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Entrevista

“Googlar não é uma solução em medicina dentária”

Cláudia Barbosa horizontal

Fala com os olhos e de sorriso aberto. Sobretudo quando se fala da sua maior paixão: o ensino. Cláudia Barbosa, vencedora do Prémio Figura do Ano na Área de Oclusão nos Prémios Saúde Oral 2014, é professora de alma e coração. É responsável pela disciplina de Oclusão Dentária e Motricidade Oral do Mestrado Integrado em Medicina Dentária da UFP-FCS desde 2005 e, admite, só se vê a ensinar. “Até nas consultas ensino”, admite. No entanto, confessa que hoje os alunos carecem de uma sólida base médica que lhes dê maturidade para olhar para um doente da medicina dentária como um todo. Para além da memória. E Googlar não é opção em medicina.

Foi distinguida com o Prémio Figura do Ano na Área de Oclusão nos Prémios Saúde Oral 2014. O que representa para si esta distinção?

É óbvio que é sempre uma surpresa. Estou a projetar a minha carreira, a fazer o meu doutoramento pelo que nesta altura é sempre bom um estímulo como este. Veio, sem dúvida, dar-me ânimo. Até porque esta é uma área em que não há muita gente a trabalhar. A área da oclusão é procurada por quem tem dor, não por uma razão de estética. E, hoje em dia, a grande procura nos cuidados dentários é a estética. Ou seja, como a oclusão se trata de uma área cuja procura é por dor e a prevalência de indivíduos que sofre deste tipo de problemas é baixa, acabamos por lidar com um mundo muito pequenino de pessoas, logo não há muita gente dedicada.

O que a levou a optar por medicina dentária? E porquê a área de oclusão?

Porque é uma área muito médica. É uma área que está muito relacionada com comportamentos bio-psíquico-sociais. Ou seja, tem a ver com o indivíduo e com a forma como ele lida com a doença, com o problema. Como tem este aspeto psicológico ligado à doença e uma parte médica associada à doença acaba por ser um subgrupo, mais médico, dentro da medicina dentária. Acho que é por isso que as pessoas não gostam tanto…

Mas no seu caso…

No meu caso foi precisamente isso que me cativou! Foi essa vertente médica… e basicamente porque gosto de sentir que ajudo as pessoas a um nível mais direto. Admito que não me reconforta tanto a parte estética, mas mais a parte psíquica e biológica. Na verdade gosto muito de pessoas.

“Comecei pela área da prótese, mas ninguém na faculdade onde realizei o mestrado gostava deste tipo de doentes, porque habitualmente são complexos, e acabavam por os canalizar todos para mim… E acabei por me apaixonar por esta área.”

A estética para esta área é secundária?

Muitos dos nossos tratamentos até os chamamos de bio-estética. Nesta área, a estética surge procurando a função. Ou seja, esta área tem muita preocupação da função. Mas olhe que naturalmente a estética surge porque não há função sem harmonia.

Hoje é impossível não olhar para a vertente estética, até pelo impacto que tem na qualidade de vida e autoestima do doente?

Claramente. Esta área da oclusão é dividida em duas partes: a disfunção temporomandibular e dor orofacial e uma parte que é a reabilitação oral. A disfunção temporomandibular e dor orofacial traz às pessoas as limitações funcionais que têm no dia-a-dia, os desconfortos. A reabilitação oral, associada às disfunções, procuramos obviamente a estética. Mas admito que quem sofre liga menos à estética, na verdade o que procura mesmo é sentir-se confortável consigo próprio. Mas no universo das mulheres, a estética acaba sempre por ser muito importante.

As mulheres são mais suscetíveis, naturalmente, à vertente da estética?

Claramente, é uma característica, um fator psicológico.

Como é que encara o ensino em Portugal, sobretudo nesta área?

Na verdade, esta área em termos internacionais tem muito pouca notoriedade, por exemplo em termos de publicações. Estou a fazer o doutoramento nesta área e digo-lhe que é muito difícil. Tive de ir a um nicho muito particular de idades, aos universitários porque é um grupo a que tenho mais acesso. Depois, como já referi, como não é uma área muito estética acaba por ter pouco apoio das instituições. É muito difícil fazer estudos bem parametrizados. Por isso, em termos internacionais, temos muito pouco impacto. Ou seja, os portugueses, lá fora, têm pouca visibilidade.

Mas a sua tese de mestrado foi na área da reabilitação oral, com o tema “Desgaste Dentário e Prótese Removível”.

