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Paramiloidose: Lusitana condição

Paramiloidose: Lusitana condição

O povo português possui características que o distingue de todos os outros, quer sejam os traços de personalidade ou as particularidades físicas. O certo é que esta herança genética e social tão rica também tem um reverso. Em 1952, o neurologista Corino de Andrade descrevia, pela primeira vez, a paramiloidose, uma patologia particular do lusitano. 

Foi em 2005, aos 99 anos, que Corino de Andrade disse adeus ao mundo físico. Todavia, o nome deste neurologista eminente, premiado internacionalmente, deste homem de ciência e de cultura, vai ficar para sempre gravado nas páginas da História.

A descoberta e caracterização de uma nova doença neurológica, a paramiloidose, também conhecida como doença de Andrade, projectou o seu nome a nível mundial, colocando-o para sempre nos manuais internacionais da especialidade.

Foi em 1939 que o médico, na altura director do serviço de Neurologia do Hospital de Santo António, observou uma doente com alterações sensitivas, motoras e disfunções autonómicas, cuja classificação não se enquadrava em qualquer situação patológica até então conhecida, de acordo com uma nota informativa cedida por Rui Faria, director clínico do Centro de Estudos e Apoio à Paramiloidose (CEAP). E o mais estranho ainda é que a paciente confidenciou ao especialista que na sua família e na localidade onde morava, na Póvoa de Varzim, existiam muitos casos semelhantes.

É então que Américo Graça, também médico, o começa a auxiliar, seleccionando-lhe os doentes, e Corino de Andrade passa a deslocar-se uma vez por semana à Póvoa de Varzim para os observar.

Durante mais de uma década, o neurologista estudou o problema, intrigado pelos sintomas apresentados pelos doentes, e em 1952 descreve, pela primeira vez, na revista “Brain”, a polineuropatia amiloidótica familiar (PAF) de tipo português, também denominada de paramiloidose, ou vulgarmente chamada por “doença dos pezinhos”.
Actualmente, a patologia encontra-se incluída no grande grupo das amiloidoses hereditárias, que por sua vez englobam as PAF, que se classificam do seguinte modo:
– PAF tipo I, de Andrade ou tipo Português;
– PAF tipo II, de Rukovina ou tipo Indiana;
– PAF tipo III, de Van Allen ou tipo Iowa;
– PAF tipo IV, de Meretoja ou tipo Finlandês.

No fundo, segundo Rui Faria, a paramiloidose é uma doença neurológica, hereditária, de transmissão autossómica dominante. É uma patologia que afecta o sistema nervoso periférico nas suas vertentes motora, sensitiva e autonómica. Inicia-se insidiosamente entre os 20 e os 40 anos e conduz a um desfecho fatal. A sua etiopatogenia está relacionada com a produção pelo fígado, retina e plexos coroideus de uma proteína plasmática anómala, a transtirretina (TTR) Met 30.

José Barbas do Amaral, assistente graduado de Estomatologia, do serviço de Estomatologia e Cirurgia Maxilo-Facial do Hospital Geral de Santo António (HGSA), descreve a paramiloidose de uma maneira semelhante. «É uma doença familiar, que afecta indivíduos jovens, que se apresenta como uma neuropatia autonómica, sensitiva e motora, e que se caracteriza pela presença de substância amilóide nos mais variados tecidos». O especialista descreve a amilóide como «um depósito in vivo de material, que pode ser distinguido de depósitos não amilóides pela sua aparência fibrilar ao microscópio electrónico, pela difracção típica ao Rx e pelo padrão de coloração histológica típica, particularmente a sua afinidade para o Vermelho do Congo, que lhe confere uma birrefingência verde».
A PAF é incurável, progressiva e afecta as dimensões biológica, psicológica, sociológica, cultural e espiritual do ser humano.

