Fernando Peres destacou-se “pela defesa da saúde oral e pelo contributo que deu à medicina dentária portuguesa”, pode ler-se no site da Ordem dos Médicos Dentistas, que lhe atribuiu a Medalha de Ouro da OMD em 2007.
João Pimenta
“Mestre, encontramo-nos ali adiante no virar da esquina”. Com estas palavras despedi-me de um grande amigo, de um exemplo de vida pessoal, familiar e profissional. Para mim ele representou um farol, e às vezes um ombro amigo e reconfortante.
Quando um dia tive a ideia de o propor para uma comenda (que recebeu das mãos do Sr. Presidente da República) sabia que o País lhe devia muito. Recebeu a mais alta condecoração não militar (Grã Cruz da Ordem de Mérito). O País homenageou o HOMEM que deu a primeira aula de Medicina Dentária em Portugal e fundou a Escola Superior de Medicina Dentária do Porto. Quando a Assembleia Municipal do Porto lhe atribuiu um voto de louvor por unanimidade, a cidade reconheceu o cidadão e o académico.
Os seus alunos respeitavam-no e admiravam-no. Viam nele o excelente clínico e alguém que nunca escondeu o que sabia, e com todos partilhava. Dirigiu a Faculdade com honestidade e espírito de dádiva, sem nunca ter pedido nada em troca, ou ostentando galões que nem sequer gostava. A Faculdade era a sua segunda casa.
Um dia sonhou em fazer um mestrado de implantologia e expôs-me a ideia. Trabalhamos imenso, mesmo com alguns a olharem-nos de lado. E implementou, juntamente com a nossa equipe e o seu filho (ele também um excelente ortodontista) os implantes ortodônticos. Fomos dos primeiros a realizaressa técnica a nível mundial e o Mestre tinha muita alegria nesse facto.
Partiu sem a sua segunda casa lhe ter prestado a devida homenagem. Ainda enviei uma carta ao seu Presidente dizendo que um doutoramento “honoris causa” seria a justa retribuição do quanto deu à Instituição. Nada foi feito. Mas o Mestre, ali no dobrar da esquina, sabe que a ingratidão faz parte desta vida, e tudo perdoará. O Mestre era BOM.
Descansa em paz Mestre… Encontramo-nos ali, qualquer dia.
PS: Não te esqueças de dar um abraço ao Gonzalez e ao Dias da Silva. E o Bouceiro também te manda dizer:
‘Uma grande figura! E com sentido de humor, coisa que vai rareando nos dias que correm, com tantos cinzentões, que se escondem por detrás de uma capa de seriedade para simplesmente não revelarem a sua completa falta de ideias e de criatividade!’.
Lindas palavras, Mestre.
Manuel Neves
Eu não me despedi como gostaria do Prof. Fernando Peres.
Já não o via há algumas semanas, eu não era dos médicos dentistas mais próximos dele, víamo-nos de longe a longe, o que não quer dizer que não me sentisse dos mais próximos na amizade. E de repente cai-me assim a notícia da sua morte. Ele partiu de repente, ao gosto dele. Ele sempre gostou de tomar decisões rápidas. Sempre frontal, o que tinha a dizer, dizia-o na hora. O que tinha que fazer era para hoje.
Eu gostava do Prof. Fernando Peres e sentia que ele também gostava de mim, e por isso aceitei escrever estas palavras. Podia ter recusado e dizer para pedirem a outros que o conhecessem melhor. Mas não, aceitei porque quando nos encontrávamos, aqui e ali, eu sentia como eram sinceras e amigas as suas palavras: “Olha este gajo! Estás bom Neves? ”E depois toda aquela conversa agradável, cheia de histórias de dentistas, da sua Arouca natal, do seu F.C. Porto (lembram-se da história do” Pavão”?), dos seus estudos de Estomatologia em Paris e dos grandes mestres que ele conheceu, etc.
Primeiro aprendi a respeitá-lo como professor. Ensinava-nos tudo o que sabia e fazia-nos avançar, com aquela vontade do mestre, que se quer ver ultrapassado pelos seus alunos. Depois quando já percebia alguma coisa da profissão, passei a respeitá-lo, também como o grande profissional que era. Mais tarde senti o seu respeito por mim, depois a amizade, (se me permitem que utilize esta palavra) apareceu naturalmente. Temos quase 20 anos de diferença de idades, mas quem o conhecia sabe bem como muitas das vezes era ele o mais jovem à volta da mesa.
Há quem lhe chame o” Pai da Medicina Dentária” portuguesa. Eu não diria o pai, porque seria uma injustiça para outros que trabalharam com ele para a criação desta área médica em Portugal. Mas foi sem dúvida o maior amigo dos médicos dentistas, desde os tempos em que éramos apenas um punhado de profissionais e vozes retrógradas nos queriam empurrar para a valeta das ciências médicas, até ao fim dos seus dias.
A sua partida precoce criou-me um sentimento de profunda tristeza. Mas há dias em Arouca, no último encontro com ele, não chorei porque os sentimentos de respeito e admiração que tinha por ele, associados a saber que foi uma pessoa que deixou marcas muito importantes na sua passagem entre nós, que viveu intensamente e feliz, tornou essa despedida num até já sem lágrimas.
Obrigado Prof. Fernando Peres!
Professor António de Vasconcelos Tavares
Abalado pela recente e inesperada perda do grande Amigo, Fernando Peres, dou público testemunho do profundo respeito, admiração e afeto que inspirou em todos os que o acompanharam. Como colega e seu amigo sinto-me privilegiado por, ao longo de mais de três décadas, ter usufruído do seu convívio humanamente tão rico e academicamente tão inspirador. Estudámos juntos, em Paris, numa pós-graduação que ainda mais consolidaria a nossa amizade.
Ao longo da sua vida reforçou as suas conceções nunca tendo deixado de expressar e demonstrar o seu desvelo pela necessidade de manter viva e elevada a cultura humanista dos mais jovens, alunos e profissionais da sua área.
Honrou a medicina, a universidade e a pátria portuguesa que serviu com inteligência e generosidade, como foi reconhecido por Sua Excelência o Sr. Presidente da República.
Por isso e para sempre, Fernando Peres estará na memória dos seus amigos e fará parte da história da sua Universidade e do Automobilismo português.


