organizadora.

Bioengenharia aplicada à medicina dentária é ainda embrionária

Quanto aos temas abordados durante a conferência, Sónia Santos explicou que acabou por ser uma selecção natural pois «restringimos apenas o tema da medicina dentária e da bioengenharia aplicada à medicina dentária. A implantologia e o equipamento médico foram temas que surgiram naturalmente». Até porque os médicos, os cientistas e os investigadores sabem onde estão as dificuldades nos seus campos de investigação.

Segundo Sónia Santos, em Portugal, a bioengenharia já tem bases sólidas. «Portanto, as nossas universidades já perceberam que o assunto é importante e já estão a investir. Temos as portas abertas, temos o financiamento e gente de muita qualidade a trabalhar», referiu à margem do evento. Contudo, considera que a bioengenharia aplicada à medicina dentária está ainda numa fase embrionária.

Sónia Santos aproveita para explicar que a organização fez questão que a conferência fosse internacional para passar a mensagem que «estamos disponíveis para trabalhar com qualquer pessoa que nos proponha uma base de trabalho séria», salientou, acrescentando que na assistência o painel era muito homogéneo. «Temos médicos e engenheiros na mesma proporção, temos estudantes de doutoramento, mas temos muitos clínicos e bioengenheiros. Esse era precisamente um dos objectivos da organização, ter um painel homogéneo e, felizmente, conseguimos», mencionou.

Durante os dois dias em que decorreram as palestras «surgiram muitas ideias e tivemos ainda a exposição de equipamentos médicos, o que também nos trouxe os fornecedores e os fabricantes de equipamentos», afirmou. Com um balanço positivo, Sónia Santos acredita que a experiência é para repetir e que destes encontros vão sair colaborações mais estreitas com outras universidades e, eventualmente, sessões de debate.

Universidades estão fechadas à sociedade civil
 
«As universidades ainda estão muito fechadas à sociedade civil e é precisamente isto que temos de combater. Temos de abrir as portas, convidar as pessoas para que se sintam à vontade de nos exporem os problemas. Que nos expliquem o que está acontecer lá fora para que possamos intervir», conclui Sónia Santos.

Alexandra Lopes, médica neurorradiologista da Dr. Campo Costa – Imagiologia Clínica, esteve presente na conferência para apresentar todo tipo de patologias dentárias que se pode encontrar ao fazer um estudo para implantologia. «Muitas vezes os doentes chegam com o pedido mas sem grande informação. Daí termos que questionar o porquê do exame para depois o interpretar e dar o máximo de resposta que conseguimos». Contudo, Alexandra Lopes não deixa de referir a importância da prevenção: «sei que estão a ser feitas campanhas a nível escolar e os miúdos estão a ser sensibilizados de uma forma que há uns anos atrás não eram».

A médica considera mesmo que o Sistema Nacional de Saúde não dá atenção devida à medicina dentária. «Basta referir que não há médicos dentistas num serviço de urgência».

O parente pobre

O coordenador de neurorradiologia da Dr. Campo Costa – Imagiologia Clínica, Manuel Casimiro Milheiro, partilha da mesma opinião: «acho que a medicina dentária é o parente pobre da medicina geral». Até porque «não está ao acesso da maioria das pessoas, quando se quer recorrer a um médico dentista, normalmente, tem de ser privado».
O médico salientou ainda que «as pessoas têm menos preocupação com a saúde oral do que com as diabetes ou a hipertensão. Isto é uma questão cultural».

O especialista em reabilitação oral do Centro de Implantes Dentários, Roberto Maciel, corrobora desta opinião: «a nossa apreciação é que não se valoriza a saúde da boca. Uma sociedade “desdentada” é uma sociedade com complexo de inferioridade».

Para o médico, o mais importante é a prevenção, sendo que Portugal apresenta uma deficiência na divulgação de informação tanto nas escolas, como nos meios de comunicação social. «Sempre achei que a politica de governo ao nível da informação e de uma cultura preventiva era um pouco deficiente», disse. Para Roberto Maciel, ainda há muito trabalho a fazer a este nível. «À medida que existe muita informação disponível, a população começa a adoptar mais essas atitudes».

Envolvimento do Governo é muito importante

O responsável acredita que «o envolvimento do Governo é muito importante porque um povo que tem saúde é um povo mais produtivo. Temos o exemplo dos países escandinavos, em que um número de faculdades de medicina dentária fechou porque atingiu o nível zero de cárie dentária», exemplificou.

Todavia, no que respeita, à área da reabilitação oral, Roberto Maciel considera que o nosso país «atingiu um nível altíssimo, de qualidade técnica, sobretudo a partir da inserção da tecnologia».