Viver com paramiloidose

Imagine-se o que é ter a existência comprometida aos 20 anos de idade. Enquanto a maior parte dos outros jovens pensa que tem a vida toda pela frente, o doente de PAF sabe que, provavelmente, só conseguirá sobreviver mais dez a 20 anos. E mesmo assim, a sobrevivência revela-se uma tarefa difícil e cheia de provações, que provavelmente faria muitos dos que se alcunharam de mártires ao longo da História se envergonharem.
Durante esta caminhada para um desfecho mais sombrio, o indivíduo vai sentindo, pouco a pouco, uma perda da sensibilidade, primeiro a dor e a temperatura, depois táctil, vibratória e articular. Mas a doença não ataca somente as fibras sensitivas. Lentamente, o doente vai sendo afectado por perturbações oculares e cardiovasculares. Os seus dias vão ficando marcados por crises de diarreia alternadas com as de obstipação, e também pelos vómitos. E, para além de tudo isto, ainda é assolado pela atrofia muscular e abolição dos reflexos tendinosos. No estádio final da patologia, o enfermo encontra-se acamado ou numa cadeira de rodas.

«A doença caracteriza-se principalmente por uma severa e progressiva polineuropatia sensitivo-motora e autonómica, com progressão para a morte em 10 a 20 anos», declara José Barbas do Amaral, explicando que «as principais manifestações sistémicas são os sintomas cardiovasculares com alterações da condução, traduzidas por disritmias, síncope e morte súbita; por sintomas gastrointestinais com períodos de alternância de obstipação e diarreia, que podem ser as primeiras manifestações da patologia; e por sintomas oculares, como a queratoconjutivite seca».

Diagnosticar a PAF

Numa designação mais popular, é apelidada de “doença dos pezinhos”, cuja razão se encontra no facto da «polineuropatia se manifestar por alterações nas fibras nervosas mais longas, determinando o aparecimento de feridas (úlceras, mal perfurante plantar) nos pés, onde os traumatismos são mais fáceis e de cicatrização difícil», refere Rui Faria. Além disso, «ao associarem-se nos membros inferiores as perturbações da sensibilidade com as da motilidade, confere-se à marcha destes doentes um carácter de steppage (marcha escarvante)», acrescenta José Barbas do Amaral.

O diagnóstico é feito pelo quadro clínico em indivíduo pertencente à família com paramiloidose e confirmado pelo teste da TTR. Não obstante, o estomatologista adverte para a situação do «diagnóstico ser admitido sempre que haja uma polineuropatia axonal crónica, principalmente se houver envolvimento autonómico, independentemente de haver história familiar». De acordo ainda com este especialista, «a descoberta do erro bioquímico e genético, que consiste na substituição da metionina pela valina na posição 30 no gene da transtirretina, veio transformar os critérios de diagnóstico e permitiram responder a muitas dúvidas acumuladas ao longo de anos de assistência clínica». Não esquecer que «a TTR é uma proteína existente no plasma e no líquido céfalo-raquidiano, que transporta a tiroxina e de forma indirecta o retinol, também designado por vitamina A», sublinha, revelando que «o fígado sintetiza 90% da TTR, sendo o principal órgão responsável pelo percursor proteico dos depósitos amilóides nos nervos periféricos e noutros órgãos e tecidos. A síntese extra-hepática da TTR faz-se no epitélio pigmentar da retina e nos plexos coroideus no cérebro».

No respeitante ao tratamento, Rui Faria afirma que «não há um específico para a paramiloidose», sendo que «o transplante hepático é a melhor terapêutica actual, ao eliminar o principal órgão de formação da proteína amilóide». Foi iniciada por Holmgren na Suécia, em 1991, e chegou a Portugal em 1992, através da Unidade de Transplante Hepático do Curry Cabral. A sua finalidade consiste na não evolução dos sintomas da paramiloidose, não sendo uma terapêutica curativa.

