E se o dentista deixasse de ser o Papão (a maiúscula indicando aquele temor reverencial)? Para a generalidade das crianças, a entrada no consultório dentário inspira visões terríficas, enredos tendo por protagonista um gigante de sete cabeças e umas tantas garras – tantas quantos os afiados instrumentos de trabalho que acompanham a cadeira…
E se é certo que o rápido avanço das técnicas de tratamento da medicina dentária permitiu alcançar níveis de dor mínimos, também é certo que há fobias que perduram, seja por preconceito, falta de informação ou o diz-que-disse popular.
Habituada a lidar com os mais novos, a escritora e investigadora Isabel Leal cedo percebeu o potencial de aprendizagem que possuem. Deixou uma carreira de 20 anos na sua área de formação académica – gestão de empresas – pela paixão pelo mundo do reiki e da meditação. Fez várias formações em reiki, crystal healing (meditação aliada ao uso terapêutico dos cristais) e meditação, distribuídas por Portugal, Brasil, EUA e Nepal, sendo hoje formadora das ditas áreas terapêuticas. Numa época em que a oferta na área a nível nacional escasseava, em países como os EUA a meditação era já técnica proliferante. No início da década começou a acompanhar famílias com crianças e jovens com casos de hiperactividade, défice de atenção, sobredotados, perturbações do sono e mau aproveitamento escolar, com quem verificou que as terapias complementares se revelam uma grande ajuda no ultrapassar dos problemas. Participando também em projectos educacionais ligados ao acolhimento de crianças, na preparação de técnicos para o trabalho em infantários e escolas do ensino básico, Isabel Leal é ainda palestrante de seminários e workshops sobre crianças e famílias.
Meditação
«Postura, respiração e foco», explica a formadora, são pilares da aprendizagem da técnica da meditação. O foco assenta na chamada meditação guiada, ou seja, o contar de histórias, adaptadas ao universo do público adulto ou infantil. No caso das crianças, os exercícios e os textos são mais curtos e o tom de voz «baixo, ritmado e calmo», realça. «São pequenas histórias baseadas nos mundos que as crianças mais gostam». E acrescenta: «são histórias que ajudam a criança a manter o foco no positivo da vida».
Através desta terapia, o cérebro, trabalhando em níveis mínimos, atinge um estado de descanso em que se alcança a calma, a serenidade e um maior controlo das emoções. Os exercícios de respiração permitem à criança aprender a respirar profundamente perante situações de stress, medo, choro ou qualquer desorientação. São ainda exploradas a relação com o corpo e técnicas de postura facilitadoras da concentração e redução da tensão. O facto de o estado meditativo estimular a criatividade justifica que a prática se faça acompanhar de actividades lúdicas, como pintura ou moldagem. Enquanto agente terapêutico, a meditação é responsável pelo amadurecimento emocional das crianças, por uma melhoria da saúde, estabilidade no sono e na aprendizagem, aumento da auto-estima e da auto-afirmação, o incutir da auto-disciplina e do bom relacionamento inter-infantil ou por proporcionar paz interior, numa série de resultados que vão traduzir-se num só: bem-estar.
Num mundo em que as dificuldades dos adultos acabam por ser projectadas nas crianças, o bem-estar destas está em risco, alerta Isabel Leal: «a vida de hoje é muito difícil para os adultos, as crianças estão a toda a hora a ser bombardeadas pelos problemas dos adultos. As faltas de exemplo são por isso um facto de desequilíbrio e insegurança para os mais novos». Neste contexto, a meditação é mais do que uma simples terapia que ajuda a ultrapassar os problemas, acabando por se constituir como “armadura” para a vida, assumindo-se como a restituição de equilíbrio e o revestimento de força interior: «esta disciplina, a Meditação, mostra ao pequenino que ele pode e deve ser seguro, firme, ter auto-estima e que querendo… consegue tudo. Passa apenas pela educação da mente», garante.
Embora em Portugal não se tenham ainda testado cientificamente os efeitos das terapias complementares, testes desenvolvidos por psicólogos e pediatras estrangeiros já provaram a variação das frequências mentais e nervosas nas crianças, bem como a capacidade de foco, consoante a prática de meditação ou a ausência dela.
