Por sempre ter gostado de actividades minuciosas e trabalhos delicados, e numa época em que havia carência de médicos dentistas no Brasil, Paulo Dantas não hesitou em ingressar, em 1990, na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. «Foi uma das melhores fases da minha vida, o meio universitário, a juventude e a vida em repúblicas», recorda, o que não surpreende por se tratar da cidade do clube de futebol “Botafogo FC”, onde se formou Sócrates, um dos melhores jogadores do Brasil e também médico; e ser a sede da cervejeira fabricante da “Chopp Antarctica”, referências importantes para um jovem estudante.
O Campus de Ribeirão Preto localiza-se no município onde se situa o parque tecnológico para a pesquisa e desenvolvimento das áreas de saúde e biotecnologia da região, e onde se sediam as indústrias de equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos. «O curso correu muito bem», lembra agora o clínico geral de 45 anos, para adiantar que o facto de «ser uma profissão liberal com flexibilidade de horários» também o ter atraído.
Terminados os estudos de odontologia e com família em Salvador, a capital baiana, é aí que Paulo Dantas inicia a sua vida profissional e se mantém durante dois anos. Vive naquela que é o centro da cultura afro-brasileira e é reconhecida como «a capital da alegria, devido a festejos populares como o Carnaval de Salvador». É nessa altura que o amigo Marcos Tanaka, actual colega de consultório na Parede e com quem viveu na mesma residência de universitários, lhe falou da sua experiência em Portugal. «Depois de ganhar experiência no Brasil, desejava viajar e conhecer a Europa. Decidi passar uns anos em Portugal, para depois regressar ao Brasil», conta.
Adaptação e evolução
Paulo Dantas chega a Portugal em 1992 com a ideia de aqui passar dois ou três anos. «A minha chegada coincidiu com a polémica em Portugal sobre os dentistas brasileiros, embora nem eu, nem colegas meus, tenhamos sentido qualquer tipo de problemas», recorda, para constatar que «o mercado português reagiu, e com alguma razão, porque há sempre quem fique de fora. Nós tínhamos uma formação mais específica, uma maneira de falar com os pacientes um pouco mais delicada e calma. Eram os pacientes que o diziam», lembra. Isto na época, uma vez que, hoje em dia, «já não há essa fama de os dentistas portugueses serem mais brutos». Por outro lado, «algumas das censuras aos dentistas brasileiros eram justificadas, porque alguns não tinham adequada formação académica de odontologistas», admite.
O início da carreira de Paulo Dantas em Portugal «foi difícil, em grande parte pelas dificuldades em conseguir uma clientela regular», conta. Começou por trabalhar com um colega, sempre em Clínica Geral, uma vez que fez cursos complementares mas nunca especialização.
A adaptação também foi exigente para o médico dentista brasileiro, em particular na linguagem a utilizar. «Alguns dos termos que usamos no Brasil são diferentes e a própria relação do médico com o paciente reflecte as culturas diferentes», considera. Paulo Dantas começou por trabalhar na Clínica José Cautela, em Lisboa. «Estive lá sete ou oito anos e aprendi muito com a grande afluência de clientes», reconhece.
«Preços devem ser justos»
Depois de quase duas décadas em Portugal, Paulo Dantas não hesita em avaliar o progresso na sua área. «A medicina dentária evoluiu muito na última década em Portugal e está a um excelente nível. As pessoas saem das faculdades com uma óptima formação», afirma. «Acho que as clínicas estão muito bem equipadas. Tem-se em Portugal da melhor tecnologia, equipamentos e material dentário. E verifica-se uma crescente especialização nas diversas áreas». Contudo, o «excesso de médicos dentistas no mercado está a levar a que surjam clínicas populares, com preços muito baixos. Com a crise as pessoas escolhem naturalmente pelo preço em detrimento da confiança nos profissionais. Os preços devem ser justos», defende.
Também em relação à saúde oral dos portugueses, Paulo Dantas regista uma evolução muito significativa. «Quando me iniciei profissionalmente em Portugal, grande parte das pessoas desconhecia o que era um fio dentário, não sabiam técnicas de escovação e não tinha preocupações com a prevenção», lembra.
O médico dentista brasileiro enaltece a Ordem dos Médicos Dentistas e os programas de saúde oral que contribuem para essa melhoria, «embora ainda haja poucas pessoas a usufruir desses serviços», nota, realçando também a importante função dos médicos dentistas clínicos gerais, «na orientação da saúde oral».
Como pai de duas filhas, de seis e 12 anos, incentiva que elas «brinquem um bocadinho com a escova. Mas todas as noites, quem ajuda a dar o toque final sou eu. As crianças não têm a coordenação motora apropriada e não custa nada ajudá-las a fazer uma higiene oral completa», clarifica, o que contribui para que «nunca tenham tido qualquer cárie». Em contrapartida, uma das filhas de Paulo Dantas já teve que usar aparelho fixo para correcção dental e foi o pai a fazer o tratamento, «o que não foi muito agradável».
