Desde o início da Implantologia moderna, há mais de 50 anos, assistiu-se a um grande progresso em termos de materiais, técnicas e design dos implantes dentários. Embora a utilização de titânio e de liga de titânio se tenha mantido, a busca de materiais implantáveis isentos de metal começou nos finais dos anos de 60 e início de 70 do século passado e, durante a última década, a zircónia surgiu como a biocerâmica implantável mais fiável.
A Academia Internacional de Implantologia Cerâmica (IAOCI –International Academy of Ceramic Implantology) é uma organização que se dedica exclusivamente às alternativas metal-free para implantes com metal. Foi fundada em 2011 por Sammy Noumbissi, com o qual a Dental Tribune teve a oportunidade de falar sobre a missão e a visão da IAOCI, bem como sobre o panorama da implantologia cerâmica nos dias de hoje.
Dental Tribune: Pode fazer um enquadramento da evolução dos implantes cerâmicos?
Sammy Noumbissi: O uso de implantes dentários para substituir dentes aumentou muito rapidamente nos últimos 15 anos ou mais. O crescimento das técnicas de implantologia levou ao aumento do número de fabricantes. Ao longo do tempo assistimos igualmente à introdução de diversas ligas de titânio. Porém, tal como em qualquer outro produto médico ou farmacêutico, o aumento da procura e as mudanças nos métodos de produção trazem problemas e desafios. Inicialmente esporádicos, os relatos de intolerância ao titânio e à liga de titânio aumentaram e estão a ser cada vez mais investigados e comprovados na literatura científica da especialidade. Com base nos dados de investigação disponíveis atualmente, esta intolerância às ligas de titânio pode dever-se, em grande parte, à libertação de iões no osso hospedeiro e tecidos envolventes, como resultado da degradação e corrosão das ligas metálicas pelo contacto com os fluidos corporais e com o meio oral, em particular. Estes factos foram identificados e amplamente reconhecidos em Ortopedia. Nos finais da década de 60, os pioneiros em Implantologia cerâmica, começaram a procurar materiais cerâmicos modernos isentos de metal. No entanto, muitos dos primeiros implantes cerâmicos possuíam uma estrutura monocristalina e não conseguiram responder às exigências do meio oral. Seguiu-se o uso de policristais e, no início dos anos 2000, a biocerâmica de zircónia parcialmente estabilizada por ítria afirmou-se como o material de eleição em Implantologia, no âmbito dos implantes intraósseos sem metal.
O que o levou a envolver-se na investigação em implantes dentários cerâmicos?
O meu interesse por implantes cerâmicos surgiu de duas formas. Primeiro a nível pessoal, quando descobri que o implante e restauração com amálgama metálica que tinha na boca eram a causa de alguns dos meus problemas de saúde. Em segundo lugar, a nível profissional, quando alguns dos pacientes aos quais tinha colocado implantes metálicos regressaram para check-ups ou mais implantes, e após revisão do seu historial médico e dentário, se constatou que os implantes eram, pelo menos, parcialmente responsáveis pelos problemas de saúde verificados. Nessa altura comecei ativamente a procurar alternativas e a pesquisar na literatura científica, inclusivamente em relatórios de casos tanto em Ortopedia, como Implantologia Dentária. Estava claro que, nas duas últimas décadas, a biocerâmica se afirmava tanto em Medicina, como em Implantologia, como o material mais bioinerte disponível. Em 2011, juntamente com dois colegas decidi criar a IAOCI.
Qual é o principal objetivo da IAOCI?
As associações e academias existem em várias atividades ou indústrias. O objetivo comum deste tipo de grupos é organizar e criar um ambiente que apoie quem se dedica a determinada área. A IAOCI foi criada com o mesmo espírito, não só para organizar a Implantologia metal-free, mas também para dar à profissão, no seu todo, formação contínua de alta qualidade em biocerâmica como material implantável. A IAOCI é também um recurso para o público que procura médicos com experiência em implantes cerâmicos.
Na sua opinião, quais são os perigos associados aos implantes de metal?
Os implantes de metal, e especialmente os implantes de titânio, têm tido muito sucesso. O seu uso aumentou exponencialmente e, graças a isso, os fabricantes multiplicaram-se, tal como os protocolos de fabrico. Como resultado assistimos ao aumento constante de elementos da liga misturados com titânio durante o processo de fabrico. Os problemas surgem quando o implante em metal, com muita ou pouca liga, uma vez colocado está sujeito a stress funcional, galvanismo, fluidos corporais e a um meio oral hostil. A combinação de acontecimentos mecânicos, químicos e elétricos leva a aparecimento de fissuras, orifícios no metal, bem como quebras na camada de óxido e o implante sofre de corrosão. O ataque de corrosão, que consiste basicamente num processo oxidativo, leva à libertação de iões do metal que, segundo estudos, foram encontrados no osso envolvente, baço, fígado, a nível linfático e, em certos casos, a atravessar a barreira hemato-encefálica.
