A Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) revelou recentemente que mais de 60% dos médicos dentistas que suspenderam a sua inscrição na OMD em 2013 estão a exercer a profissão no estrangeiro, “uma subida face aos 48% verificados em 2012”. Atualmente perto de mil médicos dentistas exercem fora de Portugal, “uma subida de 45% face ao que se verificava em 2008, altura em que começou a crise económico-financeira. Mais de 65% dos médicos dentistas que exercem no estrangeiro estão em Inglaterra, sendo França o segundo destino dos dentistas portugueses, com quase 9%. Quase metade dos médicos dentistas que emigrou tem entre 26 e 40 anos.” O Bastonário da OMD mostra-se preocupado com esta realidade. “A atual conjuntura socioeconómica está a ter um impacto na medicina dentária nunca antes sentido pela profissão em Portugal. As dificuldades sentidas pelos médicos dentistas expressam aquilo que pode ser um retrocesso grave no acesso à Medicina Dentária, com consequências futuras na saúde oral e na saúde geral das populações”, afirma.
Perante esta realidade, a SAÚDE ORAL foi à procura do testemunho de médicos dentistas que encontraram no estrangeiro uma oportunidade para alargar horizontes e desenvolver a sua prática clínica.
Subemprego, exploração e recibos verdes
Luís Filipe Amante, médico dentista, trabalha na Dentastique em Cambridge. “Encontro-me a trabalhar no Reino Unido desde 2010, para onde me desloquei depois de ter tido a oportunidade de trabalhar em Portugal durante cerca de dois anos. O tempo que passei enquanto clínico em Portugal foi inesquecível e a realização de poder orgulhosamente calçar as minhas luvas e por fim começar a fazer alguma diferença na vida da comunidade foi uma experiência e um sentimento que me irá acompanhar eternamente”. O pior veio depois: um cenário “menos romântico” como define Luís, e que passou por “muitos quilómetros percorridos, percentagens parcas, e por fim, a dissimulação, os atrasos, as mentiras. Uma história, como tantas outras, pautada por exploração, subemprego, aproveitamento desleal… até à gota de água”, refere. Acabou por ir trabalhar para uma realidade completamente diferente daquela com que se deparava em Portugal, muito suportada pelo facto de a grande maioria dos médicos dentistas se encontrar ligada ao Sistema Nacional de Saúde local (NHS). “Existe um sistema de comparticipação fundado pelo Estado que tem o objetivo de atender às necessidades de tratamentos de saúde oral evidenciadas nas diferentes zonas do país, permitindo aos pacientes pagar um preço reduzido por diversos tratamentos dentários à clínica, que por seu lado recebe um valor por parte do Sistema Nacional de Saúde.” Existe igualmente uma marcada cultura de referência de pacientes, “alicerçada por um incentivo ao contacto entre colegas e a efetivação de diversos canais diretos criados pelo NHS que permitem que o paciente seja reencaminhado para ambiente hospitalar, como são exemplo as unidades de cirurgia maxilo-facial espalhadas pelos diversos hospitais do país”, adianta.
‘Fazer valer’ o dinheiro investido pelos pais
Luísa Aparício, médica dentista a trabalhar no estrangeiro desde 2010, começou a sentir dificuldades em “criar uma agenda com os clientes”, apesar de trabalhar numa clínica dentária. Trabalhava a recibos verdes e a questão de abrir uma clínica própria de forma a ter um futuro mais garantido – mas nem por isso mais fácil – começou a colocar-se. Ou seria essa a saída ou emigrava. “A minha decisão foi grandemente influenciada pela vontade e interesse que sempre tive de viver no estrangeiro e aperfeiçoar o inglês, mas também pelo facto de a Medicina Dentária ser um curso de seis anos e com enormes custos em material, instrumentos, entre outros aspetos. No meu caso tinha acrescidos outros custos porque estudei numa universidade privada, o que pesou muito na minha decisão, pela necessidade e obrigadação de ‘fazer valer’ o dinheiro investido pelos meus pais”, salienta. Luísa Aparício não fica admirada com os números avançados pela OMD, considerando que o aumento da emigração de médicos dentistas está diretamente relacionado com “a dificuldade de iniciar uma carreira em Portugal, devido à reduzida assiduidade de pacientes às consultas, essencialmente por falta de recursos económicos e ao elevado número destes profissionais em Portugal.” Considera que a crise obrigou os portugueses a estabelecerem prioridades nos gastos. “Sendo a Medicina Dentária ainda exercida maioritariamente a nível privado, implica custos elevados para os cada vez mais baixos recursos da maioria dos utilizadores”, diz-nos.