Sim, comecei pela área da prótese, mas ninguém na faculdade onde realizei o mestrado gostava deste tipo de doentes, porque habitualmente são complexos, e acabavam por os canalizar todos para mim… E acabei por me apaixonar por esta área. Gosto de falar com pessoas e de as motivar. Esta área tem muito de “coaching”, de ensinar, de educar. Sem ensinarmos as pessoas, sem as educarmos, sem elas perceberem o que têm não mudam o seu comportamento. Porque tudo isto tem muito a ver com o comportamento das pessoas.

Cláudia Barbosa - vertical

Cláudia Barbosa, Professora de Oclusão Dentária e Motricidade Oral do Mestrado Integrado em Medicina Dentária da UFP-FCS

Conhecendo o problema que têm, as pessoas conseguem mudar de atitude?

Sim. E sabem que fazendo isto ou aquilo podem melhorar o problema. É preciso ser proactivo.

E normalmente quais as grandes alterações que as pessoas, classicamente, têm de fazer, nomeadamente os portugueses?

Os hábitos orais. Nesta área não temos ainda prevenção. E os hábitos de mascar pastilha elástica, roer unhas, que muito precocemente podem intervir nos problemas, podem ser travados. Relativamente à questão da própria oclusão dentária, a própria engrenagem dos dentes e correção dentária continua a ser muito polémica a sua relação.

Estão na tese, foi o tema a vir ter consigo e não ao contrário…

Exatamente. Porque o mestrado era de reabilitação oral, de tratamento de pacientes. E o desgaste dentário é algo muito frequente em pessoas que rangem os dentes, uma das áreas da oclusão e um dos problemas. Fiz o tratamento de pacientes que tinham elevada taxa de desgaste e o tratamento protético desses pacientes. Ou seja, reconstituição dentária… fui mais pela parte da oclusão dentária, estética. Comecei por aí, mas acabei nos problemas das dores articulares, musculares, de cabeça, cefaleias… fui parar mais à área da disfunção e da dor. Hoje em dia é a minha área aqui na faculdade.

É responsável pela disciplina de Oclusão Dentária e Motricidade Oral do Mestrado Integrado em Medicina Dentária da UFP-FCS desde 2005. Como surgiu a oportunidade de enveredar pela carreira de docente?

Nunca larguei o ensino. Entrei como monitora na faculdade onde tirei o mestrado e depois vim para a Universidade Fernando Pessoa dar aulas. Agora, finalmente – depois da fase dos filhos! – estou na fase do doutoramento, que devo terminar no próximo ano de 2015.

O que tenta passar aos seus alunos? O que é mais importante transmitir-lhes? Hoje os alunos são diferentes…

Sim, aliás eu noto diferenças em relação à época em que comecei a lecionar, há 12 anos.

“Googlar não é uma solução em medicina dentária. Eles têm de perceber que têm obrigatoriamente que assimilar uma série de conteúdos simples e que depois têm, sobre tudo aquilo que virem, de ser capazes de triar. Esse é o maior desafio.”

O que é que mudou?

Comecei por lecionar conteúdos. Neste momento, o meu objetivo é que eles consigam triar conteúdos. Consigam eles próprios, com tanta informação que têm ao seu dispor, perceber o que é certo ou errado. Que, de resto, é um dos problemas das áreas médicas. A área médica não é escrever uma coisa sobre História que esteja errada. É atuar sobre pessoas de forma errada, que tem um impacto muito diferente. E eles têm muita dificuldade em reter conhecimento. Aquele ensino em termos de memorização não existe. E na medicina é necessário. É preciso ter os conteúdos guardados no momento para atuar. Googlar não é uma solução em medicina dentária. Eles têm de perceber que têm obrigatoriamente que assimilar uma série de conteúdos simples e que depois têm, sobre tudo aquilo que virem, de ser capazes de triar. Esse é o maior desafio.

Mas hoje os alunos não memorizam?

Têm muita dificuldade, não estão habituados. Não estão treinados. Ligam o telemóvel, acedem à internet e já está. Mas para o diagnóstico a medicina precisa dessa memorização. Para fazer um diagnóstico há que ter uma série de conceitos muito bem alicerçados. É isso que tento: dar conceitos bem alicerçados do que é básico. E depois, olhe, que ganhem alguma maturidade no sentido de serem capazes de rastrear a informação que lhes chega, que é um mar…

Hoje, como analisa a medicina dentária em termos de ensino. Há demasiadas faculdades a lecionar?

