A história não é nada complicada. Luís Lapa Bessa foi até ao Brasil estudar Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, quando voltou a Portugal, foi diretamente dar aulas para a Universidade Fernando Pessoa, no Porto. Mas, ao fim de seis meses, acabou sair desta instituição de ensino superior. Quando questionado sobre esta “desistência”, Luís Lapa Bessa não podia ter sido mais sincero: “Falo demais. E quando não concordo, digo. Era muito chato e quando as coisas não estavam bem, e não estavam muitas vezes, eu falava… Não tinha as condições ideais para lá trabalhar e mandaram-me embora”. Um pequeno revés que em nada demoveu os propósitos de Luís Bessa. Apresentou os conteúdos da sua formação a outra instituição, o ICBAS, que acabou por apostar na concretização de uma formação em cadáver.
Mas desde sempre que o médico dentista se quis estabelecer. Juntou-se a cinco colegas e, precisamente nas instalações da empresa onde trabalhava antes de ir para o Brasil, fundou em 2013 a Iron [1]. Um desejo materializado o ano passado, quando a equipa apostou na sua primeira formação de implantologia em paciente. “Na área da cirurgia oral e implantologia faltam pós-graduações com três anos, a tempo inteiro. Há uma carência enorme de formação universitária no nosso país. Há pouca coisa… Existe um programa bom em Lisboa, mas por exemplo o programa do Porto já é mais fraco. E, além disso, as pessoas querem experiências fora, querem estudar com os melhores. Eu, por exemplo, aprendi muita cirurgia ortognática, algo que não existe nem em Portugal, nem na Europa. E esse foi o meu diferencial”.
E uma vez que o investimento na criação do Instituto foi todo realizado com capital próprio, no início cada um dos profissionais apenas dedicava um dia ao Instituto. “Somos cinco e cada um assumia um dia por semana. Agora já não é assim, já temos pacientes suficientes para nos dedicarmos mais. Eu, por exemplo, já estou três ou quatro dias aqui.” Uma característica que claramente distingue o Instituto Iron é o facto de apenas trabalharem com privados, não tendo qualquer convenção ou acordo com seguradora. “Admito que é um pouco trabalhar sem rede. No início foi muito difícil, mas a verdade é que os seguros não servem os interesses nem do doente, nem do médico. Servem apenas os das seguradoras. E nós aqui praticamos uma medicina dentária de alto nível.”

Foto: Ricardo Meireles
A maioria dos pacientes do IRON são “referenciados”, diz Luís Lapa Bessa. “Todos os profissionais são do Porto e recebo pessoas que já eram meus doentes antes de ir para o Brasil. Nunca fizemos nem fazemos qualquer tipo de publicidade. Muitas vezes são os próprios colegas que os referenciam porque sabem que nós aqui podemos dar uma resposta que eles próprios não conseguem. Temos muitas valências”. Assim, em termos de diferenciação, o Instituto distingue-se pela formação do corpo clínico, sobretudo na área cirúrgica. “Todos nós temos pós-graduações a trabalhar a tempo inteiro. Eu fiquei no hospital a tempo inteiro durante três anos. Temos uma formação muito sólida”.
Apesar de tudo, compensa trabalhar em Portugal? Luís Lapa Bessa diz que ponderou trabalhar fora quando terminou os estudos no Brasil, mas como o contrato de trabalho que a Universidade Fernando Pessoa lhe propôs era muito interessante, resolveu voltar. “E depois já tinha máquina oleada, pareceu-me uma boa aposta ficar em Portugal”. Ainda há lugar para as pessoas cá dentro? Há, diz Luís Lapa Bessa. Mas para quem quiser sofrer. “No início tem de ser um pouco por amor à camisola”, assumiu. Passados quase três anos da abertura do projeto, o retorno do investimento começa agora a acontecer. Mas só agora, garantiu o médico-dentista. Sem fazer, então, qualquer tipo de publicidade, a única promoção que o instituto faz é na rede social Facebook. “Nunca pagamos para sair em lado nenhum.”
A formação
A sala de formação do Instituto de Reabilitação Orofacial do Norte é imponente. Com capacidade para 50 pessoas, é aqui que são dadas as formações organizadas por este grupo de profissionais. Atualmente, o Instituto promove três vezes por ano um curso de implantes em pacientes —From Diagnosis to Final Prosthesis — onde os alunos aprendem desde o planeamento, acompanhamento dos pacientes até à colocação das próteses finais. “O curso é uma semana intensiva de cirurgia, depois os alunos voltam para fazer a reabertura dos implantes e, mais tarde, passado o período de cicatrização das reaberturas, vêm fazer as impressões e colocação das próteses. Cada aluno faz 10 implantes”.

Foto: Ricardo Meireles
Este curso tem habitualmente quatro alunos, até porque, diz Luís Lapa Bessa, o objetivo não é vender formação, mas ensinar profissionais. E torná-los parte da equipa. “Criamos uma grande interatividade com os alunos. Temos grupos on-line onde eles podem postar os casos, para que assim possamos dar seguimento aos casos, damos efetivamente aconselhamento clínico”. Têm ainda um curso internacional de Master Cadaver Lab, ministrado por Juan Alberto Ruiz e, em setembro, uma formação internacional sob a orientação de José Carlos Martins da Rosa, com a técnica IDR – Immediate Areolar Reconstruction.
De resto, mesmo em termos de negócio, a formação começa agora a ser interessante para o Instituto. Atualmente cerca de 30% da faturação da empresa é já realizada por esta via. “E está a crescer”. Nos próximos dois anos, Luís Lapa Bessa acredita que as clínicas low-cost vão perder terreno. Aliás, uma tendência que quer acreditar já estar a acontecer. Também profetiza que cada vez mais irão existir clínicas a trabalhar apenas com doentes particulares, para poderem exerce um nível de medicina dentária mais elevado. “E com melhores materiais, melhores tratamentos. O futuro é esse, trabalhar pela diferenciação, pela especialização.”