Como surgiu a oportunidade de colaborar com a clínica australiana no projeto de saúde oral?
Mark Peddey, dono da clínica australiana Mark Peddey Pty Ltd, é um entusiasta da terapia fágica (utilização de bacteriófagos, que são vírus que matam bactérias, no tratamento de infeções bacterianas) e desde 2009 tem estado à procura de investigadores capazes de desenvolver um projeto que visa a utilização da terapia fágica em doenças orais. Após ter visitado vários grupos de investigação em todo o mundo, este empresário e clínico decidiu atribuir o projeto ao grupo de investigação em biotecnologia de bacteriófagos do Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho. O contrato foi celebrado em Dezembro e os trabalhos iniciaram em março com a visita do investidor ao centro de investigação.
Em que consiste o projeto que tem por objetivo tratar a doença periodontal?
O projeto consiste em desenvolver um produto com base num cocktail de bacteriófagos capazes de matar especificamente bactérias envolvidas na doença periodontal, nomeadamente as espécies Porphyromonas gingivalis, Tannerella forsythia, Treponema denticola e Parvimonas micra. Estas espécies estão envolvidas na formação de biofilmes bacterianos no espaço perigengival e acredita-se que a remoção seletiva destas bactérias permite a redução da carga microbiana no local e a virulência do biofilme e portanto a atenuação ou mesmo eliminação do problema. Esta consiste numa forma de tratamento não invasiva e natural sem recurso a antibióticos.
Como se vai processar este tratamento inovador contra as bactérias patogénicas?
A forma de tratamento passa por uma aplicação local de um gel contendo o preparado fágico. O preparado fágico é um cocktail de bacteriófagos com um espetro de ação alargado, mas específico para as espécies referidas. Os bacteriófagos são vírus que infetam especificamente bactérias (os seus hospedeiros) replicam-se no seu interior e causam a lise (rutura) da célula para a libertação das partículas virais formadas que irão infetar mais bactérias. Estes vírus são muito específicos para bactérias e não causam nenhum dano nas células em humanos. Existem vários estudos de biosseguranças dos bacteriófagos que provam que são absolutamente inofensivos para o homem, aliás sabe-se que eles vivem no nosso organismo e podem proteger-nos contra doenças.
É a primeira vez que investigam este tipo de bactérias?
Se me permite eu reformularia a pergunta, as bactérias já são conhecidas, o que não se conhece são os fagos.
Como se aplica a terapia fágica no controlo da doença oral
É a primeira vez que se investiga essa alternativa terapêutica?
A terapia fágica existe desde o início do século XX para o tratamento de doenças infeciosas, contudo com a descoberta dos antibióticos a terapia fágica foi descontinuada no mundo ocidental e restringe-se atualmente a países da Europa de Leste. No entanto, com o aparecimento das resistências aos antibióticos tem havido um crescente interesse nesta temática, caracterizado pelo aumento do esforço de investigação na melhoria desta abordagem terapêutica. Os estudos de investigação têm-se centrado fundamentalmente na terapia de doenças bacterianas respiratórias, otites, amigdalites, feridas crónicas, infeções intestinais e urinárias, mas não existe nenhum estudo que aborde esta terapia no controlo da doença oral, provavelmente pela dificuldade no isolamento de bacteriófagos capazes de infetar especificamente as espécies bacterianas acima mencionadas.
O tratamento pode revolucionar o tratamento da doença periodontal?
Revolucionar não sei, mas pelo menos oferecer uma alternativa terapêutica natural sem o recurso a antibióticos, permitindo a redução do uso de antibióticos no tratamento de doenças orais, com um impacto enorme na saúde pública e no ambiente.
Qual o prazo para o estudo estar concluído?
O estudo passa por várias fases, numa primeira fase é o isolamento, caracterização e otimização do controlo das bactérias in vitro e depois será utilizado um modelo de periodontite em ratinhos para a validação in vivo. A fase in vitro durará aproximadamente seis meses. Estima-se que ao final de um ano de trabalho já se consigam ter os primeiros resultados.