Como surgiu a medicina dentária na sua vida?
Surgiu de uma forma muito natural, já que os meus pais são ambos estomatologistas. Acabei por seguir um percurso que estava habituado a ver em casa. A partir dos oito anos passei as férias dentro do consultório dos meus pais, por isso desde cedo tive muita afinidade para a profissão.
O que recorda dessa altura?
Lembro-me perfeitamente do consultório, da disposição, da sala de espera, tenho isso muito claro nas minhas memórias. Lembro-me dos horários dos meus pais e tinha perfeita noção, desde pequeno, que esta era uma profissão muito absorvente. Ou seja, que as pessoas não tinham um horário de trabalho normal. Mas para mim era normal.
Orientou os seus estudos na vertente da medicina dentária?
Na altura tinha claro que queria ser médico dentista. Também não tive grandes alternativas, pois lembro-me do meu pai dizer que só havia três cursos: ou medicina, ou medicina dentária ou engenharia. Fazia gosto que seguisse a área, mas curiosamente isso acabou por não se concretizar em termos profissionais. Nunca trabalhei com os meus pais.
Foi normal a abertura de uma clínica em nome próprio?
Sim, nem havia a hipótese de ser de outra maneira. Sempre quis ter o meu negócio, não me assustou terminar o curso e trabalhar o meu próprio caminho. Tive a sorte de encontrar outras clinicas onde começasse a trabalhar e depois, por coincidência, abriu uma vaga no Exército para o quadro permanente como medico dentista. Por isso é que fui para Mafra, tendo acabado por montar aí o meu primeiro consultório. Estive oito anos no Exército e acabei por sair porque cheguei ao topo da carreira, não podia ir mais longe.
O que é o topo?
Ser diretor de serviço do Hospital Militar. Não há mais nada clínico a fazer.
Como era a vida no Exército?
Tenho boas recordações. Sempre fui um pouco outsider, nunca tive formação militar, mas acabei por adaptar-me a um regime militar. Em certa parte teve bastante influência na minha vida, em algumas situações acho que essa formação, já depois de ter terminado o curso, foi boa em termos de organização, tenacidade, resiliência, rigor. Foi positiva a passagem pelo Exército.
Nessa altura já tinha uma área de interesse?
Não. No Exército eramos generalistas, algumas pessoas dedicavam-se mais a cirurgia, ou à ortodontia, mas de uma forma geral eramos generalistas. Na altura não era comum colocarem-se implantes. Acabei por ficar durante algum tempo e mais tarde fiz um investimento grande na minha clinica. Até que surgiu a oportunidade de substituir interinamente o diretor de serviço do Hospital Militar principal. A partir daí só me restavam duas hipóteses: ou seguia a carreira militar burocrática ou continuava com a minha clínica. Sabia que ia ser promovido a oficial superior e percebi que não tinha tempo para a vida no Exército. Saí com licença sem vencimento há dez anos.

Foto: Eduardo Martins
Como conseguiu desenvolver a sua clínica, como construiu a base de clientes?
Estamos a falar em 1999, era tudo mais fácil. Havia menos concorrência, se um médico dentista se diferenciasse em determinadas áreas acabava por ter uma mais-valia e facilidade de arranjar novos pacientes, fazer tratamentos mais diferenciados. Foi o que aconteceu. Cedo procurei formação para me especializar em determinadas áreas. Acho que tenho tido muita sorte na minha vida, principalmente porque aprendo algo e tenho a capacidade de colocar na prática o que aprendi. Tenho pacientes para isso, não tenho dificuldade em aplicar esse conhecimento. Sempre foi assim.
Como surgiu a especialização?
Foi uma questão de necessidade. Fui generalista durante oito anos, como tal fazia de tudo um pouco: cirurgia, prótese fixa, implantes, mas não me dedicava em exclusividade a essas áreas. Foi importante ser generalista, pois hoje em dia uma pessoa que não seja generalista durante um período de tempo não tem conhecimento da profissão no seu todo. Acho que foi das coisas mais importantes da minha vida não ter escolhido imediatamente fazer só uma área. É muito importante trabalhar em várias áreas para depois conseguir dizer: ‘é isto que quero fazer’. Já sabia que ia acabar por trabalhar com implantes, cirurgia e prótese fixa, sempre foi algo muito claro para mim, mesmo quando estava a concluir a licenciatura.
