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Sexónia controlada com dispositivo de avanço mandibular

Miguel Meira e Cruz, médico dentista e investigador do Centro Cardiovascular da Faculdade de Medicina de Lisboa, e Marta Drummond, pneumologista e Professora da Faculdade de Medicina do Porto, ambos dedicados à medicina do sono, apresentaram em Istambul, durante o Congresso da World Sleep Federation, um caso raro de um doente adulto com o diagnóstico de Sindrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAHOS) que desenvolveu sinais e sintomas característicos de um tipo de parassónia, que cursa com comportamentos sexuais inconscientes e que emergem do estado de sono (Sexónia).

De acordo com Miguel Meira e Cruz, o caso do paciente adulto jovem que terá recorrido à consulta de sono porque ressonava alto e mantinha uma sonolência diurna há já alguns anos, evoca um exemplo do quão importante é avaliar e manter a atenção, mesmo depois do diagnóstico.

Neste caso, durante a avaliação para decisão terapêutica com dispositivo oral, a companheira do paciente que tinha o diagnóstico de SAHOS ligeira (com um índice de eventos respiratórios, IAH de 6,9/h) com predominância de eventos respiratórios em REM (fase de movimentos rápidos do olhos, em que o IAH era de 16,1/h), manifestou-se incomodada com o que referiu constituírem assaltos sexuais repetidos durante a noite, sobre os quais, o protagonista alegava falta de memória.

Estas tentativas eram recorrentes e coincidiam todas na primeira metade do sono. O doente, sem história anterior relevante, e que reconheceu despertar nessas circunstâncias, confirmou os despertares confusos, típicos da interrupção consciente da fase de sono NREM, que ocupa normalmente a maior parte da primeira parte do sono. Após descartar fenómenos epiléticos e confirmar a existência de estados dissociados no registo polissonográfico diagnóstico, foi estabelecida a hipótese diagnóstica complementar de sexónia.

Dado o diagnóstico previamente definido de SAHOS ligeira e a possibilidade destes eventos surgirem como consequência da instabilidade do sono no contexto da perturbação respiratória, optou-se por titular um dispositivo oral de avanço mandibular Narval CC, da Resmed, até 50% da protusão máxima.

Os eventos respiratórios normalizaram todos e a sonolência durante o dia, medida através da escala de Epworth, melhorou significativamente, atingindo um valor considerado normal – de 12 para 8. O comportamento sexual durante o sono não recorreu durante todo o percurso terapêutico, mantendo-se estável na consulta de follow up após dois anos. “O doente está bem e sem queixas”, indicou Miguel Meira e Cruz.

“Além do embaraço social, as parassónias com envolvimento de comportamento sexual constituem um tema de relevância médico-legal com consequências potencialmente dramáticas (acusação de violação, diferenciar patologia associada com o sono de comportamento consciente marginal)”, indicou o médico dentista. Por outro lado podem surgir no contexto de formas epiléticas “mascaradas”. Devem ser por isto cuidadosamente avaliadas e tratadas.

“No presente caso, a ocorrência na matriz patológica de perturbação respiratória relacionada com o sono torna plausível que os eventos sexuais surjam nesse contexto, tese consolidada pelo controlo do tratamento da SAHOS com DAM”. Um outro aspeto é o de que os eventos respiratórios existentes em REM, e que têm geralmente uma resposta mais limitada à terapêutica com dispositivos orais, foram resolvidos na totalidade (como demonstrado pela PSG terapêutica).

Segundo Miguel Meira e Cruz, esta é a primeira vez que se reporta um tratamento de sucesso (dirigido à condição respiratória, mas que resolveu o problema secundário) com um dispositivo de avanço mandibular.