Boa aluna, Susana Falardo Ramos sempre foi «muito aplicada». Na Escola Secundária do Montijo, nas aulas de Noções Básicas de Saúde, toma conhecimento das especialidades médicas. «Eram aulas bastante cativantes dadas pela professora Brites Pires», lembra. Apesar da família estar ligada à área jurídica, interessa-se pela medicina dentária e decide ingressar no Instituto Superior de Ciências da Saúde – Sul. «Entrei em 1990, e foi muito bom porque estava muito motivada», recorda. «Dediquei-me sempre e só aos estudos. No último ano da faculdade comecei a procurar cursos e especializações».
Os passos seguintes são a pós-graduação, curso de especialização e doutoramento em Ortodontia em universidades espanholas. «Em 1999, quando decidi ir para Santiago de Compostela tirar a especialização em Ortodontia, casei-me». A partir daí, o marido Alexandre Bruno, economista de formação, passará a acompanhá-la quer nos momentos profissionais quer nas actividades de tempos livres. A abertura da Clínica Médico-Dentária da Atalaia acontece em 2001, depois de ter dado consultas em algumas clínicas nos Açores, Évora, Cascais e Montijo.
Teatro de fantoches
É numa conversa com higienistas da clínica do Montijo que Susana Falardo Ramos, de 37 anos, tem a ideia de criar um teatro de fantoches. «Sempre me fascinou tratar crianças e não tenho dificuldade em chegar até elas. De vez em quando, sou solicitada para fazer rastreios orais, em colaboração com o Rotary Club, aos miúdos da escola primária da Atalaia. Muitas vezes, até na própria consulta, brinco com eles, explico muitas coisas e utilizo uma boca, uma dentuça grande, que tenho», diz a médica dentista. «Faço muito ordontopediatria e ortodontia. É muito diferente trabalhar com crianças. A chave principal é elas simpatizarem connosco, a partir daí é colocar os pais no lugar certo e fazer os tratamentos que correm sempre muito bem», revela Susana Falardo Ramos, para anuir que «há crianças que por diversos motivos, porque tiveram experiências menos boas, ou porque lhes são explicadas as coisas de forma incorrecta, que depois não colaboram, têm medo e choram».
A estratégia é ser um pouco criança e entrar no mundo dos mais pequenos, ou seja, promover a prevenção da cárie dentária nas populações mais jovens sob o lema ‘Aprender a Brincar!‘. «Adquiri um teatro de fantoches, que foi transformado por nós aqui na clínica, e escrevi uma peça, que não ultrapassa os 25 minutos, para que os miúdos possam manter a concentração. Depois iniciei a divulgação junto das escolas», conta Susana Falardo Ramos.
O teatro de fantoches ‘Dr. Dentuças’, incluindo num programa de saúde oral infantil é direccionado para crianças com idades compreendidas entre os três e os 10 anos. A apresentação é feita com a manipulação de bonecos representando personagens de médicos dentistas e dentes, num pequeno palco com cortinas e cenários. Os fantoches ganham uma face com grande expressividade, sendo a cabeça, braços e mãos movimentados pelos dedos dos manipuladores. Com Susana Falardo Ramos dão vida aos bonecos as médicas dentistas Lúcia Ramos e Ana Rodrigues e as higienistas Sónia Silva e Filipa Almeida. Por vezes, o massagista cinesiterapeuta Hugo Ramos, irmão de Susana, também integra o elenco.
Dr. Dentuças
Iniciado em Abril de 2008, o projecto de teatro de fantoches ‘Dr. Dentuças’ começou, desde logo, a ser contactado por escolas, infantários e ATL interessados nesta acção educativa e interactiva e, ao mesmo tempo, simples e divertida. Para dar vida aos personagens dos fantoches, Susana Falardo Ramos começou por testar a peça junto dos seus sobrinhos, uma vez que «o texto tem de ser adequado a um público de idade menor mas não deve omitir as palavras certas. Falamos em anestesia, em pica, e restaurações e em tratar os dentes. Explicamos também que a broca não dói e que os compósitos ou as restaurações são feitas com um aparelho que parece um secador de cabelo. Há todo um palavreado para os miúdos entenderem», esclarece a médica dentista.
