É um dos médicos dentistas que mais divide opiniões e cujo percurso tem sido alvo dos mais diferentes comentários, ou pelo programa de televisão que apresentou, ou pelo desaire financeiro que enfrentou em 2012 e que obrigou ao encerramento da clínica em Santos. Miguel Stanley está de volta com o conceito White Clinic em Miraflores, e organizou um evento em setembro de 2015 com a nata da medicina dentária.
Em janeiro de 2012, após uma fase conturbada, abriu a White Clinic em Miraflores. Porquê esta zona? Pelo conceito da clínica? Quando estava à procura de um espaço o que queria?
Este projeto tem um investidor e o propósito era estarmos numa clinica e num espaço que refletisse o projeto que estávamos a criar. Foi uma continuação do que tentámos fazer em Santos com o conceito White Clinic, e foi uma evolução da clínica que tivemos na Lapa. Temos de estar sempre a evoluir para melhor. Saí da Lapa porque a clínica era pequena, o estacionamento era complicado, estávamos com um crescimento fenomenal, isto em 2007/08 e queríamos ter dimensão. É legítimo querer crescer. Fizemos uma aposta numa zona nobre de Lisboa, aposta que não correu bem e é público o porquê. Apesar do muito que se falou, uma coisa é aquilo que afeta o negócio, outra é aquilo que afeta a clínica, são coisas distintas e que as pessoas nunca conseguiram separar. Houve um problema financeiro, fui alvo de um roubo, e recentemente conseguimos provar isso. Para quem está a tentar construir um projeto e depois surge a crise económica, num ano de grande contração de gastos, foi muito difícil. Mas não obstante, a nossa clínica esteve sempre bem. A prova é que os nossos dentistas continuam todos a trabalhar no projeto.
Como encarou a situação?
Com toda a naturalidade e com a maior calma do mundo.
Conseguiu manter a calma mesmo sabendo que tinha sido enganado por uma pessoa de sua confiança?
O que é que de positivo me iria trazer perder a minha calma? Como cirurgiões e como dentistas somos treinados a operar sob grande stresse. Imagine que estamos no meio de uma cirurgia e acontece uma hemorragia ou a pessoa desmaia. Não podemos entrar em pânico, temos de manter a calma. Uma das minhas qualidades é ter muita calma no meio do caos. Tinha a integridade e a honestidade do meu lado.
Como descobriu?
Ele (o contabilista) acabou por confessar. Isto afetou muito a relação com os fornecedores, durante 14 anos pagava tudo a pronto e de repente começámos com alguma dificuldade porque primeiro tínhamos de pagar os impostos, tive de limpar essa dívida que não contraímos. Foi muito difícil. Foram quatro anos de muito trabalho, mas vejo isto como uma curva de aprendizagem.
Teve o apoio da sua equipa durante esse período?
Sempre. Porque trabalhamos de forma honesta. Hoje em dia tenho uma firme noção de quem nos apoiou e de quem não esteve ao nosso lado. A prova é que hoje em dia temos uma boa clinica, os nossos pacientes de longa data continuam connosco e para o público português simplesmente mudamos três vezes de morada. Os dentistas é que gostaram de criar um filme à volta desta situação. Houve até dentistas que fizeram provocações no Facebook, mas não olho para baixo, só olho para cima.
O que responde a essas críticas?
Não respondo.
Na White faz questão de exibir os seus diplomas e as palestras que faz a nível mundial. Mas em Portugal é alvo de muitas críticas.
Também tenho muitos amigos dentistas em Portugal que não vou citar, mas esses são os que viajam, os que estudam e que realmente têm contactos internacionais. Os que criticam são os que não têm acesso a essa informação, mas não estou minimamente preocupado com isso. Digo mais: é perfeitamente natural. Isso acontece em qualquer área, temos de olhar para isso como algo perfeitamente natural. As pessoas sentem-se ameaçadas porque o mercado português é pequeno. Temos mais dentistas per capita do que qualquer país da Europa e vai ficar pior. As pessoas têm de ter calma porque há muitos bons dentistas em Portugal e são seguramente criticados pelos dentistas que mais se sentem ameaçados por eles. Quero que as pessoas saibam que não sou uma ameaça para ninguém. Não tenho franchises, não tenho uma rede de clínicas, só tenho duas mãos, na minha equipa somos oito dentistas, há 10 milhões de pessoas em Portugal, não percebo porquê tanto stresse.