Livro
Actualmente a dar aulas de meditação para crianças em Lisboa, Coimbra e Porto, foi em Janeiro que, qual resolução de ano novo, resolveu dedicar-se 100% a elas. Neste sentido, o seu próximo e terceiro livro – com data de lançamento prevista para 1 de Junho – é um projecto inédito a nível mundial. Inserido na série “Crianças de um Novo Mundo”, “Meditação para crianças” é o resultado de anos de investigação. Nas palavras da autora: «o livro “Meditação para crianças” vem na sequência de toda esta prática, todos os estudos e todo o meu interesse nesta matéria e na prática que o dia-a-dia me deu e que me diz sem sombra de dúvidas que ajuda e muito. É uma ferramenta real e eficaz». Aqui se explica aos adultos o que é e como fazer meditação, por um lado; como a colocar em prática junto dos mais novos, por outro. O livro incluirá ainda um CD com música especial e meditações guiadas, sendo que em cada faixa as histórias são diferentes e adequadas a diferentes idades. A música incluída no CD; contributo de uma especialista em musicoterapia norte-americana, como explica Isabel Leal: «é tocada por uma terapeuta de música para crianças que não só dá aulas como toca em hospitais para ajudar na calma e paz para que as crianças possam ter mais uma ajuda na recuperação». O objectivo, para além da contribuição na tematização espiritual no campo infantil, é ajudar os mais velhos a orientarem os pequenos, através da passagem de uma técnica de professores para alunos, de pais para filhos, de médicos para pacientes.
No dentista
Os resultados da meditação em termos de um pensamento leve e positivo em relação aos problemas, de gestão do stress emocional e auto-disciplina, de concentração ou canalização das energias hiperactivas são desde logo indícios de como a prática em causa pode ajudar os mais pequeninos a ultrapassarem o medo de uma simples ida ao dentista. Pensarão as crianças: será isto suficiente na “hora da verdade”, quando a broca se aproxima e a aflição toma conta de nós?
A autora do livro “Meditação para crianças” assevera a sua adequação a vários cenários: «para utilizar na escola, em casa, no dentista, no cabeleireiro, salvo as devidas comparações, situações em que a criança pode precisar de se acalmar ou baixar o nível de stress». E tendo em conta que a tranquilização do doente é uma das tarefas do médico, Isabel Leal deixa o convite a todos os profissionais da área que – com o objectivo de direccionar a prática da meditação para o melhoramento da relação com o doente e o sucesso do seu trabalho – queiram ser seus alunos. No entanto, a aplicação de técnicas de meditação, a ser realizada antes do início do tratamento, requer uma quota indispensável de tempo que as preenchidas agendas dos profissionais na grande maioria das vezes não permite. Em alternativa, a simples audição do CD durante o penoso aguardar pela consulta, na sala de espera – até porque, garante a autora, «os grandes também gostam» – pode ajudar a sossegar as crianças, transportando-as para um ambiente de calma e harmonia. Mas é sobretudo durante a consulta, no gabinete onde mora o gigante das sete cabeças, o vilão da bata branca e tudo o que os rodeia, que deve ser posto a tocar o CD dos sons e histórias “mágicas”. À falta de mais tempo para o desenvolvimento de técnicas complementares, a magia contida no CD surtirá o efeito desejado na criança, acalmando-a, transmitindo-lhe a energia positiva que tantas vezes o médico tenta passar sem êxito e fazendo-a até, quem sabe?, sentir-se confortável na cadeira almofadada, a fazer lembrar a poltrona de casa, tendo por companheiro um amigo de máscara branca, que apenas lhe quer assegurar o bem-estar.
Porque Isabel Leal define a meditação como «algo no silêncio», que vive da energia transmitida – então, na troca de olhares que estabelece a confiança, consentindo o antes insuportável, está aberta a porta a uma intervenção não dolorosa e, de certeza, uma melhor e mais saudável relação médico/doente.