Não foi uma, mas várias as mensagens que Nitzan Bichacho – diretor do Ronald E. Goldstein Center for Aesthetic Dentistry no Hadassah Medical Campus e professor na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade Hebraica, em Jerusalém – trouxe ao público que acorreu ao auditório de Serralves, a 22 de outubro, por altura do evento MIS Day. Mas talvez a mensagem mais forte do cocriador do sistema de implantes V3 tenha sido: coloquem menos implantes. Coloquem-nos é com inteligência.
Um implante não é um dente. É um elemento externo ao ser humano. Não faz parte da sua natureza. Por isso só deve ser colocado quando efetivamente já nada houver a fazer. A mensagem parece simples, sobretudo quando a plateia é composta apenas por médicos dentistas. Ou então não é tão simples quanto isso. Nitzan Bichacho, o cocriador do sistema de implantes V3 da MIS, insistiu que, hoje, os médicos dentistas têm claramente que manter os dentes do paciente, mesmo que estes estejam periodontalmente comprometidos. “Temos de levar o tempo que for preciso e usar todas as técnicas e conhecimentos de que dispomos para proteger e manter os dentes”. E isto, diz Nitzan Bichacho, não é uma tendência futura. É, e terá cada vez mais que ser, uma ação do presente.
“Os dentistas inteligentes compreendem que apenas usamos implantes para substituir dentes que faltam. E que esperamos tenham sido removidos por não terem efetivamente salvação”, disse o professor à SAÚDE ORAL. Aliás, o investigador admite que, em muitos dos casos de estudo que são apresentados nas palestras que participa, se podia ter evitado a remoção do dente. “É uma pena. Mas pronto, caso já tenha sido removido e não houver nada a fazer, há que compreender não só a forma como o implante funciona, mas a biologia circundante. E uma vez entendida a biologia, percebemos que há fatores que simplesmente não controlamos. E por isso precisamos colocar um implante que deixe a biologia ficar saudável por muito tempo. Queremos um implante onde o osso e o tecido mole gostem de permanecer”.
Teoricamente, explica Nitzan Bichacho, como o implante é um corpo estranho, pode não ser facilmente aceite pelo corpo. Aliás, o comportamento normal do corpo é rejeitar o elemento novo. “O facto de o aceitar já é, por si, uma surpresa. Mas temos de perceber que, quando colocamos um implante no corpo de um indivíduo saudável, o sistema imunitário pode aceitar, mas a verdade é que o sistema imunitário do nosso corpo muda. E há muitos fatores que aumentam a instabilidade do nosso sistema e que, quando não é tão forte, os implantes podem causar grandes problemas. É preciso pensar nisto muito bem quando tratamos um paciente. Não só como irá ficar daqui a cinco ou seis anos, mas como irá ficar a longo-prazo”.
O especialista defendeu a absoluta necessidade de planear uma restauração com implante, como o fazer, estudar os fatores-chave que permitam uma estabilidade a longo-prazo e saúde do tecido e do osso. “Há muitos fatores que têm de ser considerados, não pode ser apenas abrir um buraco…”, esclarece.
À margem do MIS Day, que decorre na Fundação Serralves no dia 22 de outubro, Nitzan Bichacho explicou à SAÚDE ORAL que a medicina oral, enquanto profissão, alterou radicalmente o seu rosto. E se, no passado, o que existiam eram médicos a trabalhar de forma isolada nos seus gabinetes, onde cobriam e controlavam todas as especialidades, hoje devido aos altos custos da tecnologia e ao desenvolvimento da profissão, os jovens profissionais não podem atuar sozinhos. A profissão já não é, diz Nitzan Bichacho, “one man show”. E, no futuro, terá de obrigatoriamente ser um local de trabalho combinado. “Os dentistas têm de trabalhar juntos, partilhar equipamentos, partilhar despesas porque só assim será viável a aposta em tecnologia”. Nitzan Bichacho defende, por isso, que a própria essência de carácter do dentista vai ter de mudar. “Os dentistas que não forem comunicativos não vão conseguir ser bons profissionais. Porque é impossível fazerem-se as coisas como antes, isolados. E por isso os critérios para admissão de um estudante de medicina dentária têm de ser alterados. E isto já está a acontecer. Não é o futuro”.
Há que ser mais preditivo
Hoje, para equipar um consultório, o investimento é tão elevado que as despesas ou são partilhadas ou o retorno desse investimento é a demasiado largo prazo, tornando o projeto pouco ou nada sustentado. “E não sei se os jovens profissionais têm noção disto. Por isso também defendo que devemos ser o mais preditivos quanto possível nos nossos tratamentos. Não queremos ter de voltar a fazer, não queremos falhanços. E já não falo do ponto de vista moral e ético para os pacientes, que estará sempre em primeiro lugar, mas até do ponto de vista económico. E por isso defendo e, mais do que isso, acredito que algumas das técnicas, tecnologias e componentes que utilizamos podem até ser mais caras, mas os dentistas inteligentes vão precisamente escolher esses componentes e sistemas. Porque, no final, são estes que lhes darão melhores resultados e lhes permitirão dedicar o seu tempo a tratar novos pacientes, em vez de os perderem a refazer o que falharam no passado”.