Diz que a maior parte dos seus clientes são estrangeiros que vêm à procura dos seus tratamentos.
Cada vez mais. Não fazemos publicidade internacional, mas cada vez mais temos clientes que vêm de fora. O principal mercado é o angolano, depois temos clientes da Rússia, China, Noruega, EUA…
O facto de fazer palestras internacionais potencializa a vinda de clientes estrangeiros?
Acho que ninguém se mete num avião para vir ao encontro de alguém se não tiverem 100% seguros das suas capacidades. Investi dez anos da minha vida para estar nos sítios mais recônditos do mundo, longe dos amigos e da família, são 28 os países onde já estive para promover a medicina dentária portuguesa. É natural que tenha algum retorno.
Como surgem esses convites?
As marcas com quem trabalho potenciam esses convites e o facto de o inglês ser a minha primeira língua, de ter uma boa capacidade de comunicação, associada ao facto de termos uma clínica a fazer um trabalho pluridisciplinar, suscitou interesse de muitos sitos. Hoje em dia recebo entre 20 a 25 convites sérios, só posso escolher até 12/13 senão depois não tenho tempo para estar em Portugal.
Como escolhe os eventos onde vai estar presente?
Pelo lado financeiro e pelo prestígio. Por exemplo fui convidado para falar em Harvard, obviamente não vou olhar para a parte monetária para ter essa oportunidade. Mas continuo a perder dinheiro com cada palestra que dou, mesmo sendo bem pago. Onde se ganha dinheiro é na clínica, mas é um investimento. Tenho de ter consciência do meu percurso enquanto dentista. Estiquei o pescoço, fiz programas de televisão em que mostrei o que a medicina dentária podia fazer. As pessoas podem achar que era show off, mas o facto é que revolucionou a medicina dentária em Portugal. It kik started the industry por assim dizer. Mas tendo feito essa exposição mediática, sempre achei importante ter a dualidade científica. Hoje em dia gostava de ver alguém criticar-me por não ter evidência científica do meu lado. Podem achar que é uma manobra de marketing, mas o facto é que as horas estão gastas e o investimento foi feito. Estou contente por esse percurso.
Foi através do programa de televisão que nasceu o conceito de medicina dentária pluridisciplinar? Não só tratar o dente, mas a pessoa no seu todo?
Para mim ou para os dentistas portugueses? Eu já o fazia, uma das razões principais porque decidi fazer o programa foi porque estava cansado de investir tanto dinheiro na minha formação, aprender a fazer regeneração óssea guiada, implantologia avançada e o público não estava interessado. O programa de televisão foi um veículo para minimizar a distância entre aquilo que o público achava que o dentista fazia e aquilo que eu sabia fazer. Obviamente eu e mais mil dentistas em Portugal. Quando o programa veio à luz do dia muitos dentistas beneficiaram com essa exposição porque deixaram de ter de explicar o conceito do tratamento global. Foi benéfico para a classe e para a indústria. Hoje em dia, na prática, 70% do trabalho que fazemos na clinica é reabilitação oral total, mas o resultado é sempre o sorriso completo. Pode passar pela higiene oral numa pessoa, por uma restauração noutra pessoa ou até pela extração total com implantes, o resultado é sempre o mesmo: um sorriso natural, a saúde na boca, ver a saúde como um todo. A ideia era incluir a medicina dentária em tratamentos de bem-estar, ver a medicina dentária como um complemento à saúde. Se alguém prefere gastar seis mil euros em próteses mamárias do que tratar a boca, porque consegue esconder os dentes atrás do lábio, isso está errado. Se essa pessoa estiver aqui, o nosso cirurgião plástico convence-a a arranjar os dentes.