Quanto a outras formas de tratamento, o neurologista revela ainda que «estão em ensaio alguns fármacos promissores na eliminação da amilóide». O tratamento «inclui ainda medidas para prolongar a vida, como a colocação de pacemakers, a diálise e o tratamento das infecções», de acordo com o assistente em Estomatologia, que destaca «a fisioterapia como um método muito útil para o reforço e manutenção da capacidade motora dos doentes». Este especialista do HGSA atesta, tal como Rui Faria, que existem actualmente em fase de estudo e de ensaios clínicos novos medicamentos: «são duas classes de fármacos alternativos – os inibidores da formação de fibras e os promotores da sua desagregação».

A PAF é então uma patologia complicada e com poucos recursos ao alcance do médico no respeitante ao tratamento. Se o transplante hepático se apresenta como a melhor solução, o certo é que as listas de espera são uma realidade. Daí que a prevenção se torne num imperativo a discutir no contexto da patologia. Todavia, nem mesmo neste campo as opções são muitas.

«A prevenção é o controlo de natalidade, de modo a que não nasçam indivíduos em risco, o que pode ser feito por diferentes métodos, como a fecundação in vitro, que permite o despiste da TTR numa das células do desenvolvimento inicial, sendo apenas implantados os embriões não portadores», defende Rui Faria. Neste caso, fala-se do diagnóstico genético pré-implantatório, um procedimento que exige o recurso às técnicas de reprodução assistida, que se encontra em fase experimental e cuja taxa de sucesso se situa nos 25%.

Não obstante, continua o médico, «em alternativa, podemos considerar o abortamento, quando, numa gestação em evolução, por amniocentese, se verifique que o indivíduo é portador de TTR». O diagnóstico pré-natal é realizado entre as 14 e as 16 semanas de gravidez.

Outra das alternativas é o «diagnóstico pré-sintomático, onde o protocolo de aconselhamento genético e análise psicossocial para teste pré-sintomático se realiza no Centro de Estudos de Genética Preditiva e Preventiva do Instituto de Biologia Molecular e Celular do Porto e é comum aos Centros em Coimbra, Lisboa e Ponta Delgada», informa José Barbas do Amaral.

Em Portugal e no mundo

Descoberta por um português e sendo uma doença específica de Portugal, pelo menos a de tipo I, a PAF tem «maior incidência na área litoral centrada na Póvoa de Varzim, principalmente de Mindelo à Apúlia», segundo o neurologista do CEAP, que alerta para uma importante prevalência noutras áreas, designadamente «à volta da Figueira da Foz, em Unhais da Serra, Covilhã e, mais recentemente, no vale do Tejo».

Quanto à razão do foco principal da patologia se encontrar na área da Póvoa de Varzim, o médico sugere que, «com toda a probabilidade, se deve à situação de aqui ter aparecido o primeiro doente no tempo dos Descobrimentos e ao facto da comunidade piscatória ser bastante fechada em termos de constituição de família».

«Na primeira descrição feita pelo Dr. Corino de Andrade, 54 dos 64 doentes viviam nos concelhos de Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Esposende e Barcelos», reforça o estomatologista, segundo o qual, «actualmente, a doença está amplamente distribuída pelo território nacional». Mas não só. «Estão identificados focos da doença em todo o mundo, sendo os principais na Suécia, Japão e Maiorca», acrescenta.

Para o médico dentista

De acordo com José Barbas do Amaral, «não existem manifestações orais específicas da paramiloidose».
Continuando a sua disposição, o especialista diz que «a xerostomia raramente é valorizada pelos doentes, uma vez que são os sintomas gastrointestinais que dominam o quadro clínico e não parece haver uma incidência aumentada da cárie e da doença periodontal». No entanto, defende, «nos estádios avançados da doença, existe uma diminuição do fluxo salivar, quando comparado com a população em geral, e sendo o transplante hepático o único tratamento disponível para esta doença, recomenda-se a sua observação e tratamento antes da cirurgia, a fim de serem tratados todos os focos infecciosos».

Após o transplante, o estomatologista aconselha que «os doentes devem ser observados três a quatro vezes por ano, para controlo da sua higiene oral e da doença periodontal, para tratamentos se for o caso, e para a observação e resolução dos efeitos colaterais dos fármacos imunossupressores».