A questão é que Nitzan Bichacho garante haver muitos dentistas que ainda não perceberam isto e, por isso, continuam a optar por produtos de baixa qualidade. “Não há almoços grátis”, disse Nitzan Bichacho. E se quiserem ter um implante de qualidade, que implicou um investimento grande por parte das empresas, têm de pagar um pouco mais. “Mas nada se compara ao desperdício de dinheiro e tempo de um falhanço por terem usado material de baixa qualidade. Mas sei que muitos dentistas preferem fechar os olhos a esta questão”.
O respeito do V3 pela biologia
Nitzan Bichacho foi o criador, assim como fez parte da equipa inovadora do NobelActive Implant System, há cerca de uma década. E embora este tenha sido claramente um sistema relevante no mercado, Nitzan Bichacho admite que havia coisas a melhorar. “Desde que comecei a pensar no NobelActive queria um implante que não lutasse com a biologia. O sistema era muito bom, sem dúvida, mas tinha algumas características que, todavia, podiam ser melhoradas. E assim acabamos por chegar ao desenho do V3, um sistema que tendo todas as vantagens do NobelActive, é melhor. Aprendemos muito, ouvimos os médicos dentistas e melhoramos o sistema. O V3 tem características fantásticas que ultrapassam largamente o facto de a sua cabeça ser triangular. Foi tudo meticulosamente estudado e conferido para acomodar a fisiologia do osso”.
O professor explana que cirurgicamente não há diferença entre a perfuração para colocação de um implante comum e o V3. O que acontece é que o V3 tem, em cada implante, uma perfuradora afiada descartável para a perfuração final, desenhada para cada implante para que, após criada a osteotomia, a relação entre o implante e a osteotomia seja ideal. Seja ideal em termos de espaço suficiente para que o sangue circule à volta do implante e, ao mesmo tempo, para que haja uma boa estabilidade inicial. Ou seja, para permitir que o implante seja colocado ou uma provisionalização imediata. Em relação à parte protética, diz o professor que todos os componentes foram desenhados com este perfil de estreita submersão em diferentes alturas de gengiva, até chegar à plataforma protética.
“O NobelActive permaneceu igual desde que o concetualizamos, há mais de uma década. Com o V3 é diferente. O sistema está no mercado há pouco mais de dois anos, mas porque compreendemos que há uma constante necessidade de evolução. A MIS está constantemente envolvida e isto é muito positivo, porque a empresa, tendo um sistema tão bom, está disposta a investir, mesmo assim, no seu melhoramento e isso é muito gratificante”.
Menos é mais
Patrick Palacci, outro dos conferencistas presentes neste MIS DAY, não podia ter sido mais claro na sua apresentação. Há que simplificar. Processos, técnicas e abordagens. Aliás, o médico dentista diz mesmo que a simplicidade é o grande fator-chave para o sucesso. “Quando mais simples formos na nossa abordagem, mais sofisticados vamos parecer. E isso é que dita o sucesso de cada tratamento, de cada cirurgia.”
Patrick Palacci mostrou-se muito satisfeito com o nível de apresentações que encontrou no nosso país e admite que nos próximos anos o grande desafio vai ser encontrar mais tratamentos que deem ainda mais garantia, até porque hoje e cada vez mais a tecnologia tenderá a ajudar o cirurgião a ser mais preciso. “O biomaterial e a tecnologia vão ajudar-nos. A precisão é indispensável e é outros dos fatores que irão contribuir para o sucesso”, disse na sua apresentação intitulada “Treatment of aesthetics cases. Hard and soft tissue reconstruction – the keys for success”.
Planear, planear, planear
Planear foi o grande mote da apresentação de Alexandra Marques e Diogo Bezerra. À SAÚDE ORAL, Alexandra Marques foi de encontro ao “discurso” de Nitzan Bichacho, admitindo que se colocam implantes de forma indiscriminada, sem o devido planeamento. “Os resultados desta prática estão agora a surgir”, disse à margem do congresso. “E vai ser pior daqui a 10 anos. Temos mesmo de mudar a nossa atitude e fugir ao estigma da crise que nos obriga a cobrar cada vez menos. O dentista quer ver mais pessoas, pensar menos, ser mais rápido. E não pode ser, hoje chegam-nos pessoas com 30 anos em condições catastróficas”. Alexandra Marques diz que esta não é uma característica única e exclusivamente portuguesa, apesar de aqui ser notório. Daí que a principal mensagem tenha sido a necessidade de planeamento, para além da urgência em “pensar diferente”. “Muita coisa está a mudar na implantologia, há que estudar e pensar que o implante é uma continuação da coroa.” Ou seja, um plano reverso.