O que o atrai nessas áreas?
Devolver o sorriso às pessoas. Há muitos colegas que pensam que sou só implantologista. Não, não sou implantologista. Faço reabilitação oral e tive de aprender a colocar implantes para fazer reabilitação oral. Ou seja, o princípio não foram os implantes, mas sim a reabilitação oral e a necessidade de colocar implantes. Inicialmente fazia prótese fixa, mas em vários casos os tratamentos podiam não ter a durabilidade que deveriam porque na altura não colocava implantes. Não havia uma solução ideal sem passar por isso, pelo que acabei por ser obrigado a aprender implantologia para conseguir dar resposta aos meus pacientes.
Como analisa o mercado da implantologia hoje em dia?
Estamos na ponta do iceberg. Já existem muitos problemas, mas acho que cada vez vão existir mais provocados por má prática. No meu tempo, quando terminávamos o curso tínhamos uma formação de seis anos, trabalhávamos como generalistas e só depois decidíamos qual a área a seguir. Primeiro tínhamos um conhecimento vasto da profissão e só depois escolhíamos uma área. Agora os alunos estão cinco anos na faculdade e aprendem o mínimo para poder trabalhar. A parte cirúrgica é uma desgraça, a maior parte não sabe abrir um retalho ou extrair um dente, na endodontia é igual. Estamos a formar demasiados dentistas que têm poucas armas. E depois temos o negócio das Pós-Graduações, com o envolvimento das faculdades. Neste momento, a maior parte das Pós-Graduações são organizadas em faculdades que já perceberam que têm o ensino pré-graduado e não interessa ensinar muito mais porque depois têm a possibilidade de vender aos mesmos alunos mais formação por um determinado valor. Acho que o futuro da medicina dentária vai passar pela formação pós-graduada e pela qualidade dessa formação.
Relativamente à implantologia estamos na ponta do iceberg e posso dizer que grande parte da minha parte clínica atual é refazer casos que surgem na minha clínica.
Por má colocação de implante? Que tipo de problemas aparecem?
Temos dois grandes problemas na área da implantologia: primeiro a falta de conhecimento de quem coloca implantes dentários. Hoje em dia ainda não existem grandes noções de regeneração óssea. Quem faz implantes tem de fazer regeneração óssea e regeneração tecidular, não há outra maneira. Então, o primeiro problema é a aplicação de uma técnica de forma desadequada. O segundo problema é a seleção dos próprios pacientes para aplicação dessa técnica e a forma como a periimplantite hoje em dia está ativa. Cada vez temos mais casos de falha e parte dessas falhas estão relacionadas com mau diagnóstico. Não criamos as condições ideais para colocar os implantes e depois eles falham. Se não falhar por completo ainda é pior para resolver.
É fácil resolver esses problemas?
Os casos são normalmente difíceis, temos dois fatores importantes e que têm de ser bem explicados: primeiro temos o fator económico. O paciente já gastou dinheiro uma vez agora vai ter de gastar mais. Depois é o fator psicológico, que tem a ver com a sensação de perda. Primeiro a perda do dente natural, depois da reabilitação fracassada. O paciente, quando a comprou pela primeira vez, tentou fazer um investimento para que corresse bem. Temos estas duas perdas, que dão origem a um paciente mais difícil, mais inseguro, menos confiante no nosso trabalho, que dúvida, mesmo que venha por referência é um paciente diferente. É necessário restituir a confiança, investir mais tempo no paciente, dar mais provas que somos capazes.
Acha que os dentistas devem informar melhor os pacientes sobre o que é a colocação de um implante?
Acho que existem fatores de marketing e de venda, de facilitismo de algo que é tudo menos fácil. Não é difícil colocar um implante, o difícil é coloca-lo bem. Fazer isso bem é que se torna mais complicado. Existe alguma desinformação dos pacientes e normalmente essa informação que os pacientes têm vem da internet, ou da televisão e acabam por muitas vezes por se deparar com uma realidade diferente no consultório. Não entendem porque o que viram era diferente e torna-se um pouco difícil de gerir expetativas.
