Cláudia Febra, assistente hospitalar de Medicina Interna no Hospital da Luz, Lisboa, que colaborou directamente com Graham Hughes – o médico britânico que identificou a síndrome antifosfolípido (SAF) e que é uma das maiores sumidades mundiais no tratamento de doenças auto-imunes, nomeadamente da lúpus – não tem dúvidas acerca do facto de, em Portugal, existir falta de informação sobre a “doença do sangue espesso”, como Hughes gostava de apelidar a patologia.
«A SAF é uma entidade com “aromas” de esoterismo para muitos cidadãos portugueses, entre eles alguns médicos, pela sua ainda curta história. A divulgação da sua existência tem sido uma das missões que o Dr. Hughes tomou como prioritária, através de conferências científicas regulares e de elevada qualidade (logo muito participadas), da criação de uma fundação sem fins lucrativos para a divulgação da doença (Hughes Syndrome Foundation), ou da promoção de iniciativas desportivas e culturais com doentes e seus familiares. Em Portugal, pouco se tem escrito e falado nesta patologia, pelo que saúdo a iniciativa da revista Saúde Oral na sua divulgação, desejando que se repita noutros fóruns de discussão dirigidos a médicos e à população em geral», afirma a médica.
A SAF faz parte do mundo extenso de doenças auto-imunes, em que os mecanismos de defesa, que habitualmente protegem o indivíduo, estão desregulados, pelo que começam a produzir anti-anticorpos que agridem várias estruturas do próprio organismo; num processo em que as defesas actuam ao “contrário” da sua missão. Na síndrome de Hughes, afiançam os especialistas, a produção de anticorpos antifosfolípidos provoca um excesso de coagulação do sangue e a ocorrência de tromboses.
Esta síndrome foi identificada por Hughes em 1983, em Londres, como uma nova doença, sendo a associação de tromboses arteriais e venosas recorrentes em vários órgãos e sistemas, abortos de repetição e a presença de anticorpos antifosfolípidos em análises de sangue as manifestações mais habituais. A síndrome de Hughes pode existir isolada (forma primária, a mais frequente), ou associada a outras doenças auto-imunes como, por exemplo, o lúpus (forma secundária). Um dos principais (e devastadores) efeitos no paciente é o aparecimento de trombos que impedem a livre circulação do sangue.
Segundo Claúdia Febra, a “doença do sangue espesso” manifesta-se pelo aparecimento de trombos arteriais ou venosos e patologias obstétricas. «As formas mais frequentes de doença são as tromboses venosas profundas dos membros inferiores de repetição e o tromboembolismo pulmonar em doentes jovens sem co-morbilidade associada ou com antecedentes de lúpus eritematoso sistémico, não sendo incomuns as tromboses venosas de segmentos mais bizarros (como seios venosos cerebrais, sub-clávias, jugulares internas, renais) ou as tromboses arteriais (cerebrovasculares, coronárias, entre outras)», explica.
Leia o restante artigo na revista Saúde Oral N.º 67. Brevemente.