Por outro lado, com a progressão da patologia e a incapacidade motora que atinge os membros superiores, principalmente as mãos, José Barbas do Amaral menciona que «deve fornecer-se material adequado para que o doente possa cuidar da sua higiene oral».

Fontes consultadas:
http://www.paramiloidose.org/
http://dn.sapo.pt/2005/06/17/sociedade/faleceu_corino_andrade.html

Dar apoio

Estava-se em 1980 quando a Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Varzim considerou a hipótese de estudar um projecto que permitisse uma intervenção mais activa na prevenção e apoio aos doentes de paramiloidose e aos seus respectivos familiares, devido à elevada prevalência de indivíduos com a patologia na Póvoa de Varzim.
O Centro de Estudos e Apoio à Paramiloidose (CEAP) viria a ser aberto a 25 de Julho de 1989, ao abrigo de protocolos de cooperação entre a Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Varzim, o Centro Regional de Segurança Social do Porto e o Ministério da Saúde, sendo a única instituição deste tipo no país.

Neste sentido, o CEAP surgiu com a finalidade de, por um lado, prestar apoio clínico e social ao doente e à sua família e, por outro, dedicar-se à investigação científica nesta área.

Para além do CEAP, é de destacar também a Associação Nacional da Paramiloidose. «Não posso deixar de sublinhar o papel importante e decisivo desta instituição no reconhecimento da dignidade que assiste a estes doentes e no atenuar do estigma social que os acompanha», declara José Barbas do Amaral, acrescentando que «com a realização dos seus encontros anuais, tem contribuído para que os avanços conseguidos pela investigação sejam partilhados pelos doentes e pelos trabalhadores da saúde, envolvendo um maior número de familiares e amigos da paramiloidose num único objectivo, que é o da procura dos meios terapêuticos mais adequados para o conforto físico e moral que estas pessoas merecem».

A vida de um grande homem

10 de Junho é dia de Portugal, de Camões, das Comunidades e também de Corino Andrade, visto que foi nesta data, em 1906, que o neurologista nasceu, em Moura, no Alentejo. O pai, médico veterinário, acabaria por influenciar a sua futura escolha profissional.

Depois do liceu, em Beja, o jovem Corino ruma a Lisboa, onde estuda Medicina, terminado o curso em 1928 e estagiando com António Flores, em Neurologia. Mas Corino de Andrade não ficará muito tempo em Lisboa, uma vez que, em 1930, parte para França e é em Estrasburgo que se instala, para trabalhar na Clínica Neurológica da Faculdade de Medicina daquela cidade, juntamente com Barré, um dos mais famosos neurologistas na época. Mais tarde, chegou a chefiar aí um laboratório.

Em 1938, a doença do pai força-o a regressar a Portugal. Não obstante, os seus pares não o recebem exactamente de braços abertos. Apesar de já ser um nome respeitado e premiado internacionalmente na Neurologia, em Lisboa não lhe são concedidas oportunidades e, por isso, vai para o Porto. É a partir «de uma cave cheia de nada», como lembra Maria Augusta Silva, autora da sua biografia "Corino Andrade Excelência de uma Vida e Obra", de 2002, citada pelo “Diário de Notícias”, que o neurocientista lança o que virá a ser uma escola de referência nesta área médica a nível internacional.

No Hospital de Santo António cria a sua primeira equipa e começa a formar discípulos. Em 1952 identifica a paramiloidoise, que ficará até hoje popularmente conhecida como a "doença dos pezinhos", e publica os seus estudos sobre a patologia na revista científica "Brain". Mais tarde dá um importante contributo para o estudo de uma outra doença neurológica, a de Machado-Joseph.

Acalentando sempre o sonho de uma escola que aliasse ensino e investigação, Corino de Andrade só depois do 25 de Abril veria o seu ideal tornar-se realidade. Com Nuno Grande, funda, em 1975, o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, que se tornou uma referência.

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