Na sociedade, o que queremos ver é o resultado final. O que se vê no Facebook é o sorriso, os bastidores não são mostrados. É necessário uma aposta nesse tipo de informação?
Vou ser sincero: acho que a Internet é muito boa e muito má. Quantos não me aparecem com o Dr. Google a dizer que viram algo e se eu não faço assim então é porque talvez não seja a pessoa certa? Já me aconteceu percebermos que existem dúvidas da outra parte. E hoje em dia também existe muito as pessoas que vão à procura de preço.
Sempre estabeleceu os preços num patamar mais alto?
Sim, sempre tive valores um pouco acima da média, por opção. Não é o preço que determina a qualidade de tratamento. Se o preço for justo temos muito mais capacidade de, em caso de falha, resolver o problema ao paciente sem aplicar outros custos. Não tenho essas discussões com os meus doentes. Quando corre mal, repito e pronto. Não cobro mais por isso. Se corre mal estou cá para dar a cara e resolver o problema aos doentes.

Foto: Eduardo Martins
A partir de 2016 que caminhos que gostava de percorrer?
Não tenho medo de mudar, a mudança não me assusta. Sempre fui percorrendo o meu caminho baseado nesse princípio. Tenho mais medo que não mude do que mudar algo. É preciso sentirmos o sangue na guelra e para isso é preciso fazer alterações. Atualmente não vislumbro nenhuma alteração da minha vida de uma forma drástica, mas não fecho a porta a nada, a nenhum projeto. O tempo é que vai ditar o que vai acontecer.
Como vê a medicina dentária em Portugal nos dias de hoje?
Vejo a medicina dentária feita em Portugal, por médicos portugueses, do melhor que existe no mundo. Top mundial. Top mesmo! E depois vejo exatamente o oposto. Como é possível haver duas coisas tão antagónicas no mesmo país, quando no fundo a formação de base é comum a todos? Como uns evoluem para o topo da pirâmide e outros ficam tão longe? Acho que tem a ver com a postura que as próprias pessoas têm em relação à profissão, o gosto que têm pela profissão. Em termos gerais não vou dizer que a medicina dentária seja muito má em Portugal. Porque q não é. E tanto que não é que os médicos dentistas portugueses têm lugar em qualquer país, quando há uma seleção de pessoas para integrar projetos fora de Portugal, os portugueses normalmente têm lugar. Significa que a formação base acaba por, apesar de a considerar claramente insuficiente, continuar a ser acima da média.
Como vê a possível entrada de médicos dentistas no SNS?
Sinceramente acho bem e sou a favor. Acho que existe muito subemprego, muitos dentistas que estão sem trabalho e é uma medida que me deixa feliz. Se for algo para ajudar os médicos dentistas que têm necessidade de trabalhar e não têm colocação, ou que seja para melhorar a empregabilidade dos jovens médicos dentistas acho fantástico. Se for para criar lobbie acho péssimo.
Em relação às eleições na OMD, Orlando Monteiro da Silva voltou a ser eleito uma vez que não havia uma lista alternativa. Como comenta?
É algo que me faz imensa confusão. Não fui votar porque achei que não valia a pena. Desmotivou-me termos uma lista única. Podia ter ido votar em branco, mas não fui. Mesmo que houvesse uma segunda lista, até poderia votar novamente no Orlando Monteiro da Silva, não é isso que está em causa. Como é que uma profissão que tem tantas pessoas aparentemente descontentes, com tantas pessoas que aproveitam as redes sociais para denegrir e falar mal e atacar, porque não aparecem mais listas como uma real alternativa, para alterar algo na medicina dentária atual. Fiquei espantado por não haver outra lista, por não existir ninguém que queira discutir a liderança.
Há um afastamento assim tão grande dos médicos dentistas da vida política, deste lado mais político?
