Ninguém duvida que estamos a viver uma das mais graves crises económicas das últimas décadas. Mas agora é mesmo “oficial”. Historicamente, o sector da saúde tem saído relativamente incólume dos momentos de maior aperto que a humanidade tem enfrentado. Porém, a bola de neve que começou com os produtos financeiros tóxicos nos Estados Unidos da América tem arrastado com ela o poder de compra – e de consumo – da classe média de todo o mundo, inclusive de alguns profissionais de saúde, que passaram a ter os seus consultórios mais vazios.
O II Congresso da Sociedade Portuguesa de Estética Dentária (SPED) é a prova “provada”, passe-se a redundância, de que a crise veio para ficar. Ressentiu-se do espectro dos bolsos vazios que ronda a porta de (quase) toda a gente. Realizado no auditório da Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa, o evento científico não correspondeu às expectativas da direcção. Com o seu característico desassombro, Manuel Neves, presidente da SPED, em conversa com a Saúde Oral, revelou prontamente que o encontro foi um flop financeiro. «O congresso foi bastante participado, mas ficou muito aquém daquilo que estávamos à espera. Tivemos um prejuízo bastante grande. Perdemos cerca de 10 mil euros», revelou, justificando: «Um congresso deste nível requer uma sala de qualidade superior no material técnico apresentado, na qualidade dos projectores, que devem reproduzir imagens das reconstruções perfeitas, etc.».
É tudo uma questão de prioridades e de falta de poder económico dos profissionais que começam agora a chegar ao mercado de trabalho. «Há uma retracção do mercado. Esta faz com que os médicos dentistas não venham a este tipo de iniciativas, principalmente os mais jovens, que ainda não têm segurança económica para participar em eventos que, às vezes, não oferecem a qualidade apregoada e que, para os menos abonados, continuam a ser demasiado caros».
Para Manuel Neves, os prejuízos do II congresso da SPED são um sinal dos tempos conturbados em que está submersa grande parte da sociedade. «No estrangeiro, é habitual pagarmos 500 euros pela participação em congressos do nível do nosso. Nós, SPED, ponderámos muito bem o preço das inscrições, e achámos que 100 euros era um preço justo. Porém, nem assim conseguimos reunir os congressistas que pretendíamos… Há uma geração mais antiga que pode pagar aquilo que pedimos, mas 100 euros continua a ser muito dinheiro para os mais jovens…», reitera.
O italiano Stefano Gracis, um dos maiores especialistas em prostodontia e dentisteria estética do mundo, foi a “estrela” maior a brilhar no congresso – deu um curso de reabilitação oclusal que preencheu todo o segundo dia do evento. O médico, por seu turno, não deixou a sua fama de “estrela-conferencista” em mãos alheias e só aceitou vir a Portugal mediante as condições de “diva” previamente apresentadas: cachet “milionário” e disponibilização de um ecrã que correspondesse às suas exigências, para além das despesas de representação (hotel, viagens em 1.ª classe, etc.). Tudo somado, o italiano consumiu a totalidade das receitas angariadas através das inscrições, ou seja, mais de 12 mil euros.
Inexperiência
Manuel Neves explica que não está arrependido de ter trazido o perito italiano, uma vez que o seu curso constitui uma mais-valia para os profissionais portugueses. Admite, porém, que tenha havido «falhas» de comunicação e marketing na divulgação do congresso. «Somos uma sociedade muito recente, ainda pouco afinada na divulgação dos nossos eventos. Contudo, penso também que há certa saturação de iniciativas de congressos. Nós não queremos baixar a bitola de qualidade do nosso e pretendemos que, para o ano, as pessoas venham ao congresso da SPED porque sabem que terão qualidade assegurada».
O responsável admite, porém, que a SPED vai ter de arranjar uma solução que reequilibre as suas contas, estando em equação a realização de «várias acções» em que os oradores apresentem as suas palestras «gratuitamente».
Importância do diagnóstico
Crises à parte, o evento científico contou com as elogiadas prelecções, quer de médicos quer de técnicos de laboratório. O médico José Carracho, que falou sob uma perspectiva clínica acerca das próteses fixas sobre implantes, bateu insistentemente na tecla da importância dos diagnósticos antes de fazer qualquer intervenção, principalmente quando há manipulação de tecidos moles. «Devemos avaliar a situação existente, nomeadamente a parte da ausência dos dentes, mas também do ponto de vista dos dentes que estão ao lado ou aqueles que estão na arcada oponente. Ou seja, devemos avaliar a forma dos dentes, a forma e o biotipo de gengiva, a oclusão, etc.».
