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Passos cadentes

Começou por dançar ballet muito nova, mas acabou por desistir. «O ballet é muito rigoroso, é uma espécie de “serviço militar” para meninas, e eu nunca gostei muito das regras. Andava sempre ao contrário do que as professoras exigiam: ou não levava o material todo ou o cabelo não ia amarrado em condições», lembra Denise Lameiro, de 26 anos, entre sorrisos.

A jovem médica dentista começou por fazer o ensino secundário em Aveiro, onde nasceu e vive, e logo aí se dividiu entre Ciências e Artes & Letras. «Foi difícil escolher. Acabei por optar por Ciências mas o gosto pelas Letras ainda perdura. O meu gosto pela leitura é quase compulsivo, desde a divulgação científica à literatura em geral. O gosto pelas línguas também se mantém e inclusivamente fiz um curso de espanhol durante dois anos e pretendo, assim que surgir a oportunidade e houver tempo, aprender italiano», confessa Denise Lameiro.

O interesse por medicina dentária surgirá mais tarde, no momento em que finalizava o ensino secundário, o que devido aos antecedentes familiares não surpreenderá. «O meu pai possuía uma clínica de medicina dentária, onde eu costumava ajudar nas férias, e foi talvez esse o impulso determinante na minha escolha». Uma opção de que Denise Lameiro não se arrepende, muito embora mantenha horizontes alargados.

Como aluna na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto (FMDUP) virá a gostar da grande maioria das aulas leccionadas na Faculdade de Medicina do Hospital de S. João, das quais destaca a Biopatologia e o professor Sobrinho Simões. Já na FMDUP, Denise Lameiro destaca a Ortodontia e os professores Pinhão Ferreira, Cristina Pollmann e Dias Lopes e a Odontopediatria e os professores Casimiro de Andrade e Paula Macedo, «foram exactamente as áreas que decidi seguir», reconhece a médica dentista de Aveiro, para recordar que «os seis anos da faculade não decorreram, antes, correram. Foram muito agradáveis e inesquecíveis, com muito trabalho e esforço, mas também com muita alegria e amigos», lembra.

Dance music

Em 2007, terminado o curso, Denise Lameiro inicia de imediato a actividade clínica. «Já possuía um consultório “à minha espera”. A transição para o mercado de trabalho é sempre um passo complicado e só gradualmente se vai ganhando confiança. A prática, a pesquisa, o estudo e o contacto com a faculdade vão dissipando lentamente esses receios», diz segura. É nesta altura que a jovem médica dentista decide regressar à dança, desta vez contemporânea. «Faço da dança uma forma de exercício físico aliado ao divertimento e ao convívio. Dançar é algo que gosto bastante de fazer, porque há expressão de sentimentos, porque me sinto bem e me dedico realmente a isso», esclarece. «A dança é claramente uma manifestação artística. Gosto de ver um bom espectáculo de dança, clássica ou moderna».

A preferência vai para os ritmos latinos, brasileiros e africanos. «Gosto de ritmos livres, de expressões que exijam o que nós temos para dar, que é o caso do hip-hop, house, samba, salsa e jive». Denise Lameiro treina cerca de duas vezes por semana em aulas de grupo no ginásio que frequenta. Das actuações ao vivo revela que «as mais importantes foram as integradas na iniciativa “Beira-Mar Solidário” que o clube desportivo de Aveiro tem vindo a organizar», adianta.

Com 1,67 m de altura e 58 quilos de peso, a condição física de Denise Lameiro está exposta a lesões, resultado do esforço realizado nos treinos. «No último espectáculo no estádio do Beira-Mar as dores no tornozelo eram tão fortes que saí do espectáculo a coxear». Um sofrimento que a médica dentista não sabe comparar a uma odontalgia. «Felizmente não sei o que é uma dor de dentes. Pelo contrário, sei bem o que é uma pisadela na dança ou, pior do que isso, sei o que são unhas dos pés completamente partidas por causa da dança». Com talento para a dança contemporânea, Denise Lameiro experimenta algumas dificuldades na dança de pares, uma prova de que, apesar do chumbo nos dentes ter sido descontinuado, os pés de chumbo na dança ainda persistem. «Sou um autêntico desastre a dançar a par. Tirem os pés de baixo de mim, senão há calcadela na certa. Até estou a pensar ingressar numa escola de dança especializada em ritmos dançados a par», adianta.

