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“Estamos a assistir à uberização dos dentistas”

“Estamos a assistir à uberização dos dentistas. Quem não apanhar o comboio vai ficar pelo caminho”. A afirmação é de Miguel Stanley, médico dentista e diretor clínico da White Clinic [1], que em entrevista ao Diário de Notícias defende um acompanhamento das tendências do setor e uma atualização diária dos profissionais de medicina dentária para oferecer “um bom tratamento” aos pacientes.

Em breve, o médico dentista vai lançar um livro que tem estado a preparar há já dois anos e que pretende colocar na agenda um tema que, na sua opinião, é da maior importância. “Porque é que a boca não faz parte do corpo? (…) Os problemas de boca são secundarizados e os médicos dentistas são em tudo considerados diferentes (menores?) de qualquer outro especialista. Quando temos problema nos olhos não operamos só 10% de cada vez porque é mais fácil, para o seguro cobrir… mas com os dentes fazemos isso. Quão errada esteve a evolução da medicina para pensarmos assim? Como é que pensamos desta forma sobre a única parte do nosso corpo que está em contacto com bactérias e o osso que produz a medula?”

Ao jornal o médico dentista diz também não entender porque é que se separou as escolas para dentistas das escolas dos restantes médicos. “Hoje há 780 faculdades e esta é uma indústria de 480 mil milhões anuais que conta com 2,2 milhões de dentistas para os 7 biliões de pessoas que há no mundo. E com profundas diferenças. Por exemplo: o tempo médio de consulta no Serviço Nacional de Saúde inglês é de 15 minutos, mas é também esse o país onde mais se processam dentistas. Há interpretações totalmente diferentes a 50 metros de distância.”

Miguel Stanley diz também que existe lugar para todos no mercado e revela que “não vejo problema nenhum, por exemplo, em que a Dr. Wells, da Sonae, tenha dentistas [2]. É o maior grupo económico do país, podem aguentar-se pacientemente os primeiros anos mantendo a qualidade… E não vejo os 10 mil dentistas que há em Portugal a resolver os problemas de todos os portugueses, porque têm de ganhar dinheiro.”

O médico dentistas acrescenta ainda que se um dentista privado é caro e inacessível a muitos, no SNS há poucos e com incríveis listas de espera”. Para além disso, defende que o cheque-dentista “é pôr um penso rápido numa artéria rasgada. Com mais de 1 milhão de pessoas a sofrer dos dentes em Portugal, o cheque-dentista não vai ajudar nada, 35 euros fazem o quê por uma pessoa que tem 32 dentes? Cada um deles com uma componente física, mecânica, estética e biológica… No mesmo dente pode ter de se fazer cinco intervenções distintas. É essa a minha guerra: tem de haver mais sinergias, em vez de se encarar todos os outros como concorrência. Nas faculdades não treinam os dentistas para serem humanos, só os ensinam a ser técnicos e eles nem têm ideia do que se gasta em material, fornecedores, recursos humanos, etc. Não sabem fazer a relação entre custos e necessidades de receita. E nem sequer há benchmarking (…). É preciso mudar mentalidades, convencer os dentistas a doar tempo para ajudar as comunidades.”

Miguel Stanley refere, por fim, que acredita que a tecnologia é o caminho para a evolução da profissão. “Recentemente escrevi um artigo sobre o dentista 4.0, como a tecnologia vai ajudar a mudar tudo – da parte laboratorial ao custo de fazer uma coroa de cerâmica, por exemplo, que em vez de levar oito horas de trabalho de um técnico, feito dente a dente, pode ser feita por um robô em metade do tempo e a custar metade. E isto já acontece: fi-lo na minha clínica na semana passada, um trabalho totalmente planeado no computador, em 3D, com as facetas fabricadas por um robô. É um trabalho de 35 mil euros (30 dentes). O laboratório que faz isto só trabalha com 250 clínicas no mundo inteiro. E isto é ótimo para o paciente, porque é mais rápido e o custo há de baixar nos próximos anos; e se alguma faceta se partir, é só imprimir uma nova, em qualquer parte do mundo, porque o ficheiro é digital.”