É uma dualidade de sentimentos relativamente ao ensino. Porque, hoje me dia, foi dado às pessoas o direito de terem sonhos e de os verem concretizados. Ou pelos menos de os tentarem concretizar. E o poder escolher um curso, uma formação e seguir essa profissão é um deles. A verdade é que atualmente os alunos, muitas vezes, acabam por fazer a formação e não irem trabalhar na área para que estudaram. E a medicina dentária não foge à regra.

Hoje como vê o mercado. É verdade que as pessoas atualmente têm muito mais cuidado com a sua boca, há muita mais formação e informação nesse sentido.

Há. E Portugal estava a crescer, as pessoas estavam a ir muito mais ao dentista, já investiam. Mas agora estagnou. O que se estava a conseguir fazer, mesmo em termos de programas, parou. Perdemos o que estávamos a conquistar. As pessoas criaram a necessidade de ir ao médico dentista, que não havia, e agora…. nota-se isso claramente.

O que mudava no ensino? O que claramente devia ser mudado no ensino desta área, em Portugal?

Sou muito “velha escola”, muito “velho do Restelo”. Portanto acho que alguns conceitos clássicos deviam ser mantidos. Não podemos deixar de formar pessoas com base médica. Não podemos ter técnicos de estética, pessoas que vão fazer cursos xpto, cheios de novas tecnologias – é óbvio que são necessárias e ainda bem que existem – e esquecer o bê-a-bá.

 Aqui não está em causa o uso das novas tecnologias, vieram melhorar imenso a qualidade, mas não podemos esquecer a base.

Devia continuar a haver um tronco comum de medicina e só depois a opção por dentária? Como antes?

Sim, acho que faz falta. Faz falta uma base médica que dê maturidade médica para olhar para um doente da medicina dentária como um todo. Claro que isso exigiria em termos institucionais um peso muito grande.

“Não podemos deixar de formar pessoas com base médica. Não podemos ter técnicos de estética, pessoas que vão fazer cursos xpto, cheios de novas tecnologias – é óbvio que são necessárias e ainda bem que existem – e esquecer o bê-a-bá.”

E o que é que Bolonha veio aportar a tudo isto?

Veio reduzir claramente o tempo de preparação técnica do aluno. Em Portugal tínhamos um ensino muito diferente do resto da Europa. Quando me licenciei tínhamos uma quantidade de abordagem clínica muito grande, o que era excelente. Uma abordagem que hoje os alunos não têm. Isso tem de ser substituído pelas pós-graduações e pelos cursos. E as instituições de alguma forma têm de suportar isso por forma a permitir às pessoas, do ponto de vista técnico, terem um maior contacto com os pacientes.

A obrigatoriedade dos estágios poderia ajudar?

A forma mais fácil de balizar seria que um processo desses passasse pela Ordem e pelas instituições de ensino. Porque a vantagem de estar no mercado e estar ligada a uma instituição de ensino é que assim eu estou sempre em formação. Contínua e continuada. Estamos sempre a transitar os conhecimentos, que são dinâmicos. Mas há muitos colegas que não o fazem, que estagnam. E que continuam a dizer “verdades” muito deturpadas, o que é natural. Daí que a realização de estágios externos seria complicado, a não ser que houvesse uma intervenção quer da Ordem, quer das próprias instituições de ensino.

Mas a perda do sexto ano do curso foi grande.

Foi muito grande em termos da quantidade de horas que tiveram de ser cortadas.

Hoje os alunos pensam logo em ir para fora?

Sim. Aliás, a maior parte tem como preocupação sair de Portugal. E começam desde logo a fazer cursos de línguas… Mas há sempre um pequeno grupo que acredita que é possível dar a volta.

Para 2015 já percebi que quer terminar a tese de doutoramento… e depois? Vai estar sempre ligada ao ensino?

Eu irei sempre ensinar, nem que seja no consultório! Acho que tenho espírito de professor, já na faculdade me diziam isso. Gosto que as pessoas fiquem a perceber claramente as coisas, dou aulas nas consultas! E esta área permite-me lidar com pessoas, gerar empatia… claro que gostaria de continuar no ensino. Digo muitas vezes que me pagam para eu me realizar porque realmente adoro ensinar.

Artigo publicado na edição de setembro/outubro de 2014 da revista SAÚDE ORAL

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