Luísa Aparício, Médica-Dentista a trabalhar em Bristol
A trabalhar em Bristol, também no Reino Unido, sublinha a mesma realidade referida por Luís Filipe Amante. “Uma vez que a Medicina Dentária está incluída no Sistema Nacional de Saúde, todos os pacientes têm a possibilidade de fazer um check-up e tratamentos a preços muito reduzidos ou mesmo gratuitos, se tiverem direito a benefícios (desemprego, baixo rendimento, menos de 18 anos de idade, gravidez, etc). Contudo, qualquer pessoa pode optar por tratamento privado como ‘upgrade’, se preferir”, refere. Considera contudo que o sistema “não é perfeito”, anotando a diferença na qualidade dos materiais usados, “o uso extensivo de amálgamas em todos os pacientes (crianças, gravidas, doentes), sem considerar a possível toxicidade e, muitas vezes, também a falta de tempo para cada paciente, o que pode resultar em pior qualidade de tratamentos.” No entanto, a possibilidade de todos puderem consultar regularmente o dentista “e de apostar na prevenção desde muito cedo é uma imensa mais-valia.”
Sofia Vilela está a trabalhar em Lausanne há quase quatro anos, desde o seu terceiro ano de faculdade. No seu caso não exerce fora do país devido à atual crise económica, não se admirando, contudo, com “a elevada percentagem de colegas emigrados.” O facto de existirem demasiadas vagas em Medicina Dentária a nível nacional faz com que não haja mercado para todos. “A emigração torna-se então a única saída profissional, mesmo quando já se tem vários anos de experiência de carreira.” Sempre quis ter uma experiência fora de Portugal, independentemente de ter trabalho no nosso país. “Estive cinco meses em duas clínicas em Nova Iorque e vim posteriormente para a Suiça por motivos profissionais do meu marido”, explica. Relativamente às diferenças entre os dois países, considera que “a filosofia e as técnicas são iguais. Em termos de recursos e de materiais temos acesso a todo o material topo de gama de que necessitamos. O tratamento dentário é bastante caro, mas está sempre associado à qualidade”, sublinha.
Maiores desafios
Para Luís Filipe Amante Luís Filipe Amante o facto de abandonar o quotidiano da vida em Portugal constituiu, a par da distância que se efetiva entre amigos e família, dos maiores desafios de trabalhar fora de portas. “Mas na verdade, do ponto de vista profissional, os desafios que se sucederam foram extremamente excitantes. O vasto universo de pacientes e as múltiplas oportunidades de tratamento que se apresentaram surgiram de forma repentina, em catadupa, contrastando com a relativa pacatez e falta de poder económico que tinha experienciado anteriormente”, salienta. O médico dentista sentiu finalmente a oportunidade de pôr em prática “o que tinha projetado fazer como estudante de Medicina Dentária e, principalmente, enquanto estudante Pós-Graduado em áreas como a implantologia, reabilitação oral e cosmética dentária.”
Luísa Aparício sentiu outro tipo de desafios quando começou a trabalhar fora de Portugal. “Mudar de uma prática privada, em que a saúde oral é quase considerada um ‘luxo’, onde para uma simples restauração temos imensos compósitos de cores, opacidades e resistências diferentes, onde a estética é quase sempre considerada tão importante quanto a função e para cada caso/paciente temos por vezes mais do que uma hora para discutir e analisar as diversas opções, foi um grande choque no início.” Sentiu desde logo que a forma de trabalhar é muito diferente. Continua a considerar que em Portugal a Medicina Dentária tem muita qualidade e que pode vir a ter em Inglaterra, mas com diferentes limitações. “Por exemplo, o tempo destinado para cada consulta é limitado, uma vez que vemos muitos pacientes por dia. As clínicas também não são sempre tão modernas e bem equipadas como em Portugal, o que foi difícil de gerir no começo”, salienta.
Para Sofia Vilela, a adaptação a uma língua diferente foi uma das principais dificuldades que sentiu quando emigrou, algo já ultrapassado pois atualmente considera que atingiu estabilidade e está bem adaptada ao país. No que respeita a Portugal, tem uma opinião muito vincada: “É fundamental mudar a mentalidade portuguesa. A nossa sociedade ainda não está informada sobre a importância de higiene oral. Para isso há que começar pela formação cívica dos pais e formação pré-escolar, no primeiro ciclo devia também haver uma disciplina de higiene dentária. Penso que a aposta deveria passar pela Medicina Dentária de qualidade e não pela aposta no low cost que tem vindo a aumentar em Portugal desvalorizando o profissionalismo dos colegas que trabalham para esse tipo de clínicas”. Defende a criação de listas tabeladas de preços para cada tratamento, com várias margens dependendo da cidade, do local do consultório e da experiência do profissional. “Havia que diferenciar um compósito oclusal de uma face e um compósito de reconstituição de quatro cuspides de um dente, uma extração simples de uma extração complexa; uma desvitalizalação de um canal ou de três canais, ajustando e contabilizando o tempo e o trabalho, para que o preço fosse mais justo para o médico dentista e para o próprio paciente”, acrescenta.
A aposta na qualidade e na ética “é a premissa basilar para a recuperação da Medicina Dentária em Portugal, no entanto, esta é uma missão trabalhosa, muitas vezes pouco recompensadora a curto prazo e um sacrifício para que consigamos chegar a bom porto. A descida de honorários, as promessas de ‘borlas’ ou até mesmo a realização de pseudo-diagnósticos e desenho de planos de tratamento por parte de pessoas não qualificadas para o efeito constituem caminhos de facilitismo que inevitavelmente culminarão numa simples desacreditação pública da classe e dos profissionais e que devem, a todo o custo, ser reprimidos e evitados”, sustenta Luís Filipe Amante.
