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Opinião: A idade dos porquês

Qualquer um de nós que tenha tido filhos pequenos passou pela chamada “idade dos porquês”, o que nalguns casos pode ser, ou ter sido, deveras curioso, irritante ou inconveniente conforme as circunstâncias do lugar, do tempo ou da nossa paciência momentânea. Quem sabe da idade dos porquês também terá presente que em vez de idade se pode falar do “tempo dos porquês”, pois há alturas da vida, do ano ou do dia em que estamos mais propensos a questionar o que nos rodeia. Pela parte que me toca, estou publicamente no “tempo dos porquês” de muitos aspetos socioprofissionais da nossa profissão há quase seis longos anos, e adjetivo-os de longos pela razão incompreensível de muitas sugestões, interrogações e críticas, que considerei construtivas, terem vindo a ser estoicamente ignoradas desde logo pelo seu primeiro destinatário, porque assim tem de ser, que é a nossa Ordem dos Médicos Dentistas (OMD). A OMD é a única estrutura aglutinadora dos médicos dentistas em Portugal e deveria ser a digna, enérgica e eficaz defensora da medicina dentária; ao defender os interesses dos médicos dentistas estará inevitavelmente a pugnar por uma melhor, mais justa e mais digna medicina dentária como um todo. A fronteira entre atividade pró-sindical e as atribuições estatutariamente definidas (artigo 9.º dos Estatutos da OMD) é muito ténue e sujeita a interpretações juridicamente variáveis e discutíveis.

Porque é que não existe ainda uma tabela de valores de custo por ato de medicina dentária? Qual é o valor de custo, por exemplo, da restauração de uma face em resina? Qual é o custo de extrair um dente? Não estamos a discutir quanto é que é cobrado! É do valor de custo que estamos a falar! Quanto tenho de despender, e tive de investir, para realizar uma extração em condições dignas e respeitando as boas práticas? Haverá certamente valores mínimos, médios e máximos; eventualmente dará trabalho fazer esse exercício, mas tem de ser feito! Sob pena de se perder legitimidade e poder argumentativo quando se criticam valores de tabela de seguradoras, planos de saúde ou convenções. Em que nos baseamos para classificar determinado valor proposto para os nossos serviços como sendo insultuoso, aceitável ou muito bom?! Não havendo conhecimento do que nos custa determinado ato, não é credível estarmos a insurgir-nos contra ou regozijarmo-nos com nada…

Porque é que na OMD ninguém demonstra algum interesse, mínimo que seja, em relação a este tema? Porque é que no meio de um Conselho Geral com 50 cabeças supostamente pensantes, não há alguém que questione a Direção da Ordem acerca disto? Porque é que tenho a sensação de que nas reuniões da Direção da OMD se desperdiçam oportunidades para discutir assuntos que realmente interessam dia a dia do comum médico dentista? Porque é que o nosso colega Orlando Monteiro Silva, bastonário dos médicos dentistas, não reflete um pouco acerca disto? Porque é que que não instrui o departamento jurídico no sentido de definir uma estratégia legal que permita a elaboração de tal tabela? Porque é que não se recorre aos serviços jurídicos de um escritório de advogados de peso? Porque é que não se valorizam experiências de outras organizações profissionais de outros países, onde tal tabela já existe há anos? Porque é que já escrevi detalhadamente acerca desta temática há cinco anos (revista SAÚDE ORAL de julho/agosto de 2014) e a nossa OMD, com este mesmo bastonário que por lá se encontra há 19 anos, não se digna sequer a emitir uma opinião, por muito tacanha e resignada que seja?

Isto da idade dos porquês é tramada…pior é quando o “tempo dos porquês” não passa!

*Artigo publicado originalmente na edição 129 da revista SAÚDE ORAL