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Entrevista: “Ainda somos considerados por muitos o parente pobre da Medicina”

Entrevista a Ana Moura Teles, Médica Dentista, Figura do Ano na Área da Endodontia nos Prémios Saúde Oral 2015

 

Em criança qual a profissão que queria seguir?

Alguma da área da Saúde. Sempre tive a preocupação do bem-estar dos outros. Quando alguém se magoava, gostava de tratar das feridas…

O que a levou a optar pela medicina dentária?

O exemplo do exercício desta profissão por parte do meu avô, Armando Vieira Teles, estomatologista que exerceu na zona de Aveiro (Ílhavo). O que o satisfazia era ajudar os doentes, sem olhar a meios. Quando entrei para Medicina Dentária no Porto, a ideia era voltar a Lisboa, onde vivi até aos 18 anos e permutar para Medicina. Entretanto comecei, literalmente, a apaixonar-me pelo curso, compreendendo a abrangência de intervenção que lhe é inerente. Não há dúvidas de que somos uma orquestra: há que saber ler uma pauta musical (fazendo um exercício generalista de identificação do problema e reencaminhamento para o colega mais indicado para executar a terapêutica), mas temos de ser muito bons a tocar um instrumento! Ou seja, dedicarmo-nos a uma especialidade (ainda que nem todas sejam, em Portugal, reconhecidas), procurando acompanhar a evolução, fazendo o seu exercício com base na evidência científica e clínica.

A nível profissional, qual o episódio que mais a marcou?

Ter conseguido publicar um artigo no Internacional Journal of Endodontics! Foi o corolário de uma experiência fabulosa que me fez crescer enquanto pessoa e como profissional. Tenho uma dívida de gratidão eterna para com toda a equipa da Universidade Fernando Pessoa, que me tornou possível a concretização do projeto de Doutoramento.

Tem algum lema de vida?

Procurar saber estar e saber ser nas diversas situações pessoais e profissionais, bem como nos desafios que vão surgindo. Para isso tenho de estar bem comigo mesma, para me poder dar aos outros!

A nível profissional, do que mais se orgulha e do que mais se arrepende?

Na altura em que me formei (1998) havia muito a ideia (e se calhar ainda persiste nalgumas mentes) de que o médico dentista é rico e “farta-se de ganhar dinheiro”. A realidade é que somos, ainda, considerados por muitos o parente pobre da Medicina (e creio que essa é uma das razões para a não inclusão no SNS desta área). Por outro lado, a situação económica nacional vigente é bastante diferente. Portanto, orgulho-me de ser uma privilegiada por exercer atividades que adoro (clínica e docência) e conseguir viver disso. Arrependo-me de não ter conseguido fazer, de uma forma continuada, investigação (fiz o Mestrado em 2002 e só recomecei a pesquisar em 2010), pois estive no “estaleiro” por motivos de saúde diversos.

Não sai de casa sem…

A prótese auditiva e o processador do implante coclear!

Qual o seu maior vício?

Os meus filhos! E aprender!

Qual a palavra que melhor a descreve?

Voluntariosa.

Projetos para 2015?

Continuar a fazer o tudo que esteja ao meu alcance para dignificar a Endodontia! Porque acredito mesmo que funciona!

O que falta no sector da medicina dentária em Portugal?

Maior sinergia entre colegas. Quando todos compreendermos e percebermos o quão é bom trabalhar em equipas multidisciplinares, temos tudo a ganhar!

Artigo publicado na edição de julho/agosto de 2015 da revista SAÚDE ORAL