Voltar a trabalhar em Portugal: sim ou não?
Luísa Aparício não gosta de usar a expressão “nunca”, mas confessa que não está nos seus planos mais próximos o regresso a Portugal. “Comecei recentemente a tirar um curso noutra área da saúde aqui em Inglaterra e tenho grandes planos para o futuro, que podem passar até por trabalhar em Portugal, mas não sei se para exercer Medicina Dentária”, refere. Sofia Vilela confessa “ter saudades” do seu país, mas também tem “muitos projetos para concretizar fora. Talvez daqui a 10, 15 anos possa pensar em regressar, quem sabe…”, diz-nos.
Regressar à terra onde cresceu e aprendeu a ser a pessoa que é hoje são valores que Luís Filipe Amante guarda e pelos quais rege a sua vida. Apesar das saudades que tem do seu país, à medida que o tempo passa é cada vez mais difícil o retorno, pelo menos do ponto de vista profissional. “O vigoroso vínculo e proximidade que é nutrido e fortalecido à medida que passamos anos a cuidar dos nossos pacientes e os parcos sinais de retoma e esperança que ecoam à distância não são de todo motivadores.” No entanto reside sempre uma “vontade latente de voltar, regressando com a força e a segurança que só a experiência e os anos de trabalho me podem dar, quiçá para poder contribuir de forma mais efetiva e significativa na saúde oral dos meus compatriotas”, conclui.
Marco Costa, Country Manager da Moving People, empresa de recrutamento de médicos dentistas para o estrangeiro
Como apresenta a Moving People?
A Moving People, em Portugal, é uma filial de uma empresa belga e começou por trabalhar em 2010 com o recrutamento de enfermeiros. Em janeiro deste ano decidimos apostar no recrutamento de médicos dentistas pois verificámos a enorme necessidade destes profissionais quer na Bélgica, quer em França. Neste momento ainda não temos nenhum dentista colocado fora do país, pois temos um método de trabalho muito diferente de outras empresas com os mesmos objetivos. Financiamos todo o processo de recrutamento, desde a documentação, o curso linguístico, as viagens que são necessárias à Bélgica para conhecer o empregador, etc. É importante perceber que há um compromisso com a empresa logo no início do processo em que a pessoa se compromete que vai efetivamente estar disponível para trabalhar, assinando um contrato de mediação connosco. Quando já atinge um nível adequado no curso de língua francesa ou holandesa desloca-se à Bélgica durante uma semana para conhecer pessoalmente o empregador e fazer testes técnicos. É dada então a oportunidade de o empregador conhecer o candidato e de o mesmo conhecer o potencial empregador.
O candidato não suporta qualquer custo e quando o contrato é feito financiamos a viagem definitiva, bem como a estadia num hotel enquanto procura o alojamento onde ficará a morar. O nosso acompanhamento mantém-se ao longo do tempo pois se houver alguma questão, tanto da parte do colaborador, como do empregador, mediamos esse problema e tentamos ajudar na resolução tentando perceber ambas as partes. Vamos monitorizar a satisfação de ambos ao longo do tempo.
Os candidatos ficam em Portugal a tratar de todo o processo de candidatura?
Enquanto estão a tirar o curso linguístico encontram-se em Portugal. As pessoas saem daqui com a certeza de que vão trabalhar legalmente e com um nível linguístico adequado ao exercício da função. Atualmente temos cerca de 50 candidatos em processo de recrutamento. Todos eles têm pelo menos três anos de experiência, que é um dos nossos requisitos para aceitar um candidato.
Quais as motivações que os médicos dentistas apresentam para trabalhar no estrangeiro?
Uma das motivações relaciona-se com o salário, que pode rondar os 7000 e os 9000 euros na Bélgica. Caso estejam aptos a executar procedimentos mais complexos, como implantologia ou ortodontia, os valores podem duplicar. O facto de ficar a trabalhar numa mesma clínica e não ter de se deslocar entre clínicas também é um fator preponderante para quem procura trabalhar noutro país.
De que forma é que os candidatos chegam até à Moving People?
A forma como chegam até nós passa por resposta a anúncios de emprego publicados pela empresa, por recomendação de algum colega ou através do contacto que estabelecem connosco em feiras de emprego. Colocamos também alguns anúncios de emprego ou propostas no nosso site ou em fóruns de Facebook. Vamos estar presentes em duas feiras de emprego intituladas Carrers in White, em Lisboa, nos dias 26 e 27 de setembro e no Porto a 28 e 29 de setembro.
Gostaria de divulgar algum projeto futuro?
Estamos a estudar a possibilidade de apoiar médicos dentistas portugueses que queiram abrir um gabinete próprio em França. Neste caso garantimos o empréstimo bancário para a aquisição do espaço e acompanhamos todo o processo como no caso de recrutamento para determinado empregador na área de Medicina Dentária numa clara aposta no empreendedorismo.
Artigo publicado na edição de setembro/outubro de 2014 da revista Saúde Oral