Acho que existem pessoas até com perfis adequados para poderem candidatar-se, existem políticos em todas as profissões. O problema é que as pessoas não querem sair da sua zona de conforto e é mais fácil falar à distância, ou atrás do teclado do computador. Fazer manifestações veladas, mas quando chega a altura retraem-se.
Por medo? Por falta de coragem? Por não quererem sair da zona de conforto?
Sim, é mais por não quererem sair da zona de conforto. Temos uma profissão clínica, uma profissão pouco burocrática, é muito prática, muito ativa e estas funções implicam muita burocracia.
Nunca pensou seguir essa via?
Não tenho qualquer ambição política. Nunca fui convidado para fazer parte de uma lista política. Na minha vida houve várias situações curiosas: nunca fui convidado para fazer parte de nenhuma lista, de nenhuma fração, para estar numa faculdade, nunca fiz uma conferência em nenhuma faculdade deste país, nem uma conferência na faculdade onde me formei há quase 20 anos, nunca fui convidado para um congresso da OMD, portanto sou uma pessoa fora do sistema. Sou um outsider do sistema, o meu percurso político e académico não tem nada a ver com esse tipo de amizades ou circuitos de influência. Sou 100% clínico.
Faz-lhe falta esse reconhecimento?
Não me faz falta nenhuma, é apenas uma constatação. Mas não deixa de ser curioso. Tenho grandes amigos na profissão e tenho grandes referências também. A mim não me custa valorizar quem merece.

Foto: Eduardo Martins
Como vê a formação no seu dia-a-dia, é importante? Gosta de ensinar, gosta de transmitir conhecimento?
Comecei a dar cursos em 2006/2007 a colegas porque sempre gostei de ensinar. Quem trabalhou comigo sempre teve acesso a todas as informações, nunca escondo nada. É bom sentirmos que, de alguma forma, fazemos parte do desenvolvimento profissional de outros. É um sentimento verdadeiramente genuíno. Comecei a fazer formação e tem sido recorrente, tenho tido alguma sorte e normalmente quando abro vagas para fazer um curso em muito pouco tempo ficam preenchidas. Faço uma formação muito personalizada, não faço formação para massas, mas sim para grupos pequenos e de uma forma intensiva. Acho que tenho o meu mercado.
Para 2016 tem previstas novas formações?
Sim, tenho novos projetos para 2016 e posso até revelar um deles: no dia 2 de abril vou participar no Sename Portugal, um congresso de um dia só com os moderadores portugueses que participaram no Sename, no Estoril. Vai ser realizado em Coimbra, é um evento sem patrocínios de marcas e vai ser totalmente gratuito. Vamos falar sobre ciência, sobre o nosso percurso, sobre motivação. Vai ser interessante porque não tem um programa rígido, queremos dar um lado menos cinzento, principalmente aos jovens médicos dentistas que são bombardeados com um futuro incerto e não tão risonho. Cabe-nos a nós, que somos mais velhos, mostrar outra perspetiva do seu caminho.
Qual é o seu sonho?
Aquilo que é mais importante sentir que estou a fazer as coisas bem, que tenho o reconhecimento dos meus pacientes, mais do que qualquer outra coisa.
Mais do que entre pares?
Não vou dizer que não seja algo que nos agrade a todos. Todos os profissionais gostam de sentir que têm reconhecimento dos seus pares. É natural e seria hipócrita se dissesse que não, mas mais do que o reconhecimento dos pares, o importante é sentirmos que na nossa prática clínica, naquilo que fazemos todos os dias, estamos a fazer o melhor. Digo sempre que gostava de hoje ser um dentista melhor do que fui ontem, mas espero que amanhã consiga ser melhor do que hoje. Todos os dias quero ser melhor, é isso que me faz movimentar. Continuo a investir muito na minha formação profissional. O que espero alcançar? Tranquilidade. Acho que atualmente já atingi alguma dessa tranquilidade, essa paz a todos os níveis. Quando a ansiedade já não está tão presente, isso faz-nos tomar as decisões certas. O que pretendo atingir a nível pessoal é tranquilidade. Porque sei que o resto vem por acréscimo!


