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Orlando Monteiro da Silva Lista A: Apoio dos jovens foi fundamental para recandidatura

Entrevista a Orlando Monteiro da Silva  Lista A

Defensor de uma Ordem dos Médicos Dentistas «independente e livre de outros interesses além dos directamente relacionados com o exercício da profissão», o candidato a líder dos mais de sete mil dentistas inscritos na Ordem acredita que o futuro da saúde oral, em Portugal, passa pela criação de parcerias público-privadas que potenciem as estruturas já criadas ao mesmo tempo que se prestam cuidados à população dentro do Serviço Nacional de Saúde. Leia a entrevista completa aqui.

Saúde Oral – Como surgiu o desafio de se recandidatar a bastonário da OMD?
Orlando Monteiro da Silva – Surgiu depois de reflectir e após ter recebido o apoio de um leque enorme de pessoas que me passaram uma espécie de “cheque em branco” e que, embora saiba que nem sempre é fácil, deram a cara no site da candidatura.
O grupo de apoiantes reúne já mais de 750 pessoas que fizeram sentir um apelo único para que protagonizasse o projecto da candidatura. Senti com esse apelo uma enorme liberdade e responsabilidade ao mesmo tempo, até porque houve também um movimento muito forte por parte dos jovens médicos dentistas. Foram estes que me convenceram mesmo a avançar com a decisão, sem querer aqui colocar em causa o apoio nem o prestígio de ninguém.

Travar excesso de médicos dentistas

– No entanto, há também um problema crescente de excesso de médicos dentistas em Portugal. Que medidas propõe para resolver esta questão?
– Não sou um bastonário de gabinete ou de opereta e contacto regularmente com os profissionais no terreno. Apercebi-me bem das expectativas que eram em mim depositadas por estes jovens recém chegados à profissão e entendo que há claramente um excesso de médicos dentistas no nosso país, com muitos a irem trabalhar para o estrangeiro.
Não tenho meias palavras sobre isso: é uma pena que se esteja a perder este potencial e pessoas qualificadas. Além disso, é uma pena para o país que se perca assim o investimento realizado na formação destes profissionais.
Acho que efectivamente os mais jovens têm tido dificuldades em afirmar-se em Portugal e que é necessário que haja uma grande representatividade e que sejam escutados os seus problemas, como tem acontecido no site, com questionários, seleccionando grupos de discussão e tentando fazer com que as suas propostas possam obter resposta adequada por parte da OMD.
O que quero frisar é que esta candidatura é um novo projecto que promove novas ideias para os próximos três anos e, obviamente, que estaremos atentos aos problemas desta franja da profissão que tanto nos apoiou.
Acho também que devemos adaptar a formação de médicos dentistas às necessidades do país e propomos medidas concretas quanto a isso, porque as faculdades vivem do número de alunos, uma vez que disso depende o seu financiamento.

– Não vê então com bons olhos a abertura de mais uma faculdade de Medicina Dentária anunciada para Lisboa?
– Sei que há pulsões nesse sentido, que a Ordem tem conseguido deter com o diálogo privilegiado que tem com o Governo – não apenas com este, mas com qualquer Governo -, fruto do prestígio que tem adquirido ao longo dos anos.
Considero que, em muitos casos, é mais importante aquilo que se evita que se faça do que o que se faz.
Estamos empenhados em que a postura em relação à abertura de novas faculdades permaneça e até que se reduza o número de alunos de Medicina Dentária, pois consideramos que melhoraria a qualidade do ensino. Além disso, apregoamos uma maior aposta no ensino pós-graduado e que haja um estágio voluntário remunerado, no plano dos cursos de Bolonha, nas faculdades, hospitais, centros de saúde e em clínicas privadas, que dê aos jovens médicos dentistas maior facilidade de entrada no mercado de trabalho e uma experiência acrescida nesse contacto com a profissão.

– Mas acha que deveriam fechar algumas faculdades?
– Como não estou ligado à vida académica, nem a nenhuma faculdade, nem tenciono estar, tenho condições de independência para dizer o que tem de ser dito sem meias tintas.
Não somos contra a abertura de novas faculdades, desde que haja um número adequando às condições do nosso país e que estas sejam avaliadas. No fundo, o que queremos é que fechem as piores e que abram as melhores possíveis.
Contudo, como ainda não temos avaliação do ensino superior em Portugal, é uma questão que não faz sentido.