Roberto Maciel é da opinião que «eventos como este provocam uma inquietação nos médicos dentistas e, como tal, leva-os a procurar alcançar o mesmo nível de outros países».

O médico referiu ainda que, neste momento, está a efectuar um trabalho, desenvolvido no Canadá e nos Estados Unidos da América, sobre stress e depressão. «Bruxismo é o acto de enrijecer os músculos mas está associado à depressão, ao distúrbio do sono, ansiedade patológica», explicou. «Vamos começar a mostrar este trabalho a outros países a partir de Portugal. Vamos começar a trazer pessoas de outros países», divulgou. De acordo com o interveniente, o ensino da medicina dentária deixa muito a desejar, não só aqui mas na maioria dos lugares. «Na Europa, a medicina dentária já tem um peso negativo porque o indivíduo faz primeiro a medicina geral. E isso já oferece alguma deficiência», afirmou. De qualquer forma, «os congressos são importantes porque existem discussões com rigor e suportes científicos de outros centros. De modo que esta discussão provoca o crescimento. É importante que haja outras iniciativas deste nível porque quem ganha é a população», opinou.

Enquanto decorriam as conferências, a Agência de Inovação (AdI), em colaboração com a organização, preparou um conjunto de reuniões com base num catálogo de ofertas e procuras de tecnologia, em que os participantes, médicos ou entidades ligadas ao sector, apresentaram as suas novidades ou os projectos em que têm interesses ou competências, e procuraram parceiros – de negócio, para transferência de tecnologia, ou para o desenvolvimento de novos projectos de investigação e desenvolvimento.

«Nesse contexto, nós organizamos este “casamento” entre procuras e ofertas, trabalhando igualmente a nível internacional no âmbito de uma rede europeia, a Europe Network, que cobre 41 países e na qual Portugal é representado, na parte de investigação e desenvolvimento, pela Agência de Inovação», explicou Bibiana Dantas, coordenadora da AdI.

Aposta na área médica é forte

A agência apoia não só a área da medicina e da bioengenharia mas também outros sectores. Contudo, «a área médica é uma área em que temos estado a apostar», salientou Bibiana Dantas.

Esta rede trabalha em permanência, uma vez que existe uma base de dados de ofertas e procuras de tecnologia permanentemente online que pode ser consultada no website www.bolsatecnologia.pt e que tem ofertas nesta e noutras áreas. «Trabalhamos permanentemente, contactamos investigadores, empresas, e promovemos esta ligação no âmbito internacional», explicou.

O balanço da presença na I International Conference on Biodental Engineering é positivo, segundo a responsável: «neste momento, temos cerca de 20 reuniões agendadas, o que nesta área penso que é bom porque não é muito vulgar este tipo de iniciativas em paralelo. No cômputo geral, temos tido muito sucesso». Adiantou também que «por exemplo, estivemos nas Jornadas de Inovação na FIL, em Lisboa, e organizamos cerca de 120 reuniões no âmbito de tecnologias de informação, energia solar e desenvolvimento sustentável».

Como adiantou a coordenadora, «este tipo de trabalho ocorre durante todo o ano. Temos, neste momento, o catalogo online que é consultado a nível nacional e também internacional. Existem ainda parceiros locais que fazem a divulgação da informação aos seus contactos. As pessoas vêem o catálogo, manifestam interesse, encontram tecnologias que lhes interessam ou então procuram para as quais têm competências a nível científico, tecnológico ou industrial para responder, enviam essa informação, e nós colocamos os parceiros estrangeiros e portugueses em contacto», explicou. A partir daí desenvolvem-se as negociações.

AdI apoia “internacionalização”

A agência dá também apoio a empresas que se queiram estabelecer num país estrangeiro, que necessitem de informação sobre legislação ou como encontrar parceiros locais para desenvolver negócios. Na área médica, ainda são recentes estas questões. «Há mais interesse no desenvolvimento de projectos de investigação, na ligação às universidades. Na área das empresas que têm serviços médicos existe interesse, mas obviamente que são níveis diferentes», afirmou. Até porque «cada sector tem interesses distintos», conclui.

Nestes últimos anos, Bibiana Dantas admite que se nota uma evolução significativa da proximidade entre as empresas e as universidades. «Estas também se posicionam de uma forma diferente para garantir que os seus trabalhos possam ter futuro e fazerem ligação ao mercado». No seu entender, a investigação que fica na gaveta tem os dias contados. «Se as universidades, que hoje em dia também têm orçamentos muito mais limitados, querem continuar a prosseguir os seus trabalhos de investigação, obviamente que se têm de manter mais ligadas a quem depois vai dar continuidade no mercado às suas investigações».

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