Por outro lado, e algo que também Patrick Palacci havia enaltecido na sua apresentação, a necessidade de gerir a expectativa do doente que, hoje, é muito mais exigente. Alexandra Marques diz o mercado já oferece aos profissionais materiais, técnicas e tecnologias que colmatem as suas necessidades, enfatizando com agrado sobretudo o envolvimento do mercado nesse desejo de melhorar. “Ainda agora falava precisamente com o criador do V3 a quem explicava as minhas dificuldades. E isso é excelente, há uma maior abertura e comunicação”.
Há que evitar o supérfluo
Miguel de Melo Costa que veio a Serralves falar sobre as Técnicas de Preservação da Crista Óssea, diz que sobretudo há que evitar fazer as coisas de uma forma supérflua, o que cada vez mais acontece, pelo menos na sua opinião. “Não só por pressão da própria indústria, que ‘obriga’ que as pessoas coloquem implantes, mas porque depois há cursos de implantes pouco sustentados. Tende-se a olhar mais para o resultado estético e não para a parte da biologia. E acho que é imperioso fazermos o percurso precisamente contrário”. Ou seja, no entender de Miguel de Melo Costa, primeiro perceber como é que as coisas acontecem e só depois planear tudo o resto.
“Deveríamos fazer apenas aquilo para o que estamos muito bem preparados e não tentar abordar todas as áreas. O mercado é complicado, mas não pode ser através destas práticas que devemos fazer florescer o nosso negócio, as nossas clínicas”.
Daí que este profissional acredita na referenciação. “Se usássemos mais vezes isso, como em outros países, seria mais simples. Porque o problema que muitas vezes geramos com uma má prática é muito maior do que aquele tentamos resolver. E depois ou é impossível, ou é muito complicado”.
Miguel de Melo Costa admite que a indústria tem vindo a crescer e por isso a satisfazer as necessidades dos profissionais, mas se calhar até rápido demais. “É tudo muito rápido e não dá tempo para rentabilizar. Em um ano é lançado um sistema digital com scan que no ano seguinte está completamente obsoleto. É tudo muito rápido e as coisas não estão em boca o tempo suficiente para sabermos se resultam. E o que muitas vezes acabamos por descobrir é se resultam ou não… da pior forma”. A principal ideia que Miguel de Melo Costa quis passar neste MIS Day foram os princípios biológicos e que tudo o que acontece é por alguma razão. “Temos tendência a culpar os materiais ou fatores externos e, muitas vezes, a causa do problema somos nós”.
Entretanto, para os próximos anos, Miguel de Melo Costa admite que o grande desafio vai ser mesmo resolver insucessos.
Do fracasso ao sucesso
Já fracassei, diz João Pimenta na sua apresentação em Serralves. E por ter fracassado aprendeu com os erros. Erros que foram fruto direto da sua prática e outros porque, tem a certeza, embarcou em soluções que apelidou de “miraculosas”. Diz já ter colocado muitos implantes de diferentes conceitos, com diferentes técnicas e filosofias. Aliás, recentemente expressou sentir ter sido usado como cobaia nas mãos de multinacionais. Na sua apresentação, João Pimenta tentou passar a ideia de que foi toda essa experiência que hoje lhe permite fazer uma implantologia segura, respeitando os princípios da biologia e da fisiologia.
Mas para isso há fatores que têm de ser obrigatoriamente respeitados. O planeamento, uma boa quantidade de tecido ósseo e mole à volta do implante e ter um ceramista excecional nunca poderão ser descuidados. Aliás, o profissional diz que sem este último fator, que alguns profissionais esquecem, ninguém terá sucesso.
No seu discurso, no qual apelidou Nitzan Bichacho de “o Pink Floyd da medicina dentária” – “bem, se calhar hoje seria melhor chamar-lhe Bob Dylan”, disse entre sorrisos – João Pimenta enalteceu o trabalho que há três décadas desenvolve com o ceramista Harry Levy, deitando por terra a ideia de que as soluções digitais podem de alguma forma substituir técnico de prótese dentária. Não para João Pimenta, que acredita ser impossível um bom resultado sem a presença do ceramista. E mais. Defende mesmo que este profissional esteja “dentro da clínica”.
De resto, nos casos que apresentou uma coisa parece certa: mais osso e mais tecido mole onde é necessário será sempre o melhor caminho a seguir. “Temos de ter pelo menos dois milímetros de osso em vestibular. E se não levarem mais nada da minha apresentação, levem pelo menos esta mensagem”.
