No mesmo plano, o especialista sublinhou que é fundamental proceder a uma «avaliação de longo termo», que deve contemplar: «estética, higiene oral, desejo do paciente, custo, capacidade do médico em realizar aquilo que é pedido pelo cliente». Por outro lado, disse Carracho, o dentista deve incentivar o paciente a ter uma correcta higienização dos implantes. «Devemos “obrigar” os pacientes a comparecer às nossas consultas periódicas (de 6 em 6 meses). Devemos fazer passar a ideia da importância capital das mesmas consultas para o sucesso dos implantes. Se as pessoas não se esquecem de fazer a revisão ao carro, porque razão hão-de esquecer de fazer uma “revisão” aos implantes?».
No caso em que já só restam alguns dentes ao cliente, ou nos desdentados totais, o orador explicou que prefere preservar os poucos dentes existentes em vez de extrair os mesmos. «Apesar de sabermos que já existe uma taxa de sucesso muito grande, sabemos também que existem duas situações: ou o doente é desdentado total e vamos resolver o problema com uma prótese removível; ou colocamos uma provisória fixa. Habitualmente, os desdentados totais têm menor disponibilidade óssea, e isso faz com que os tipos de tratamentos que nós fazemos sejam feitos sobre implantes comprometidos pela quantidade de osso, mas também pela falta de qualidade do osso. Neste tipo de situações, sempre que é possível mantemos alguns dentes estrategicamente e só depois procedemos à reabilitação dos implantes. No meu caso, passa sempre por fazer uma prótese provisória».
O orador lembrou ainda que o desejo do paciente «deve ser sempre respeitado». E que o dentista deve ter em conta a capacidade económica do cliente e experiências anteriores, entre outros factores, para não defraudar as expectativas de uma pessoa, que quer obter resultados notórios e que está a contar com o profissionalismo de quem o está a tratar, concluiu.
Após os rasgados elogios do presidente da SPED à sua prelecção, que afirmou que «a brilhante exposição dá garantias de que o futuro da especialidade está bem entregue», Carracho admitiu, com humildade, que os elogios tinham sido um «gesto de simpatia, de uma pessoa muito simpática».
Mais a sério, em conversa com a nossa revista, o especialista reiterou que, do ponto de vista do diagnóstico, «há determinados factores que, por estarmos a tratar de assuntos estéticos, não podem deixar dúvida alguma. E só saberemos que não existem dúvidas quando se fez previamente um diagnóstico correcto. Se não soubermos diagnosticar as situações como deve de ser, a partir de aí vai ser sempre a remediar».
Noutro âmbito, o interlocutor explicou ainda que urge fazer passar a ideia de que os implantes necessitam de regular higienização, porque, «infelizmente, há ainda muitas pessoas (por culpa dos dentistas), que pensam que os implantes duram para sempre e que, como não fazem cáries, são a melhor coisas que existe. Se as pessoas perceberem, logo no diagnóstico, e aprenderem logo à partida que têm de mudar o tipo de higiene a que estão habituadas… A maior parte dos pacientes nem sabe que está a fazer as coisas mal porque não houve ninguém que os instruísse especificamente como deve ser feita a mesma limpeza».
Rudiger Neugebauer, técnico alemão radicado na Maia, alinhou pelo diapasão de Carracho no respeitante à importância do diagnóstico nos tratamentos. Para Neugebauer, contudo, o objectivo principal dos implantes deve ser o restituir das capacidades perdidas, da funcionalidade. Seguidamente, o técnico deve apresentar uma «avaliação dos aspectos funcionais e estéticos ao paciente», pois «é fundamental estabelecer uma base de confiança entre o técnico e o paciente». Por isso, «jamais se deve faltar ao plano estabelecido», explicou, reiterando: o dentista «deve apresentar as várias soluções estéticas e não pode, nem deve, fugir um milímetro do plano inicialmente proposto, porque um cliente satisfeito é o melhor “marketing” que podemos ter do nosso trabalho».
A terminar, o técnico germânico sublinhou ainda que o trabalho de equipa «é fundamental» para voltar a pôr um sorriso na cara dos clientes.