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Fobia Dentária: Comunicar para evitar o medo

Fobia Dentária: Comunicar para evitar o medo

O medo de ir ao médico dentista é relativamente frequente, sendo que uma das consequências, para o paciente, é evitar a consulta, com os perigos que esta atitude acarreta para a sua saúde. O médico dentista deve ter consciência desta fobia e, para tentar preveni-la, deve procurar estabelecer uma boa relação com o doente, recorrendo, para tal, às boas práticas de comunicação.

É relativamente frequente encontrar certos medos associados aos profissionais de saúde. Por exemplo, o medo de agulhas personificado, sobretudo, na profissão de enfermeiro. Mas a de médico dentista também não está isenta deste tipo de constrangimentos.

O estudo “Ansiedade ao tratamento odontológico em atendimento de urgência”, levado a cabo pelo departamento de Estomatologia da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, Brasil, publicado na “Revista Saúde Pública vol.37 N.º 6”, em 2003, teve como objectivo avaliar a frequência de pacientes com ansiedade ou medo do tratamento dentário num sector de urgência.

Na pesquisa participaram 252 pacientes, com 18 anos ou mais, que compareceram na urgência de uma faculdade de Medicina Dentária, de São Paulo, entre Agosto e Novembro de 2001, sendo que para avaliar a ansiedade, foram utilizadas a Modified Dental Anxiety Scale (MDAS) e a Escala de Medo de Gatchel.

O grupo estudado respondeu a questões sobre: tempo decorrido desde a última visita ao médico dentista e desde o início dos sintomas, escolaridade, rendimento familiar e história prévia de trauma.

Os investigadores identificaram 28,2% de indivíduos com algum grau de ansiedade, segundo a MDAS, na qual as mulheres foram consideradas mais ansiosas do que os homens; e 14,3% de pacientes com um grau elevado de medo segundo a Escala de Medo de Gatchel.

Em 44,4% dos indivíduos que constituíam a amostra a demora para procura de alívio dos sintomas foi menor a sete dias. Mulheres ansiosas procuraram atendimento mais rapidamente e em maior número. Experiência traumática anterior ocorreu em 46,5% dos pacientes ansiosos. Não foi possível relacionar escolaridade e rendimento familiar com ansiedade e/ou medo.

Para além de concluírem que os doentes ansiosos, com destaque para as mulheres, são frequentes no atendimento dentário de urgência, os investigadores também se aperceberam que a experiência prévia traumática mostrou-se importante para o desenvolvimento da ansiedade em relação ao atendimento dentário.

De acordo com a médica dentista Lúcia Kfouri, num artigo publicado no site Saudetotal.com.br, «o tratamento dentário sempre causou muito medo às pessoas», visto que o «equipamento, os instrumentos, os aparelhos usados antigamente causavam, no mínimo, um grande desconforto ao paciente, isto, sem dizer na dor, propriamente. Não havia agulhas descartáveis. As utilizadas precisavam ter grosso calibre para poderem suportar as diversas vezes que eram desinfectadas. Ao se aplicar uma anestesia com uma agulha destas é evidente que se traumatizava mais do que o necessário. Para uma cavidade ser aberta, usava-se a caneta de baixa rotação e esta só funcionava bem sob pressão. Além da força, o paciente sentia também o trepidar até mesmo da cabeça toda. Um horror!».

Portanto, este medo do profissional de saúde oral é, provavelmente, tão velho como a própria profissão e está de tal forma enraizado, que os avanços tecnológicos ainda não foram suficientes para o exterminar. Por outro lado, não se pode esquecer a parte humana e é preciso apostar na relação entre o médico dentista e o paciente.

Fobias
 
A designação fobia «deriva do grego phobos que significa medo, temor, terror, emoções que eram suscitadas pela divindade grega com o mesmo nome». Na prática clínica, «as perturbações fóbicas são quadros clínicos pertencentes ao grupo maior das perturbações mediadas pela ansiedade e incluem diversas categorias, entre as quais a fobia social, a agorafobia (geralmente associada à perturbação de pânico) e as fobias simples, entre as quais se inclui a fobia dentária», dizem António Macedo, regente da unidade curricular Comunicação e Técnicas Relacionais em Saúde do Curso de Mestrado Integrado em Medicina Dentária da Universidade de Coimbra (UC), e Ana Telma Pereira, docente do Instituto de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da UC, acrescentando que «estas fobias simples envolvem um medo de um contexto ou objecto específico, tal como medo das alturas, do escuro, de cobras e médicos dentistas».

É preciso salientar, contudo, «que existem medos normais e medos patológicos, como é o caso das fobias. O que diferencia o normal do patológico, é que este último tem determinadas características que são: um medo desproporcionado em relação à situação que o cria; não pode ser explicado ou diminuído pela argumentação racional; encontra-se fora do controlo voluntário; e conduz ao evitamento da situação temida».
De acordo com os docentes, o medo e ansiedade sobrepõem-se. Não obstante, reiteram «que existe medo e ansiedade normais, que são úteis e funcionam como mecanismos de sobrevivência do indivíduo e que são adaptativos ao seu ambiente e medos e ansiedade que são patológicos. Estes últimos, pelo contrário são fonte de sofrimento subjectivo e são desadaptativos».