E consegue convencer?
Claro que sim, porque nós mandamos, somos um grupo.
Mas o paciente é que decide ou não?
Então não tratamos a pessoa. Dizemos que não a muitas pessoas.
Imagine que tem um paciente com uma ideia feita do que quer fazer?
Se não for correto para o paciente não tratamos. Posso dizer que recusamos em media 40% dos nossos pacientes, maioritariamente por causa da questão financeira. O diagnóstico baseado na capacidade financeira do paciente está a matar a medicina dentária. Porque não aprendemos a encaixar um budget dentro do problema, aprendemos a tratar o problema. Se a D. Maria tem 27 problemas nos dentes, tem acordo com uma seguradora e dispõe de 1000 euros para gastar durante x meses, o que podemos fazer por ela? Não temos culpa que as pessoas tenham o problema, não temos culpa que não tenha capacidade económica, temos uma responsabilidade com a ciência, com a evidência científica e com aquilo que é correto na medicina dentária. Temos uma responsabilidade, como médicos dentistas, de fazer o que está correto dentro da lei e da deontologia. Prefiro perder dinheiro do que aceitar o dinheiro que a pessoa tem e fazer aquilo que a pessoa quer e não o que precisa. Não faço o que a pessoa quer. Não tenho franchises, não tenho redes de clínicas para alimentar, não tenho dez andares nem clínicas em todo o mundo. Tenho a concentração da excelência nesta clínica.
Segue todos os casos?
Sim, não somos uma clinica grande, temos sete gabinetes, quatro deles dedicados à reabilitação oral, não tratamos muitos pacientes. Tenho meses muito fracos e meses muito bons. Os meus meses muito bons são um fenómeno, posso ganhar o mês com um paciente. Essa é a minha filosofia: no half smiles, é a palestra que dou em todo o mundo. É preferível dizer não às situações que podem vir a trazer problemas, porque queremos ganhar o retorno imediato, e esperar até ter aquele caso em que podemos fazer tudo bem feito. Porque existe mercado para isso. Muitas vezes, quando tentamos usar materiais mais baratos ou fazer procedimentos mais rápidos e tentar ir ao encontro do bolso da pessoa, acabamos por não tratar a pessoa e a saúde oral não pode sair prejudicada por causa do budget. O dia em que tiver de trabalhar à borla fecho a clinica e dedico-me à música. Somos livres de praticar a medicina dentária que queremos, temos uma licença para praticar de forma idónea e livre aquilo que entendemos ser correto para os nossos pacientes. Temos um código de conduta ético e deontológico que diz que temos de proteger sempre o interesse dos nossos pacientes, proteger-nos a nós próprios e ao nosso corpo clinico. O que não podemos fazer é induzir problemas na boca dos nossos pacientes porque queremos poupar no tempo e dinheiro da consulta.
Hoje em dia, com a quantidade de clínicas que existem no país, há muitas a apostar no low cost. Disse que não tem qualquer problema com o low cost e que considera-o uma opção.
Sim, há mercado para tudo. A meu ver, o que tem de deixar de acontecer na medicina dentária é ter dentistas a regularem dentistas. Desde que se façam as coisas dentro da ética e deontologia científica, se há dentistas que optam por trabalhar rápido e com materiais baratos, se trabalham só para uma equação financeira e se este é o seu modelo de sucesso desejo-lhes sorte. Há sempre lugar para todos, não podemos dizer que este é que é bom ou aquele é que é mau. Nunca me ouviram criticar diretamente alguém e sou capaz de ter sido dos dentistas mais criticados em Portugal. Se quisesse entrar em guerra com as pessoas, mas não é a minha filosofia, não tenho de me defender. Faço tudo de acordo com a lei, tenho o meu nicho de mercado. A prova está que depois de ter sido alvo de um roubo em que perdi tudo cá estou com uma clínica a funcionar a 100%. Devo estar a fazer bem alguma coisa.
Nessa altura, quando foi alvo de roubo, como pensou reerguer o seu projeto?