Que alternativas aos implantes dentários metálicos estão atualmente disponíveis no mercado?
Hoje em dia, o material alternativo ao metal em implantes dentários que está bem documentado e comprovado é o dióxido de zircónia, também conhecido como zircónia. Este é também um facto comprovado em Ortopedia. A zircónia é a fase cristalina do zircónio e, como tal, não é um metal. Existem diferentes protocolos de fabrico da zircónia para implantes dentários e todos eles originam uma diversidade de biocerâmicas policristalinas, como a zircónia-alumina, zircónia sintetizada por prensagem isostática a quente e a zircónia parcialmente estabilizada por ítria. As propriedades comuns e mais importantes destas biocerâmicas são o seu caráter inerte no osso e no meio oral, a estabilidade estrutural, ausência de atividade elétrica, a retenção de placa extremamente reduzida e a superioridade em termos estéticos.
A taxa de sucesso nos implantes metal-free é comparável à registada nos implantes de titânio?
Nos primeiros tempos houve desafios. Os materiais eram monocristalinos com superfícies extremamente polidas e vitrificadas, o que tornava os primeiros implantes mais suscetíveis a fratura, com pouca adesão às células ósseas e pouco contacto osso-implante. Os protocolos de fabrico, design, técnicas de modificação de superfície e tecnologias dos implantes de zircónia evoluíram de tal forma que a integração óssea está garantida e os resultados obtidos são comparáveis.
As alternativas cerâmicas são o futuro da Implantologia?
Cada projeção da indústria sobre implantes apresenta bons indicadores para o futuro. Atualmente, os implantes são largamente aceites pelos pacientes e pelos profissionais e continuarão a ser. Ambos os grupos reconhecem que este é o state of the art dos tratamentos. Contudo, graças à tecnologia, o público está muito mais informado sobre as terapias e as implicações para a saúde. Hoje encontramo-nos numa situação semelhante à que os aparelhos Invisalign viveram há alguns anos, no sentido em que os consumidores estão a impulsionar os dentistas a realizar uma implantologia metal-free. Nos próximos cincos anos, o número de implantes cerâmicos duplicará. Os materiais bioinertes são o futuro de qualquer tipo de dispositivo implantável. Acredito que a biocerâmica impera e estará presente por muito tempo porque se verificou uma viragem no sentido de prestar um cuidado de saúde minimamente invasivo e com o menor risco possível, de uma forma que é mais integrada, natural e biológica. Para além disso, os fabricantes evoluíram rapidamente e adaptaram o design do material e dos implantes às necessidades clínicas e à procura. Dispomos agora de uma grande variedade de design em implantes, microestruturas de superfície, componentes e ligações prostéticas o que permite aplicar os implantes de cerâmica num grande número de casos que requerem substituição de dentes.
Os médicos dentistas podem ter alguma apreensão quanto à fiabilidade dos implantes cerâmicos. Como lida com esta situação?
A necessidade de um grupo organizado existe até mesmo no seio das especialidades, porque no mundo atual a investigação e aplicação de inovações avançam à velocidade da luz, se compararmos com o que se passava há 20 anos. Por este motivo, enquanto um está num ambiente em que dedica muito do seu tempo e energia a pesquisar, aprender e partilhar as técnicas inovadoras, os membros têm um fórum onde podem obter a informação, formação e competências para prestar o melhor cuidado de saúde aos seus pacientes, sempre de uma forma organizada e cientificamente fundamentada. De facto, o número de membros duplicou nos últimos dois anos e quando questionamos a potenciais ou novos membros porque é que pretendem integrar a academia, a resposta mais comum é que procuram um fórum no qual consigam obter informação e formação estruturada. Outra razão frequente é o facto de alguns dentistas terem sido desafiados ou informados pelos pacientes sobre o uso, e por vezes, a existência de implantes cerâmicos. Através da tecnologia e do acesso facilitado à informação, o público obtém informação mais rapidamente do que nós, médicos ocupados.
O IAOCI irá organizar o 5º Congresso Anual de inverno em Montego Bay, Jamaica. O que se pode esperar deste evento?
Em 2016 o tema será a última década em Implantologia cerâmica. Teremos 14 oradores oriundos de sete países que irão partilhar as suas experiências na utilização de diversos sistemas de implantes cerâmicos nos últimos dez anos. Um dos nossos oradores convidados tem mais de 15 anos de experiência documentada com implantes de zircónia. Teremos igualmente workshops sobre diferentes sistemas de implante, produtos cerâmicos regenerativos e protocolos revolucionários para melhoria de tecidos moles e duros que comprovaram otimizar a integração do implante e a estabilidade a longo prazo.


