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Recuperação estética através de facetas cerâmicas

Na medicina Dentária atual os resultados estéticos são tão importantes e valorizados como os funcionais. Durante décadas restaurações dentárias de cobertura coronária total foram o tratamento de eleição, com resultados previsíveis, mas obrigando a uma maior destruição de tecido dentário são. As facetas cerâmicas vieram mudar o paradigma, permitindo atingir ótimos resultados estéticos e funcionais acrescentando a estes biocompatibilidade e biomimetismo através de uma dentisteria minimamente invasiva.

Estudos mostram taxas de sucesso deste tipo de restaurações cerâmicas laminadas de cerca de 95% a 10 anos e com taxas de fratura semelhantes a dentes intactos. Assim sendo, podem ser utilizadas numa vasta gama de situações clínicas, nomeadamente dentes com restaurações extensas ou fraturados, alterações de forma e cor ou encerramento de diastemas. O sucesso deste tipo de reabilitação depende de inúmeros fatores passando não só pelo preparo dentário e manutenção dos tecidos periodontais, como também um rigoroso protocolo de cimentação. A realização de um enceramento diagnóstico é crucial. Permite ao paciente, através da realização de um “mock-up” visualizar as alterações propostas tornando reais as suas expectativas, como também permites criar guias de redução que irão guiar o preparo necessário à confeção das facetas.

A preparação dentária é minimamente invasiva com desgastes axiais próximos dos 0,5/0,7mm para manutenção, sempre que possível, do preparo em esmalte para uma melhor adesão e menores riscos de sensibilidade dentária pós-operatória. A linha de acabamento é justa gengival evitando a invasão do espaço biológico. Na cimentação adesiva deve ser utilizado um protocolo adequado ao material utilizado e rigoroso. Por norma são utilizados cimentos resinosos fotopolimerizáveis que são fáceis de manipular, possuem consistência ideal e estabilidade de cor.

As facetas cerâmicas mostram ser um ótimo tratamento estético graças à não pigmentação da cerâmica e manutenção do brilho acrescentando vantagens a nível de dureza semelhante ao esmalte, bem como boa saúde periodontal e vitalidade pulpar.

Caso Clínico

Paciente do sexo masculino de 37 anos de idade, aparentemente saudável, com hábitos tabágicos, procurou tratamento na CMDC com o objetivo de mudar o seu sorriso, mostrando-se descontente com as inúmeras restaurações inestéticas e diferenças cromáticas no sector antero-superior. O exame clínico mostrou-nos peças dentárias (12, 11, 21 e 22) com restaurações extensas, desadaptadas com recidivas de cárie. De notar também as alterações cromáticas e uma desarmonia nas margens gengivais, especialmente nos dentes 11 e 21. O seu histórico médico não revelou quaisquer sintomas ou queixas relacionados com a oclusão ou disfunção temporomandibular.

O início do estudo passou pela realização de uma gengivectomia para alinhamento das margens gengivais, para que se conseguisse uma boa harmonia no trabalho final. Foram também substituídas todas as restaurações em resina e tratadas todas as lesões de cárie. Após 2 meses de espera para uma boa cicatrização dos tecidos periodontais procedeu-se a um enceramento diagnóstico onde se incluíram os 4 incisivos superiores.

Na consulta seguinte foi realizado o “mock-up” a partir do enceramento, permitindo prever o resultado final do tratamento. Este mesmo “mock-up” foi aprovado pelo paciente.

Fez-se um guia de silicone com base no enceramento. Este guia é recortado de forma a permitir o adequado e rigoroso controlo do desgaste, uniforme em toda a superfície dentária, de aproximadamente 0,5mm. Iniciou-se o desgaste sobre o “mock-up”, com 2 sulcos horizontais, com uma broca esférica, sendo estes guia para a redução vestibular, marcando o fundo dos mesmos com um lápis de forma a auxiliar no controlo de redução. Seguidamente iniciou-se a redução vestibular, com uma broca tronco cónica controlando sempre a profundidade dos sulcos com a chave de silicone com o intuito de criar um espaço uniforme de 0,3-0,5mm.