Com a ajuda de um investidor. O programa de televisão tinha dado uma reputação muito forte à clínica, tinha uma carteira de clientes de 14 anos e os clientes não deixam de procurar o seu médico dentista porque foi roubado e porque o negócio correu mal. Sou médico dentista, não sou empresário e infelizmente em Portugal há muita gente que confunde as duas coisas. Volto a reiterar: porque não tenho franchises ou redes de clinicas, só trabalho num sítio. É prova que sou médico dentista, os meus pacientes respeitam-me porque tomei a decisão de ser médico dentista. Acho que foi o que me salvou e o que vai salvar qualquer dentista que invista na sua capacidade de trabalho, na sua excelência, na sua formação. Acredito na excelência de qualquer indústria, acredito que há um mercado que tende sempre a procurar a excelência. Há mercado para tudo e o meu plano de marketing é uma clinica de excelência onde os médicos são bem remunerados, trabalhamos com o tempo que for necessário para o tratamento estar bem feito. Não temos cronómetros e o paciente entende a diferença. A tecnologia, os laboratórios, os produtos, as marcas, as relações comerciais que temos com os fornecedores, fora a ciência e o facto que não tomarmos atalhos. Se um paciente não pode pagar o tratamento correto não tratamos o paciente. É isto que as pessoas não conseguem entender.
O paciente entende quando recusam o tratamento?
Imagine que uma pessoa quer ter dentes fixos, o tratamento indicado pode passar pela aplicação de implantes e pode custar dez mil euros. A pessoa só tem cinco mil e sugiro fazer uma prótese removível, pois é mais barato. Mas a pessoa quer dentes fixos e esse valor não me cobre as despesas, pela qualidade e excelência do laboratório, dos implantes. Não vou trabalhar gratuitamente. Dou opções de tratamento e a pessoa procura o tratamento fixo noutra clínica, mas isso é o mercado de concorrência. Ainda bem que há clinicas e dentistas que podem tratar esta pessoa. Mas o meu intuito nunca foi tratar os portugueses, mas sim tratar os meus pacientes. Não quero, nem posso tratar toda a gente. Apostamos tudo em médicos qualificados, médicos felizes, bem-dispostos, horários de trabalho decentes, todos têm assistente, apostamos na qualidade no trabalho. Venho de uma cultura diferente e acredito que, se temos funcionários felizes, então tudo corre melhor. As nossas assistentes têm contrato, os higienistas orais trabalham com assistente, nunca há falta de material. Apostamos nos juniores para fazer formação, aliás vamos começar a apostar na formação. Não é só falar de excelência, é preciso vivê-la e aplicá-la. Em Portugal e em qualquer país há sempre lugar para todos os tipos de mercado e acho que a generalidade dos dentistas tem de relaxar um pouco. Vivemos num país livre, os bons vão ter sempre lugar, os maus também, há sempre lugar para todos.
A nível de gestão, como está organizada a White Clinic. Uma vez que não quer ser gestor, só médico dentista, como é feita a gestão?
Temos uma empresa externa a tratar da contabilidade e, como aprendemos com os erros, hoje em dia não quero meter-me em grandes voos. O nosso core business é tratar pacientes. Temos uma nova CEO que tem uma experiência de 20 anos a gerir uma empresa com o mesmo volume de negócios que a White Clinic e que vem gerir todo o grupo a partir de julho deste ano. A resposta tem sido positiva porque liberta-me dessa parte, sou um péssimo gestor. Estou com 42 anos, acho que esta vai ser uma década de consolidação. Fiz os erros que tinha que fazer no passado, ninguém pode dizer que não cometeu erros. Escrevi um post no Facebook a dizer que não somos a soma dos nossos problemas, mas a forma como os resolvemos. Tenho muito orgulho na forma como resolvi os meus, com bons princípios e ética. Os nossos médicos estão felizes, temos um negócio sustentável.
Como consegue ser tão positivo?
Porque sou feliz.
Entrevista publicada na edição de março/abril de 2015 da revista Saúde Oral