Especialidades a passo lento

– E a criação de um exame de admissão à Ordem pode servir de travão a esta situação de excesso de profissionais?
– Está prevista a sua criação, mas a Ordem não está muito vocacionada para ser a entidade avaliadora. Um exame teórico exigiria a criação de uma estrutura e acreditamos que a melhor forma de avaliar os conhecimentos dos médicos dentistas é através de uma oportunidade de Formação Vocacional, Profissional e Clínica, remunerada, de que já falei. Esta seria acreditada e tutelada pela Ordem, o que proporciona um capital acrescido para os agentes empregadores.
Informalmente, todas as faculdades já concordaram com esta ideia, porque o que se pretende é que este não seja mais um estágio, mas uma forma de os futuros médicos dentistas tenham acesso às diferentes saídas profissionais.

– A propósito das diferentes saídas profissionais, há ainda a questão dos Colégios de Especialidades. Quais as propostas que defende nesta matéria?
– A Ordem tem um projecto neste âmbito, mas não podemos “colocar o carro à frente dos bois”.
As especialidades, por muito que custe ouvir, dependem essencialmente do nível de formação pós-graduada que os médicos dentistas possam obter. Ou seja, quanto mais formação os profissionais obtiverem em determinada área, maior a probabilidade de criação dessa especialidade. Só que para isso é necessária a criação da tal certificação e avaliação do ensino de que falei, além de que existe ainda uma oferta insuficiente de formação pós-graduada no nosso país.
Em Portugal, valoriza-se muito a questão do reconhecimento das especialidades, porque se pensa que é por si, um passaporte para o sucesso. E não é: só a nossa capacidade individual permite o reconhecimento pelo doente do nosso nível de especialização.

Criação de parcerias publico-privadas

– Os cheques-dentistas são um tema com pano para mangas: alguns dizem que é um sucesso, outros dizem que é pouco. Afinal, o copo está meio cheio ou meio vazio?
– O copo está claramente meio cheio. Só aqueles que demagogicamente pretendem confundir o acesso a tratamentos básicos num Programa Social de Saúde Pública com tratamentos no âmbito do exercício privado de medicina dentária o podem ver de outra forma. Nós também gostaríamos de ter um programa que permitisse fazer implantologia e branqueamentos ou facetas em cerâmica… Mas temos os pés bem assentes na terra e não somos demagógicos, por isso pedimos apenas aquilo que sabemos que o Estado poderá disponibilizar para a saúde oral.
Exactamente porque somos conscientes é que estamos a ter estes resultados com o ministério da Saúde e estou certo que teremos muito mais, se nos mantivermos na liderança da classe. Quanto à operacionalidade do PNSO os números falam por si: mais de 3200 médicos dentistas aderentes, mais de 350 mil pessoas que acederam aos nossos consultórios e mais de 53 milhões de euros afectos ao Programa. Tudo isto em 14 meses, com o Programa ainda numa fase de ajustes e de adaptação que a Ordem tem vindo a acompanhar de perto.
É um Programa que ajuda a profissão, principalmente os mais jovens, num momento de crise económica, trazendo doentes para os consultórios. Envolve os médicos de família e as escolas na referenciação, o que é um hábito saudável e extremamente importante. Os spots televisivos que o têm acompanhado foram a primeira campanha promovendo a visita regular ao médico dentista, alertando a população. Nunca tal tinha antes sido feito.
Salvaguardando o PNSO princípios fundamentais como liberdade de escolha por parte do doente, salvaguarda do controle ético e deontológico por parte da Ordem e a liberdade de contratar directamente com o paciente actos médico dentários fora do âmbito do Programa, além da liberdade de cada um poder ou não aderir ao mesmo. Nenhum médico dentista é obrigado a praticar actos clínicios que lhe objectem a consciência e, por outro lado, a liberdade é total para esclarecer e aconselhar os doentes aos actos que sejam necessários realizar, mediante um diagnóstico livre e autónomo, seja dentro ou fora do programa. Novamente, projectamos a relação médico dentista e doente como uma relação de confiança, mas para confiar é preciso conhecer. O PNSO leva os doentes a conhecer a sua saúde oral, as suas carências e o seu médico dentista.

– Defende então a integração no SNS?
– Defendo uma parceria publico-privada, com mecanismos de comparticipação de consultas de medicina dentária e alargamento de programas como o cheque-dentista, bem como a criação de mecanismo de inserção dos profissionais na Medicina Dentária Hospitalar, Unidades de Saúde Familiar e na Medicina do Trabalho.
Este é um puzzle de propostas que se fortalecem entre si. A solução não é única, nem deve ser, porque não podemos colocar, nesta fase, “todos os ovos no cesto”.
No fundo, a criação de parcerias publico-privadas torna o sistema menos oneroso para o Estado, porque já temos uma rede de consultórios e de clínicas privadas instalados com um elevado capacidade e enorme investimento realizado que merecem ser aproveitados. Defendo por isso um Sistema Nacional de Saúde complementar entre si para prestar a melhor saúde oral aos portugueses, porque para a população o que interessa é ser bem atendida e a tempo e horas.
Fundamental é criar as formas de acessibilidade à medicina Dentária e, por outro lado, desenvolver a vertente da informação em termos de educação para a saúde e da qualidade de vida que advém da saúde oral, numa visão que tem de deixar de ser fechada e de banda estreita para passar a ver-se o médico dentista como um agente de saúde que não trata apenas os dentes.