Com três a quatro manipuladores atrás do cenário, a peça começa com o personagem Zéquinha. «Bom dia, crianças! Como estão? Eu sou o Zéquinha. Sou forte, saudável, branquinho e muito brilhante. E vocês? Também têm dentes assim como eu? Então vamos lá ver esses dentinhos!… Hiii, tantos dentes bonitos! Agora vamos ver quem sabe responder…». Ao longo da representação o Zéquinha brinca e dialoga com os amigos Barnabé, Zacarias, Óscar e Tobias, todos dentes cariados ou sujos. Também entram em cena o Dr. Dentuças e a Dra. Favolas, para explicarem o que tem que ser feito para os dentes não se estragarem. Pelo meio há algumas canções.
Depois do espectáculo, tiram-se dúvidas e conversa-se com as crianças. «Ouvimos as experiências deles com os dentistas e finalizamos com a entrega de um kit de higiene oral composto por um livro, escova de dentes, dentífrico e flúor. A receptividade é boa. Eles fazem imensas perguntas», relata Susana Falardo Ramos com entusiasmo. Com efeito, durante a peça os mais pequenos riem e respondem a perguntas como quantas vezes têm que escovar os dentes por dia, quantos dentes têm, como se chamam os diferentes dentes e para que servem ou como se chama o médico que os trata. Tudo isto numa interacção constante que torna tudo muito divertido. «É uma experiência que me complementa enquanto médica dentista», admite Susana Falardo Ramos.
Cães São Bernardo
Os cães são outra das paixões da médica dentista do Montijo. «Houve uma fase em que não tive tempo para lhes dedicar, mas sempre convivi com eles», conta. «Tudo começou com o primeiro São Bernardo, que me foi oferecido em 2006. Infelizmente o Baltazar teve uma vida curta, apenas viveu 13 meses, mas este período foi mais que suficiente para me apaixonar pela raça e não poder mais viver sem a sua companhia». Em 2007, o casal Susana e Alexandre adquire o Sancho, mas após alguns meses verifica que, tal como as pessoas, os cães não devem estar sós, pelo que, já no início de 2008, adquire a Bernarda. «Ambos são uns exemplares magníficos da raça e têm um carácter excepcional», diz com orgulho Susana Falardo Ramos.
A figura destes São Bernardo transparece uma imagem de poder e força devido à sua dimensão. A cabeça é grande e larga, o pêlo longo, denso e resistente, contudo macio ao toque. Apesar da aparência imponente são cães calmos, maduros e descontraídos. Talvez devido à raça ter sido usada durante séculos como salvadores alpinos, este cães são uns verdadeiros gigantes gentis, delicados com as crianças e com outros animais de estimação.
Mesmo não sendo cães enérgicos ou brincalhões como outras raças, estes São Bernardo são bastante dedicados e ansiosos por agradar aos seus donos. Têm alguma tendência para ser teimosos ou obstinados, pelo que é importante discipliná-los desde muito novos para assegurar que não se tornam incontroláveis em adultos devido à sua força. Os problemas de saúde mais comuns à raça incluem a displasia da anca e cotovelo, torção do estômago e conjuntivite. E, constata-se, a baba é inevitável nesta raça.
Pedigree de campeã
Como hobby os cães já ocupavam a família de Susana. «O meu irmão também faz exposições caninas e desafiou-nos a participar, em Junho do ano passado, quando a Bernarda completou seis meses, idade mínima para poder participar em exposições. No dia em que fez seis meses levamo-la à primeira exposição, que se realizou no Hipódromo do Campo Grande, e ganhámos o título de melhor cachorro do mediterrâneo», diz, referindo-se à conquista do título ‘PMW08 – Best Female’ na Exposição Canina Internacional de Lisboa.
Os cães são avaliados pelo porte, peso, altura, equilíbrio da máscara, orelhas, cauda, andamento e outros parâmetros que permitem a classificação por machos e fêmeas e depois pela categoria que mais se aproxima do standard da raça.