«Golfe é viciante»
Os tempos livres de Paulo Dantas são preenchidos com a prática do que designa de «melhor jogo do mundo». O golfe surgiu por influência de colegas que o levaram até a um driving range para aprender a bater bolas, no que funciona como um mini-campo dentro do campo oficial de golfe, onde estão simuladas uma série de situações reais de jogo. Pouco depois, «já estava a fazer umas aulas no Centro Nacional de Formação do Complexo Desportivo do Jamor, com professores e a um preço acessível». O clínico geral reconhece que «o início é complicado, até ao momento em que passamos a ter um swing mais correcto», o movimento correspondente à pancada na bola com o taco.
O golfe requer intensa dedicação e muito tempo, uma vez que «jogar com os amigos ao fim-de-semana não chega». O único adversário do golfista é o próprio campo, assim o resultado depende do esforço individual e sorte do praticante para baixar a pontuação total no campo. «Durante a semana, em vez de fazer almoços longos com muita conversa, opto por comer uma sandes rápida e ir bater bolas durante uma hora. Faço isso duas ou três vezes por semana. Agora no Verão faço isso ao final do dia. É viciante. Talvez por isso as mulheres dos praticantes sejam apelidadas de viúvas do golfe». Paulo Dantas chegou a Portugal só e solteiro. Depois de um ano, conheceu a agora esposa, que é portuguesa. Entretanto já é pai de duas filhas, depois de 14 anos de casamento.
«Busca pela perfeição»
«Só me iniciei no golfe em Portugal porque no Brasil é muito elitista. Em Portugal o golfe está bem difundido, em todos os níveis etários», isto para além de não ser tão dispendioso. «O que pago de mensalidade para poder jogar nos dias, e às horas que quiser, é mais barato que um maço de cigarros por dia. Há equipamento para todos os preços», adianta Paulo Dantas.
«Jogo há dois anos e meio e participo em torneios onde tenho progredido. De um handicap 36 já estou com um handicap 18 e com possibilidade de baixar mais um bocadinho», diz confiante na melhoria do seu nível de jogador. «Há uma busca pela perfeição e há o prazer de jogar», diz com satisfação.
O clínico geral frequenta o “Belas Clube de Campo”, no vale da Serra da Carregueira, em Sintra. O percurso, completo e diversificado, tem 6.380 metros para 18 buracos. «O golfe é um desporto cada vez mais atlético, requer muitas caminhadas, para quem anda a pé e não de buggy. Não é um desporto só para “coroas”». Com efeito, o golfe é um exemplo de actividade física cardio-saudável que fomenta o desejo do agradável convívio ao ar livre.
No golfe, o grau de dificuldade é complicado e a concentração necessária é muito elevada. «A precisão e concentração é o que há de comum entre a medicina dentária e o golfe. Ambas exigem muita focalização e não permitem estar a pensar noutra coisa». Daí que um torneio entre médicos dentistas fosse o melhor dos dois mundos. «Seria uma coisa bem interessante a ser organizada», admite Paulo Dantas, até porque «o golfe é um excelente desporto para promover a sociabilização e fazer amigos. Nunca joguei com um paciente meu, embora já tenha acontecido ter jogado com pessoas que depois apareceram no consultório», revela.
«Handicap de um dígito»
Integrado em Portugal, a visão de Paulo Dantas para o futuro quer como praticante de golfe, quer na profissão, passa pela melhoria de capacidades e competências. «No golfe quero continuar a tirar o máximo das partidas e reduzir o meu handicap. Espero chegar ao handicap de um dígito, o que ainda vai exigir um longo percurso a percorrer» antecipa.
A nível profissional, «com a crise financeira a tornar as coisas cada vez mais difíceis e com a proliferação de clínicas dentárias, preocupa-me que as dificuldades económicas das pessoas as impeçam de fazer tratamentos adequados. Espero que o acesso aos cuidados médicos chegue a toda a população». A nível mais individual, o clínico geral diz querer continuar a actualizar-se «com as novas técnicas e tecnologias para poder prestar os melhores serviços. É a obrigação que temos para com os clientes», assume. Entretanto, planeia continuar a dividir a sua semana de trabalho entre os consultórios na Parede, Mem Martins e Alverca e aproveitar a vantagem de, assim, «haver menos rotina» na sua vida profissional.
Já na vida pessoal, Paulo Dantas confessa a sua apropriação de Portugal, para o que as filhas «completamente integradas», muito contribuem. «Gosto de Portugal como se fosse o meu país. Não há preconceitos», garante. As idas ao Brasil resumem-se a «uma vez por ano, em férias. Tenho lá a minha família e amigos. É sempre bom voltar à Bahia ou São Paulo», justifica na sua melodiosa pronúncia luso-brasileira.