Hoje, dois anos volvidos, as dificuldades mantêm-se, agudizadas por uma situação económica ainda mais fragilizada. António Ribeiro volta a alertar para os inúmeros constrangimentos que estes profissionais enfrentam. A Expodentis pode ajudar a animar o sector, mas não será com certeza o remédio para todas as dores de dentes. Urgem medidas estruturantes.
SAÚDE ORAL – Há dois anos, numa entrevista à SAÚDE ORAL, precisamente por altura da 1.ª edição da Expodentis, alertava para as dificuldades que as empresas deste sector enfrentavam. Deduzo que, infelizmente, não possa alterar o discurso de então…
– Não, não posso. O panorama continua muito complicado. E não só em Portugal mas também noutros países da Europa. Aliás, julgo que ainda pode vir a ficar mais complicado.
– Mas face ao resto da Europa, Portugal está particularmente mais debilitado? Ou simplesmente está alinhado pelo mesmo sentimento de instabilidade?
– Basicamente estamos alinhados pelo que se passa por toda a Europa. Mercados como Espanha e Alemanha sofreram quebras enormes. Sabemos inclusivamente que há fabricantes a dispensar pessoas. Creio que é inevitável.
– Uma realidade que Portugal também vai ter de enfrentar?
– Sim, claramente. Vai haver uma triagem das empresas que operam no nosso país. Sem dúvida que há estruturas empresariais que não vão sobreviver pois simplesmente não têm condições para isso. Tenho a noção de que isso vai acontecer.
– A nova legislação, a aplicar em Março de 2010, vai tornar a vida ainda mais difícil a quem opera neste sector?
– Claro que sim. Por exemplo, o facto de a partir de agora os armazéns terem de ser certificados pelo Infarmed, com a obrigatoriedade de um director técnico, vai obrigar a uma selecção das empresas que vão subsistir no mercado. Por outro lado, vai aumentar os custos. Estes factores obviamente vão ajudar a clarificar o mercado.
– Mas prevê um efeito de consolidação, no qual as grandes empresas irão absorver as pequenas? Ou este é já um fenómeno que tem vindo a acontecer?
– É um fenómeno que já tem vindo a acontecer. Por outro lado, já há empresas a fecharem a sua actividade. As grandes corporações conseguem preços que não são minimamente passíveis de serem conseguidos pelas estruturas de menor dimensão. Isto para não falar nas vendas a catálogo onde as empresas que actuam conseguem ter custos muito mais baixos, com excelentes economias de escala porque compram para vários países. Nós, somos um país pequeno com um ainda mais pequeno mercado. Depois, somos um país em que as pessoas têm dificuldades e um país onde muitas não vão ao dentista. E isto é um círculo vicioso. O dentista não tem pacientes, logo não gasta material, logo o sector fica em dificuldades.
– Se tivesse o poder de gerir este sector, que medidas tomava imediatamente?
– Este é um sector muito pequeno. Sei bem que as medidas não são fáceis de implementar. E podemos ver que a maioria das empresas são micro empresas, pequenas estruturas com uma ou duas pessoas. Apesar do sector ser composto por cerca de 150 empresas, são muito pequenas e não têm grandes possibilidades de cumprir exigências como as que a nova legislação, aliás transposta da União Europeia, vai implicar. São custos que as empresas simplesmente não conseguem suportar. O sector vai sentir imenso, pelo que este ano, com as dificuldades que prevemos, todas as empresas portuguesas vão ter graves problemas. Provavelmente subsistirão as estruturas que referi anteriormente: a venda por catálogo.
– Até que ponto exposições como a Expodentis, nesta altura, podem ajudar a que este sector ganhe uma nova dinâmica?
– Uma feira é sempre um factor positivo até pelo nível e número de contactos que normalmente lá são encetados. É uma altura em que o sector se torna mais visível, em que os vários profissionais tomam contacto uns com os outros o que, ainda para mais numa altura como estas, pode ser um impulso ao dinamismo. Mas nem de longe nem de perto é o remédio para todos os males. Nunca será.
Há duas vertentes muito importantes. Por um lado, temos o paciente e, por outro lado, temos o dentista. Esses são os dois principais vectores. Nesta cadeia, as empresas fornecedoras vêm depois. E o problema é que os pacientes são poucos, há muitíssimos dentistas – cada vez mais – mas com cada vez menos pacientes. Logo, os dentistas têm pouco poder de compra. E isso mexe com todo o sector.
– O que realmente poderia ajudar o sector?
– Se os médicos dentistas estivessem no Serviço Nacional de Saúde ou se o Estado comparticipasse parte dos tratamentos é óbvio que seria uma excelente ajuda. Não são só as grávidas e as crianças que precisam de cuidados nesta área. E a verdade é que há muita gente que precisava mas que não vai porque simplesmente não tem possibilidade. O que os hospitais contemplam são urgências, não são tratamentos. Uma comparticipação seria interessante e ajudaria com certeza a revitalizar o sector.
– Por tudo isto, acredita que o número de expositores vá baixar ou que, pelo contrário, e como forma de terem mais visibilidade, vá aumentar?
– Pelas informações que recolhi, o número de expositores da Expodentis é superior à da última edição. A primeira edição, que ocorreu há dois anos, foi um sucesso. Havia só um pavilhão e este ano há já um segundo pavilhão.
– Um dos objectivos da feira é torná-la ibérica. Acha que vão alcançar este objectivo?
– Em Espanha existe a Expodental, realizada em Madrid. Neste certame, costumam estar presentes sempre cerca de 1000 dentistas. Há dois anos, na Exponor, acabamos por perceber que nos vieram visitar muitos profissionais da Galiza. Até porque é muito mais perto vir até ao Porto do que ir até Madrid. Isto para além de que temos expositores do país vizinho. Por isso, queremos que a feira seja ibérica nos dois sentidos, na vertente de visitantes e na vertente de expositores.
– Está prevista alguma novidade?
– Vamos seguir a mesma linha da última edição. Contudo, muitos dentistas manifestaram a sua vontade da feira estar aberta igualmente ao domingo, pelo que contemplamos mais um dia de certame. A Expodentis acontece pouco mais de um mês depois da IDS na Alemanha, a maior feira mundial de material dentário. Podemos trazer todas as novidades para a Exponor.
– Hoje, o mercado está perfeitamente habilitado a responder às demandas dos profissionais deste sector?
– Claramente. As empresas cobrem todo o tipo de necessidades. Facilmente um profissional encontra em Portugal os produtos que necessita.
– Mas existe em Portugal investigação e desenvolvimento neste sector, ou basicamente importamos todo o tipo de conhecimento?
– Existe muito pouca investigação e desenvolvimento. Há algum trabalho feito na Universidade de Coimbra na área dos biomateriais e implantes, mas ainda é muito residual.