– Esta será então uma nova saída profissional para os médicos dentistas?
– A criação desta rede permitirá aproveitar o potencial dos profissionais, ao mesmo tempo que dá ao médico dentista uma abrangência muito maior em diversas áreas, como a Medicina Dentária Desportiva, a Nutrição, a Gestão de Unidades de Medicina Dentária, entre tantas outras.
Há um leque de oportunidades que vão surgindo à profissão e que a OMD deve liderar, no sentido de elas serem aproveitadas pelos médicos dentistas, sem estarmos todos formatados com o mesmo tipo de perfil de intervenção.

Programa eleitoral

– Em suma, quais são as principais directrizes do programa eleitoral da lista A?
– Como princípios fundamentais defendemos uma OMD independente, impermeável a pressões, interesses comerciais, político-partidários ou outros, além de ser uma referência quanto aos valores éticos e deontológicos pelos quais se deve reger a profissão.
Se for eleito bastonário, assumiremos a responsabilidade de respeitar as diversas especificidades e expectativas dos vários sectores da profissão, bem como a continuidade da negociação com o Governo de alguns dossiers já apresentados.
Além disso, como já referi, estaremos atentos à inserção na vida profissional dos colegas mais jovens e defendemos a avaliação do ensino de Medicina Dentária em Portugal, que se deve pautar pela qualidade em detrimento da quantidade.
Entre os grandes desafios que se nos apresentam teremos a diminuição do número de graduados em Medicina Dentária que as actuais faculdades conseguem anualmente produzir e a regulação e registo das Sociedades Profissionais de Médicos Dentistas pela OMD.
Como também já mencionei, pretendemos a implementação de um sistema de comparticipação das consultas de Medicina Dentária aos utentes do SNS, bem como a inserção dos médicos dentistas no SNS, bem como da Medicina Dentária na Medicina do Trabalho.
No respeitante ao PNSO, defendemos o alargamento do cheque-dentista a outras faixas etárias e grupos sociais, assim como o alargamento da cobertura proporcionada pelo Seguro Escolar (para crianças) de forma a incluir a Medicina Dentária.
Num âmbito mais institucional, pretendemos a criação de um Conselho Consultivo e Comité dos Jovens Médicos Dentistas, para apoiar o bastonário e a direcção da Ordem, assim como o lançamento de programas e medidas de apoio aos colegas mais velhos nas situações de reforma ou de incapacidade temporária e permanente para o exercício da profissão através do projecto “Fundação da Medicina Dentária”.

Balanço positivo

– Quais eram os principais problemas com que a OMD se debatia no início do seu mandato e as grandes mudanças que introduziu?
– Antes de mais gostaria de sublinhar que o trabalho é de toda uma equipa, que veio revitalizar toda a profissão. Se calhar há muita gente mais jovem que não tem recordação de um tempo em que a OMD era praticamente desconhecida e os médicos dentistas pouco reconhecidos. Hoje em dia a imagem é muito diferente, com uma imagem muito mais forte e positiva e com os nossos profissionais a serem requisitados até internacionalmente dado o seu nível de qualidade, com uma imagem de credibilidade.

– E acha que os médicos dentistas também evoluíram no ranking das profissões em que os portugueses confiam?
– Com certeza que sim. Acho que, apesar de sermos uma profissão com 30 anos, somos um dos exemplos de sucesso de um grupo profissional. Temos problemas, obviamente, mas no cômputo geral a avaliação é positiva e os médicos dentistas são responsáveis pela alteração radical da imagem que havia da profissão.
Hoje em dia as pessoas tem noção de que a medicina dentária evoluiu e é capaz de responder a todas as suas necessidades nas mais diversas áreas. Além disso, o nosso país é um dos que têm uma medicina dentária das mais avançadas do mundo.

Perfil

Com 46 anos de idade e cerca de 22 de profissão, esta é a terceira vez que Orlando Monteiro da Silva se candidata a bastonário da OMD.
Licenciado em Medicina Dentária pela Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto, o médico dentista é, desde 2006, presidente do Council of European Dentists (CED), mandato que acabará em Novembro, e vice-presidente da Associação Dentária Lusófona desde o ano passado.
Recentemente foi eleito presidente do FDI e tomará posse na parte final de 2011.

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