Outro exercício exigente que Denise Lameiro faz é o da gestão diária do seu tempo. «Trabalho todos os dias das 9h às 19h e ao sábado de manhã. Às terças e sextas-feiras tenho aulas de pós-graduação em Odontopediatria na faculdade. No último fim-de-semana de cada mês tenho aulas de pós-graduação em Ortodontia. Nos espaços vazios durante o dia aproveito para trabalhar no meu projecto de investigação para a pós-graduação e adiantar os trabalhos que tenho de apresentar», refere a médica dentista, para confessar que «já cheguei a treinar de noite e aos domingos para aproveitar o tempo livre».

Para além da dança, Denise Lameiro gosta de ouvir todo o tipo de música, «desde o rock à clássica, passando pela música brasileira e portuguesa, flamenco, chil -out e dance music. Ando sempre em busca de sonoridades e temas novos e de grupos emergentes». Como na dança, o ritmo é a pulsação da música.

Clínica da ria

A clínica onde Denise Lameiro trabalha é totalmente familiar. «O meu pai também é médico dentista e trabalha comigo, a minha assistente é minha tia e a gerente da clínica é a minha mãe», conta, justificando assim ter um total apoio e flexibilidade para gerir a sua agenda. A “Dentalria – Clínica de Medicina Dentária” situa-se em Aveiro, conhecida pela sua “Festa das Flores” e pela Banda de Gaitas.

«Comprámos o espaço e montámos uma clínica que nos permite autonomia suficiente para prestar um trabalho completo ao cliente. O investimento foi avultado porque o equipamento é caríssimo». Foram adquiridas cadeiras, autoclaves, aparelhos de raios X (intra-oral, ortopantomografia e telerradiografia), instrumentos e materiais para o exercício da implantologia e cirurgia oral, ortodontia, estética e endodontia mecanizada. «E o investimento não pára porque precisamos acompanhar a evolução tecnológica, que é rapidíssima, sendo parte dos lucros reinvestido em novas aquisições e melhoria do espaço», revela Denise Lameiro.

Com muita oferta de especialistas, o mercado está repleto de soluções para todos os problemas de estomatologia e medicina dentária. «Infelizmente, com a crise, o desemprego e os problemas económicos da população portuguesa, já tão carenciada em cuidados médicos, a saúde oral poderá agravar-se». Ainda assim, Denise Lameiro considera que a saúde oral dos portugueses «tem vindo a melhorar, porque há uma maior preocupação da parte das pessoas em manter um sorriso bonito mas também cuidado, e há mais informação e mais e melhores produtos dentários disponíveis para a população», afirma.

Sequência de movimentos

Agora que a pós-graduação em Odontopediatria, com a duração de um ano, vai a meio e a pós-graduação em Ortodontia, com duração de três anos, completou apenas o primeiro ano, Denise Lameiro tem «muito com que se ocupar». Solteira e sem filhos, a médica dentista pretende vir a tirar um curso de Ortodontia Lingual e outro de Ortodontia Preventiva e Interceptiva. «Quando me formei procurei aprender mais, e ainda procuro, nas áreas que mais me interessam Estas são duas áreas que se interligam e trabalham juntas, já que a maioria dos pacientes são crianças ou adolescentes». Trabalhar com crianças para Denise Lameiro é apaixonante. «São sempre um desafio, muito sinceras e fiéis. Precisamos de nos munir de toda a paciência para cativar e trabalhar com crianças, mas no fim sentimo-nos sempre gratificados pelo trabalho desenvolvido», diz.

Apesar de ter iniciado recentemente a sua formação pós-licenciatura, a jovem médica dentista de Aveiro já cursou Endodontia Mecanizada, Traumatologia Oral e Protecção Radiológica em Radiologia Dentária. «Seis anos de faculdade apenas nos orientam para uma vida profissional que exige uma constante aprendizagem, renovação e aquisição de conhecimentos. A formação contínua é uma necessidade e a especialização numa área da saúde médico-dentária revela-se uma tendência cada vez mais enraizada», esclarece. Um ritmo de vida exigente mas não excessivamente intenso para quem quer «continuar a dançar e a divertir-se».

O ritmo é uma lei universal a que tudo se submete e que, na vida, desenvolve e harmoniza. Para Denise Lameiro o ritmo é também um princípio vital do qual está dependente para todas as atividades que realiza, quer na vida profissional quer nas actividades de expressão artística e desportiva. Na dança, vive esse ritmo com arte.