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Entrevista

Cátia Gonçalves: “Sou uma ‘control freak’”

Cátia Gonçalves mestre em Periodontologia Saúde Oral

Em criança qual a profissão que queria seguir?

Médica. Pintora. Poeta. Veterinária. Bailarina. Compositora. Bióloga. Artesã. Nadadora. Dona de uma papelaria. Tudo isto.

O que a levou a optar pela medicina dentária?

Era a profissão que reunia mais valências que reconhecia na minha pessoa. Aliava a inteligência cinestésica (check), a biologia e a medicina humana que amo. A medicina pura (geral) não é para mim. Não tenho estofo psico-emocional, envolvo-me demasiado nos problemas alheios e preciso de um biorritmo regular diário. Não aguento noitadas ou privação de sono. E “com os males dos outros, não posso eu bem”: pode-se dizer que sofro de uma espécie de ‘hiper-empatia compulsiva’. Por outro lado, uma profissão exclusivamente no mundo das artes também não me realizaria. Há coisas no “funcionamento real” do mundo artístico que não encaixam comigo, enervam-me. Digamos que sou uma espécie de hidra eternamente insatisfeita, com uma cabeça nas artes e outra cabeça nas ciências. E ambas as cabeças pensam e falam demais.

A nível profissional, qual o episódio que mais a marcou?

O dia em que saí da Faculdade de Medicia Dentária da Universidade do Porto com o grau de Mestre em Periodontologia.

Tem algum lema de vida?

Só um??? Não, tenho vários, para várias situações. Mas, essencialmente, “vive e deixa viver”, “nem tudo o que parece é”, “enfrenta os medos de frente”, “tem fé” e “nada é impossível” são coisas que digo diariamente a mim própria. Não gosto do lema “um dia de cada vez”, para mim é completamente contranatura, mas ando a tentar encaixar esse “chip” na minha cabeça, porque sou uma “control freak”. Gosto sempre de saber de onde venho, para onde vou, quando, qual é o melhor (e não necessariamente o mais fácil) caminho e quem me vai acompanhar na jornada. Mas hoje em dia programar a vida não resulta tão bem com antigamente.

A nível profissional, do que mais se orgulha e do que mais se arrepende?

Orgulho-me de não conseguir mentir, nem de vestir camisolas nas quais não acredito, ou que não primem pelos bons princípios. Ou camisolas que me limitem a liberdade (camisas de forças). De ter a noção dos meus limites. De só partir para um tratamento depois de acreditar que é exatamente o melhor que faria a um familiar. De não ser corrompível por benefícios financeiros ou outros. De reconhecer os bons pares profissionais com orgulho e sem um pingo de inveja. De nunca ter desistido de cruzar uma meta que me tenha proposto.

Arrependo-me de não ter sido mais segura de mim em certas situações que o exigiam. De ter demorado anos a pacificar-me com a parte psicológica de lidar com pacientes todos os dias. De ter demorado demasiado tempo a tomar certas decisões que eram prementes e que acabaram por ser tomadas mais tarde do que gostaria, relativamente a certas escolhas e colaborações profissionais.

De me ter passado pela cabeça desistir.

De ter acordado tarde para certas realidades da nossa área.

De não ser organizada e de ainda ser um sofrimento atroz, para mim, documentar os meus casos.

Não sai de casa sem…

A minha filha e a cabeça entre as orelhas. Ah, e os óculos. Vejo um bocado mal sem eles.

Qual o seu maior vício?

Estar perto das pessoas que amo. A liberdade. A procura da verdade em tudo. O tabaco (que vergonha). Escrever. Sofrer com dilemas filosófico-lógico-emocionais. Gengivas e sangue.

Qual a palavra que melhor a descreve?

Intuitiva. Obstinada. Uma das duas.

Projetos por concretizar em 2016?

Realizar sonhos antigos relacionados com a ascensão técnica/científica, no campo profissional, maior dedicação à vertente “formação”, realização pessoal, mais descanso, mais tempo de qualidade com os meus, mais lazer, mais vida saudável. Tudo coisas perfeitamente fáceis de fazer em seis meses (não)!

O que falta no sector da medicina dentária em Portugal?

Pacientes para todos (tem que se brincar com a desgraça).

Agora a sério:

  1. Humildade.
  2. Transparência.
  3. Honradez.
  4. Lealdade.
  5. Menos mercenarismo.
  6. Mais respeito, por parte dos grupos económicos por detrás dos franchisings e suas variações, pelos profissionais, pela medicina dentária de qualidade e pelos pacientes.
  7. Maior visibilidade, no estrangeiro, do que se faz por cá (somos um dos países com melhor medicina dentária mundial)

 

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