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Gil Alcoforado: Devemos criar condições para as crianças não necessitarem de extrações

Gil Alcoforado: Devemos criar condições para as crianças não necessitarem de extrações

Durante a apresentação do MIS Implantology Research Project, Gil Alcoforado, da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, sublinhou à SAÚDE ORAL a importância da colaboração entre as faculdades e a indústria que apelidou de responsável. “Nos tempos que vão correndo, com todas as dificuldades que existem, é imprescindível que haja uma colaboração estreita entre a indústria responsável (que dá a liberdade às faculdades de publicarem os resultados, sejam favoráveis ou desfavoráveis) e as universidades”.

Neste estudo em particular, na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa vão ser abordados produtos para aplicação periodontal. “Primeiro havia a possibilidade de fazer dois estudos independentes, um em Coimbra e outro em Lisboa, mas decidimos que seria muito mais interessante fazer, pelo menos na parte clínica, um estudo multicêntrico entre Coimbra e Lisboa. Tem uma força maior e é possível ter um número de pacientes mais elevado”.

Apesar destas parcerias não serem habituais entre faculdades, Gil Alcoforado defende que é desejável que aconteçam pois “só podemos ganhar com isso. Quanto maiores são as dificuldades, mais temos de nos juntar e trabalhar em conjunto porque os resultados aparecerão. Não vejo qualquer entrave em que as pessoas colaborem, antes pelo contrário. Quanto mais colaborarmos uns com os outros melhores e mais rápidos serão os resultados”.

Quando questionado sobre o estado da saúde oral em Portugal, depois de um breve momento de silêncio, Gil Alcoforado confessou que existem vários aspetos que o preocupam: “o número de licenciados que saem formados das várias faculdades e que vão à procura do primeiro emprego e não conseguem. É algo que me preocupa muito. Se pensarmos a nível das universidades públicas, é o erário público que está a ser utilizado para formar pessoas que depois têm de ir trabalhar para outro país, que fica naturalmente satisfeito porque não gastou dinheiro e tem um excelente profissional”. Quanto às faculdades privadas “na maior parte das vezes são os pais ou os próprios alunos que têm de trabalhar para pagar a sua preparação e depois de muitos sacrifícios chegam ao fim do curso e dão conta que não têm onde praticar a sua profissão. Em tempos de maior crise, a população diminui a possibilidade de procurar departamentos dentários e isso faz com que a falta de trabalho aumente mais. É uma das coisas que me preocupa pois não vejo, a nível estatal, nenhuma movimentação para resolver este problema”.

Outro problema está relacionado com a prevenção da saúde oral. “Vejo como muito deficitário o estabelecimento de prevenção oral primária e que devia ser, na minha perspetiva, a prioridade estatal número um. O cheque dentista veio colmatar algumas lacunas, mas se observarmos o número da utilização desse cheque dentista, a nível das crianças há um enorme número de extrações feitas nos mais novos. Não estou a dizer que não são necessárias, mas devemos criar condições para que as crianças não necessitem de extrações. Isso só se consegue a nível da prevenção primária. Temos de ir às escolas ensinar a lavar os dentes”.

E dá como exemplo o trabalho feito em parceria com a Mundo a Sorrir, numa escola da Parede. “Conseguimos baixar num único ano os níveis de placa bacteriana em quase 70%. Os responsáveis da Câmara Municipal de Cascais ficaram tão entusiasmados que este ano estenderam o projeto a 11 escolas, ou seja, escovagem com pasta fluoretada a seguir ao almoço e vigiada pelos professores”.

Um investimento mínimo, com bons resultados. “A Câmara de Cascais não gastou muito mais de mil euros e nós damos o nosso trabalho pró Bono. Aí a nossa profissão é extraordinária porque às vezes, de um dia para o outro, são necessários dois ou três voluntários para irem a uma escola e aparecem quatro ou cinco. É algo que me emociona porque são de uma abnegação extraordinária”. E recorda: “Na Noruega chegou-se à conclusão que não havia dinheiro para tratar os dentes das crianças, então colocaram um dentista em cada escola para fazer a higiene oral e fluoretação. Em poucos anos as crianças até aos 16 anos deixaram de ter cáries, deixaram de necessitar de restaurações, tão simples como isso. É uma maneira barata e eficaz de resolver este tipo de problemas a nível das crianças e dos adultos. A escovagem e o flúor são duas armas potentíssimas e que devem ser divulgadas. Parece tudo muito básico e por isso as pessoas não lhes dão o devido valor”.

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