O espaço necessário para o bordo incisal é de 1,5mm; o controlo da redução incisal também se fez com a chave de silicone. O desgaste dos dentes foi o mínimo possível para podermos trabalhar sempre sobre esmalte ou resina composta nas zonas das restaurações previamente refeitas. A nível interproximal o desgaste foi feito ligeiramente para além do ponto de contacto entre os dentes. No acabamento é importante que as preparações não apresentem ângulos agudos, procedendo-se ao polimento dos preparos com discos flexíveis.

Procedeu-se de seguida a uma cuidadosa impressão dos preparos, colocando-se um fio fino (000) no fundo do sulco gengival embebido em solução hemostática, foi colocado de seguida um fio de maior espessura (0) que, por sua vez, foi removido imediatamente antes da impressão realizada em silicone com dupla mistura.

Após as impressões e com a muralha obtida a partir do enceramento confecionou-se o provisório, colocando material provisório no interior da mesma e levando-a à boca, sobre os dentes preparados, onde previamente tinha sido feito o ataque ácido (spot-etch) com ácido ortofosfórico 37% de forma a reter a restauração provisória. Depois do material estar endurecido, removeram-se excessos e realizou-se cuidadoso acerto e polimento.

No dia da colocação das facetas de dissilicato de lítio, material que nos pareceu válido com base na sua resistência e boas propriedades estéticas, procedeu-se a cimentação.

Verificamos assentamento e adaptação marginal das facetas e procuramos, mais uma vez, aprovação por parte do paciente. Procedeu-se então ao isolamento absoluto de 13 a 23, seguindo-se o protocolo de cimentação de acordo com a tabela 1.

Sequência de procedimento para preparação do dente

 

Limpeza da superfície dentária

 

Aplicar ácido ortofosfórico 37% durante 30 segundos

 

Lavar abundantemente com água durante 20 segundos e secar

 

Aplicar resina hidrofóbica (Excite®) – Não fotopolimerizar

Sequência de procedimentos de preparação da superfície de dissilicato de lítio

 

Aplicar ácido fluorídrico 5% durante 20segundos

Lavar abundantemente 20 segundos

Aplicar ácido ortofosfórico 37% durante 15 segundos

Lavar abundantemente 20 segundos e secar

Aplicar álcool etílico a 95% e secar

Colocar facetas em banho de ultra-sons com água destilada 5 minutos e secar

Aplicar gota de silano

Aplicar ar quente de secador durante 1 minuto

Aplicar resina hidrofóbica (Excite®) – Não fotopolimerizar

Misturar cimento e aplicar na face interna da faceta

Aplicar faceta sobre o dente fazendo pressão provocando extravasamentos de excessos

Fotopolimerização durante 3 segundos e remoção de excessos

Colocação de gel de glicerina e fotopolimerização 1 minuto por face

andre lima roque

André Lima Roque – Licenciado em Medicina Dentária pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde do Norte; Especialista nas áreas de Implantologia e Reabilitação Oral; Docente no ISMAI e no Centro de Formação Prof. Fernando Almeida; Participação em cursos e congressos nas mais diversas áreas da Medicina Dentária

 

Conclusão

Facetas cerâmicas apresentam uma crescente aplicabilidade na Medicina Dentária devido aos excelentes resultados estéticos que conseguem alcançar, associados a uma elevada longevidade clínica, alta resistência e boa manutenção dos tecidos periodontais. É importante a realização de um estudo prévio do caso, para que se possa obter o sucesso pretendido, pois muitas vezes são necessários tratamentos adjuvantes, como é caso de tratamentos ortodônticos e/ou periodontais. Nas correções estéticas de dentes muito restaurados e com alterações cromáticas, as facetas cerâmicas apresentam uma alternativa terapêutica durável, com remoção mínima de estrutura dentária saudável, que neste caso se mostrou uma abordagem de sucesso.