Fobia dentária

A fobia é então uma perturbação de ansiedade, «podendo manifestar-se por toda uma multiplicidade de sintomas ansiosos». Os investigadores exemplificam: «sintomas cognitivos de ansiedade (apreensão, sentimento de temor ou antecipação de perigo, sensação de alerta, dificuldade de concentração), sintomas motores de ansiedade (aumento da tensão muscular, impaciência, actividade agitada) ou sintomas vegetativos de ansiedade (tremores, palpitações, boca seca, opressão torácica, sudação, tonturas, náuseas, “nó na garganta”, etc.)».

No caso das fobias simples e especificamente a fobia dentária (FD), «estes sintomas só ocorrem quando o indivíduo está próximo fisicamente do objecto ou situação temidas ou se pensa sobre isso». No caso particular da FD, a pessoa, de acordo com António Macedo e Ana Telma Pereira, começa a ficar ansiosa quando se começa a aproximar do gabinete dentário ou quando pensa que tem de ir ao médico dentista e se imagina na cadeira. No fundo, quando está em presença física (ou em imaginação) de qualquer estímulo relacionado com os tratamentos dentários.
Os investigadores explicam, à Saúde Oral, que a génese das fobias pode ocorrer «por um mecanismo de condicionamento clássico em que se dá a associação entre uma experiência negativa (por exemplo um tratamento doloroso) e um objecto inicialmente neutro, mas que passa a ser fóbico (por exemplo o médico dentista)». Uma vez condicionado o medo, «este vai manter-se por um comportamento de evitamento ao estímulo fóbico que leva à redução da ansiedade». Os estudos referem que os factores mais frequentemente apontados pelos doentes, como implicados na génese das fobias são «eventos traumáticos, na forma de um acontecimento isolado ou múltiplos (por exemplo, ter sido sujeito a tratamentos muito dolorosos); e o comportamento do próprio médico dentista, em termos da comunicação negativa que estabeleceu e foi sentida pelo doente como altamente insatisfatória». Não obstante, é salientado outro factor importante, relativo à aprendizagem. «Pode aprender-se a ter medo, não por experiência pessoal do medo, mas vendo outras pessoas ter medo». Segundo António Macedo e Ana Telma Pereira, vários estudos apontam que «uma atitude negativa e ansiedade relativamente aos cuidados dentários, podem ser transmitidos à criança, por outras pessoas, a começar pelos pais».

Evitar a consulta

Aquilo que é designado por “ansiedade relacionada com os tratamentos dentários” «constituiu um continuum de manifestações que vai desde um extremo mais ligeiro, ao extremo mais grave que é a fobia dentária propriamente dita». Os professores citam o estudo de Getka e Glass (1992), onde é revelado «que 80% dos adultos sentem alguma apreensão relativamente aos tratamentos dentários, 20% destes adultos “apreensivos” são altamente ansiosos e 5% evitam completamente os tratamentos dentários». Estas manifestações podem constituir um problema sério na medida em que são relativamente comuns. Por exemplo, «nos Estados Unidos da América, na população adulta, a ansiedade relativa a tratamentos dentários, ocorre em 5% a 30% dos indivíduos. Na população infantil as taxas dos vários estudos também variam, mas apontam para valores mais baixos que os adultos, na ordem de 5% a 20%». E uma pesquisa, também referida pelos docentes, levada a cabo na Holanda (ten Berge et al, 2002) reporta valores de 6% na população infantil holandesa.

Concluindo, na prática, as consequências principais da fobia dentária «resultam dos comportamentos de evitamento ou adiamento dos cuidados dentários, que são susceptíveis de levar a uma deterioração mais ou menos séria da saúde oral e constituir uma barreira para os adequados cuidados de saúde dentária».

Como agir

Para António Macedo e Ana Telma Pereira, o médico dentista «deve reconhecer que o problema da ansiedade/medo relacionado com os cuidados dentários ocorre numa proporção substancial da população». Uma vez que «só diagnosticamos aquilo que conhecemos, por isso, o médico dentista deve ter tido formação específica e os conhecimentos suficientes para reconhecer, no seu consultório, os sinais/sintomas de ansiedade».

Depois de reconhecer o problema, o profissional de medicina dentária deve usar «uma ou mais técnicas adequadas para reduzir a ansiedade evocada pelos tratamentos dentários», sublinham, acrescentando que «a correcta formação do médico dentista na aquisição de conhecimento nesta área bem como na aquisição de competências práticas de lidar com o problema, tem sido para nós na Escola de Coimbra uma prioridade». Neste sentido, «os alunos para além de adquirirem conhecimento na área da psicopatologia, nomeadamente da ansiedade e fobias, têm aulas práticas de treino de técnicas de relaxamento, tais como o relaxamento muscular passivo, relaxamento muscular progressivo de Jacobson ou técnicas de relaxamento de cariz mais cognitivo, que os capacita a lidar com os problemas de ansiedade no gabinete dentário».

Porém, segundo os docentes, «o melhor tratamento é a prevenção» e como um dos factores implicados na génese das fobias dentárias é «uma deficiente relação entre o médico e o doente, a aplicação de todas as boas práticas de comunicação contribui para a prevenção deste problema».

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