O título da Bernarda foi atingido sem, quer a cachorro quer a médica dentista, entenderem o que fazer em ringue, que poses adoptar e movimentos a fazer. «Tive que aprender como me comportar e o que fazer com a cadela em exposição». Actualmente, a Bernarda participa quinzenalmente em provas e já ganhou um novo título, desta vez o ‘CPC – Melhor Cachorro de São Bernardo 2008’.
Entre provas, tornam-se importantes os treinos. «É algo que alivia o stress. Saio da clínica, chego a casa e trato dos cães». O ensino canino de competição é realizado no centro Doggy Clube, do Montijo. «Se os cães forem gulosos e estiverem motivados é mais fácil treiná-los. O Sancho é um típico São Bernardo, é pachorrento, mexe-se pouco e é muito difícil motivá-lo. Já a Bernarda é muito gulosa e torna-se fácil ensiná-la. É sempre compensada com um biscoitinho».
Em relação à falta de ética de muitos criadores de cães de raça, Susana Falardo Ramos, esclarece que faz tudo «por carolice, puro hobby, não sou criadora. Trato bem os cães, são meus amigos e vivem dentro da minha casa. Sei que nem todas as pessoas que participam nas exposições têm boas intenções com os cães, mas isso é um problema delas», demarca-se.
Os prémios atribuídos nas exposições caninas não são monetários, mas antes taças, lacinhos de cetim ou toalhas para limpar a baba. «Às vezes ganham-se sacas de ração que eu levo ao Canil Municipal de Alcochete. Os títulos ficam registados no pedigree do cão para os valorizar».
Os cuidados com a saúde geral do Sancho e da Bernarda não podem ser descurados. Já os cuidados com higiene oral estão, obviamente, entregues à especialista. «Como médica dentista do Sancho e da Bernarda (risos) tenho o cuidado de lhes vigiar a boca e os dentes, até porque é um dos parâmetros de avaliação em ringue. Tenho o cuidado de lhes escovar os dentes regularmente. Todas as noites dou-lhes um stick de higiene dentária, um palito mastigável com flúor e sabor a presunto. Temos que ter muito cuidado com a alimentação e a saúde oral canina. Há cães que têm muita tendência a formar tártaro e a ter problemas como cáries e dentes partidos», elucida.
Clínica da Atalaia
Com toda esta actividade extra-profissional, Susana Falardo Ramos não relega a Clínica Médica-Dentária da Atalaia, bem como a sua formação contínua. «Os projectos imediatos são a ampliação da clínica, a conclusão do doutoramento com a apresentação da tese e continuar a conciliar a minha actividade profissional, as horas que estou no consultório, com o tempo que me sobra e dedico a outras actividades». Como faz muita formação fora de Portugal, a médica considera-se atenta às novidades tecnológicas. «Tenho a clínica muito bem equipada», assegura, referindo o equipamento radiológico digital e para implantologia, endodontia microscópica, cirurgia oral diferenciada, periodontologia e para higiene. «Tenho tentado adquirir todos os anos, desde que abri a clínica, um equipamento novo», diz. Em complemento à medicina dentária, a clínica assegura também outras valências médicas.
Quanto ao exercício da sua especialidade médica em Portugal, Susana Falardo Ramos é concludente: «Não ficamos atrás de ninguém, neste momento, a nível internacional. Temos excelentes profissionais de medicina dentária em Portugal, com provas dadas lá fora, muito respeitados no meio médico dentário e ligados às mais variadas especialidades». Já a saúde oral dos portugueses merece outra consideração: «é má, mas não há motivos para ser assim, uma vez que já há muita informação disponível e as pessoas estão mais atentas. Contudo, mantém-se uma larga faixa da população que não sabe escovar os dentes ou utilizar o fio dentário e incuta esses erros aos filhos», lamenta, para adiantar que se entrou «numa fase muito evoluída em que se estão a fazer coisas extraordinárias como os implantes e as reabilitações orais complexas e a dar qualidade de vida aos portugueses», conclui, optimista.